O Globo, Razão Social, p. 10-11
19 de Abr de 2011
Holanda se prepara
País cria tecnologias para se adaptar à natureza por causa do aquecimento: Fundo de 1 bilhão de euros está previsto
Holanda - O vento cortante entra pela pele e a gente nem se dá conta de que está começando a Primavera naquele gelado país europeu. Estamos no terceiro dia de viagem pela Holanda, agora numa pequena cidade com pouco mais de 150 mil habitantes chamada Arnhem. De uma rua construída em cima de um dique, vemos cerca de 50 casinhas lindas, parecendo de boneca, que vão ser demolidas para dar lugar às águas do rio iJssel quando começarem as obras do programa "Room for Rivers" ("Espaço para os rios"). Os moradores já foram comunicados, e a maioria parece apoiar a iniciativa. É apenas uma parte de um enorme programa do governo holandês para se adaptar às mudanças climáticas em vez de reagir às tragédias causadas pelos desastres naturais.
Neste caso específico, o rio iJssel precisa de mais espaço porque, com o degelo no Ártico, receberá uma quantidade muito maior de água do que seu leito consegue suportar. Ou seja, de uma forma ou de outra, as casinhas estão condenadas. A menos que não se acredite nas previsões e nos estudos encomendados pelos próprios coordenadores do projeto, que vão de encontro aos dados revelados em 2007 pelos cientistas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC na sigla em inglês).
Uma forte campanha de convencimento, no entanto, encontra eco na maioria - "Não pouco, não muito, não tão cedo, não muito tarde. Nós não subestimamos os desafios que vamos enfrentar" - diz um dos CDs de propaganda do Delta Program. Se a Lei Delta for aprovada pelo Parlamento, vai permitir que, a partir de 2020, pelo menos 1 bilhão de euros sejam depositados anualmente no Fundo Delta para obras de adaptação.
O orgulho de viver na "região de delta mais segura do mundo" aparece na conversa com quase todos os holandeses envolvidos no projeto. Tanto quanto a preocupação com a vulnerabilidade do lugar a súbitas alterações do nível do mar, fenômeno previsto para acontecer se a Terra continuar aquecendo no ritmo de hoje. Somos um pequeno grupo de jornalistas (dois brasileiros e um australiano) convidado pelo governo holandês para conhecer os planos para o futuro do país face às mudanças climáticas e, talvez, fazer replicar seu exemplo mundo afora.
"Viver num Delta é viver eternamente com o risco de enchentes", diz Jan Stijnen, do Departamento de Risco e Segurança da Água. Contra esse risco eterno, foram construídos diques ao longo dos tempos e hoje há, ao todo, 17 mil quilômetros deles para segurar 59% do país que vivem em área alagável. No final do século XX, no entanto, uma decisão foi tomada: não construir mais diques e, sim, aplicar alta tecnologia em obras para conviver com as águas, levando em conta os novos desafios que virão.
E não são poucas as obras. A maior e mais impressionante é a barreira de Maeslant, que foi erguida em 1997 para proteger o Porto e a cidade de Roterdã quando o nível do Mar do Norte se elevar. São dois portões em forma de arco gigantes, com 22 metros de altura por 220 de comprimento que, quando acionados por computador (nenhum homem tem o poder de fazer isso, só a máquina) viram uma espécie de comporta anti-enchente. Custou US$ 700 milhões, não provoca nenhuma alteração no Porto de Roterdã (considerado o segundo maior do mundo) e exige uma equipe de cerca de dez pessoas. Uma delas é encarregada de pegar o telefone para avisar, primeiro ao prefeito, caso a barreira comece a se fechar, movimento que demora cerca de 20 minutos.
Até hoje a Maeslant só fechou uma vez, em 2007, numa enorme tempestade. E deu certo. Há uma barreira também no rio Tâmisa, para proteger Londres, mas com outra tecnologia, pois vai precisar ser aumentada 200 vezes, todos os anos, até o fim deste século, a fim de aguentar o rojão do impacto causado pela combinação entre tempestades mais violentas e elevação do nível do mar. E Nova Orleans, depois da passagem do Katrina, está importando a tecnologia holandesa para se defender, segundo conta, orgulhoso, Peter Peerson, diretor técnico do Centro de Água Pública, responsável pela barreira desde sua concepção.
A informação é confirmada pelo professor Piet Dircke, da universidade de Ciências Aplicadas de Roterdão, que acrescenta um detalhe: "Depois do furacão Katrina, os americanos estão tratando as inundações como uma questão de guerra". Mas ele conta que construção da barreira norteamericana não foi um consenso entre os ambientalistas:
- É seguro, mas não é bonito. Mas é importante para que eles possam se reerguer. Duas mil pessoas abandonaram a cidade de Nova Orleans e não pretendem mais voltar por lá - disse ele.
Mas, voltemos para Holanda. Na cidade de Roterdã, o foco da adaptação é na gestão urbana. Considerada a maior emissora de carbono do mundo segundo o Instituto Internacional para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, a cidade assume este papel mas quer mudar. "Roterdã quer ficar conhecida como uma cidade carbono neutro em 2025", diz um funcionário de uma unidade municipal desenvolvida para criar uma estratégia de adaptação, que inclui telhados verdes para absorver água da chuva. Para estimular a população a entrar na onda dos telhados eco haverá uma grande campanha e, aos domingos, um estande será montado num centro de lazer para ensinar as pessoas a fazer. Roterdã também se prepara para armazenar água da chuva numa grande garagem que está sendo construída. Esta água será usada depois para ajudar o sistema de drenagem de esgoto.
De Roterdã partimos para Haia, onde o Mar do Norte receberá outro tratamento, sempre com o objetivo de tentar contê-lo. Este plano, que recebeu o nome de "Construindo com a natureza", é depositar, próximo à praia, uma grande quantidade de areia retirada do fundo do oceano. Quatro navios farão o transporte nesse plano piloto, e vão jogar a areia de uma distância grande, com um mecanismo especial, de jato. A areia vai criar sedimentos naturais, o que dá ainda um toque ecológico ao empreendimento. É simples e caro, mas eles garantem que até 2015 estará pronto e que vai dar certo.
Temporais deixam os holandeses bastante aflitos.
Até hoje eles se lembram de 1953, quando uma tremenda tempestade no Mar do Norte causou a morte de muita gente em toda a Europa, afetando sobretudo os Países Baixos. "O lado bom foi que se criou uma governança para tratar da questão das enchentes", diz Alex Hekman, gerente do Programa de Deltatecnologia. Essa governança pensou também na melhor maneira de salvar a água da agricultura, com as Greenhouses, espécie de estufas gigantes que reaproveitam 60% da água das chuvas. E criou a possibilidade de os holandeses morarem também em casas flutuantes.
A repórter viajou a convite do governo holandês
'Temos que manter esse país seguro e atraente'
O trabalho no Delta assumiu proporções tão grandes que o governo decidiu nomear um coordenador.
Wim Kuyken falou com o Razão Social sobre a estratégia para o futuro.
O Globo: Qual é seu trabalho?
Wim Kuyken: Todos sabem que há alguma coisa mudando no clima, mas ninguém sabe a extensão dessas mudanças. Tentamos, então, trabalhar com vários cenários para garantir a segurança do nosso país, sempre seguindo a opção adotada pelo governo: entre a mitigação e a prevenção, faremos a prevenção.
O Globo: Há quem duvide das previsões sobre o aquecimento global. O que o senhor pensa disso?
Wim Kuyken: Nós sabemos que está ficando mais quente, que o mar está subindo, que o rio terá um novo traçado (aumentando em alguns pontos, diminuindo em outros), que o nosso solo está diminuindo. Temos que estar preparados para manter esse país seguro e atraente.
O Globo: A Holanda está exportando essa tecnologia para lidar com águas? O Brasil já procurou informações?
Wim Kuyken:É um desafio nacional mas, naturalmente, com uma influencia internacional porque nós trabalhamos na Europa e há muitos interesses na nossa tecnologia da água, como também no jeito com que nós abordamos este problema. Um ministro do Brasil já esteve aqui para falar sobre transportes e se interessou pela nossa tecnologia do Delta, mas apenas isso. Nós temos contato com Cingapura, Austrália, agora estamos fazendo uma missão enorme no Vietnam, estaremos em Bangladesh, ajudamos Nova Orleans, temos contato com Califórnia, no Delta Mississipi.
O Globo:Por que a opção da adaptação em vez da mitigação dos problemas?
Wim Kuyken: Porque nós sempre reagimos. Em 1995, tivemos que evacuar 250 mil pessoas por causa do aumento das águas do rio Waal. Estávamos começando a pensar no programa "Um espaço para os rios". Essa é a primeira vez que o país decidiu mudar essa política. Nós temos que mostrar não só para os cidadãos como para os nossos investidores estrangeiros de que somos um país seguro. É uma questão econômica também. Os cenários dizem que, se não estivermos preparados, em 2050 vamos ter que pagar uma conta muito maior por causa dos desastres naturais, que trarão danos também para a nossa agricultura e nosso processo industrial. Bem, eu não sei quanto aos outros governos, mas o nosso decidiu estar preparado. Nos próximos 2, 3 anos, faremos ainda muito mais, é a nossa estratégia para o futuro. É a nossa história.
O Globo, 19/04/2011, Razão Social, p. 10-11
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