OESP, Metrópole, p. A16
12 de Abr de 2015
Hidrografia de SP dobra com a descoberta de 300 'rios invisíveis'
Edison Veiga
Em parceria com DANIEL BRAMATTI
Grupos se organizam para mapear córregos, riachos e nascentes espalhados pelo Município; de acordo com dados da Prefeitura, a capital tem oficialmente 287 cursos d'água, mas o número é menos da metade do que acreditam os 'desbravadores'
Basta contar, um a um, no Mapa Hidrográfico do Município de São Paulo - sob a chancela da Prefeitura. Estão lá os 287 rios, riachos e córregos paulistanos. Mas, munidos de paciência, boa vontade - e um tiquinho de desconfiança - diversos ambientalistas têm mapeado cursos d'água que ainda não entraram para a malha fluvial oficial. Graças a esse trabalho, estima-se que sejam pelo menos 300 os "rios invisíveis" de São Paulo: o que mais do que dobraria, portanto, a quantidade oficialmente aceita hoje.
"E ouso dizer que essa estimativa é pessimista", acredita o geógrafo Luiz de Campos Júnior, de 53 anos, que há 20 anos estuda a hidrografia paulistana e em 2010 se tornou um dos criadores do projeto Rios e Ruas. "Tenho convicção de que podem ser muito mais, se explorarmos bem os confins do município."
Em 80 expedições, eles descobriram um rio novo para cada já catalogado
"Essa discrepância numérica (entre dados oficiais e estimativas) existe porque nossos critérios não são técnicos, são humanos", explica o arquiteto e urbanista José Bueno, de 54 anos, também criador do Rios e Ruas. "Para nós, cada afluente, por menor que seja, é importante. Então, não importa se é um trecho, da nascente até desembocar no 'rio oficialmente catalogado', de 1 km ou até menos." De 2010 para cá, Campos, Bueno e equipe realizaram cerca de 80 expedições pela malha hidrográfica paulistana - e, em média, para cada rio já conhecido, encontraram um outro que, nos mapas, ainda não aparecia. "Sempre tem um vizinho que aparece contando que corre uma água do outro lado, e por aí vai", exemplifica o arquiteto.
E como o objetivo do grupo, mais do que descobrir, é engajar as comunidades - para que preservem os rios -, essas expedições costumam ser abertas a interessados (confira a agenda neste site). No próximo fim de semana, está prevista uma na zona norte de São Paulo, em parceria com o Sesc Santana (mais informações e inscrições neste link).
Sim, existe. Formado em administração de empresas e ex-corretor de seguros, Adriano Sampaio (foto acima), 43 anos, criou, em agosto do ano passado, a página Existe Água em SP, no Facebook. Virou um caçador de nascentes de rios - e frequente palestrante do tema. "Fiquei impressionado quando me mudei da Pompeia para o Jaraguá e conheci rios ainda não canalizados, com muita fauna", conta.
Então, pesquisando o assunto, ele se deparou com mapas hidrógraficos antigos da cidade, datados do início do século 20. "Neles, é possível ver as curvas originais dos rios, ainda antes dos processos de retificação e canalização", relata. "Com base nessas informações, passei a ir atrás das nascentes." Até o momento, Sampaio já encontrou uma centena delas. "Faço vídeos e fotos de todas e posto no Facebook", diz.
Criado pelo Coletivo Escafandro, o mapa colaborativo Rios (In)visíveis também procura dar visibilidade - com o perdão do trocadilho - à causa. O site foi criado no EcoHack World - hackatão ambiental realizado concomitantemente em Nova York, São Francisco e Madri - e permite que qualquer um se torne colaborador da empreitada.
98% dos cursos d'água no centro foram canalizados
Geógrafo idealizador do projeto Rios e Ruas diz que o primeiro passo para mudar situação é conscientizar população
Edison Veiga
O resumo da história é trágico, principalmente quando nos lembramos que vivemos uma crise hídrica sem precedentes: o outrora Planalto de Piratininga tinha uma paisagem farta de cursos d'água. Chegaram os colonizadores e, 460 anos depois, quase tudo está entubado, canalizado, escondido sob concreto. E/ou poluído.
"Precisamos salvar nossos rios" é, por isso, o mantra repetido por muitos ativistas contemporâneos. E faz sentido. Na região central do município, 98% dos cursos d'água estão sob concreto (confira infográfico acima) - e todos eles sofreram algum tipo de intervenção humana, como os fétidos Pinheiros e Tietê que, há décadas, passaram por um invasivo processo de retificação. Ou seja: em uma guerra idiota, o ser humano acreditou que poderia dominar as águas, vencê-las. Demorou muito para perceber que, oprimindo a malha fluvial, não há vencedores possíveis.
Dirigido por Caio Silva Ferraz, o documentário Entre Rios (2009) escancara essa história (o filme é este que pode ser assistido logo acima). Mas, em nossa sociedade 2.0, são muitos os que estão arregaçando as mangas para tentar mudar esse cenário de repressão fluvial.
O primeiro passo é o da conscientização. "Começamos a ir a campo, levar o assunto para a rua e envolver comunidades na busca dos córregos e riachos que está ali perto", conta o geógrafo Luiz Campos Júnior, do projeto Rios e Ruas. "O bacana é que conseguimos mostrar que os rios seguem existindo. Eles podem ter sido canalizados, pavimentados, retificados... Mas seguem vivos, embora com ruas ou avenidas em cima", completa seu sócio, o arquiteto e urbanista José Bueno (os dois são os que aparecem na foto abaixo).
No mês passado, um grupo de moradores do entorno do Parque das Corujas, na zona oeste de São Paulo, se reuniu para pintar de azul, simbolicamente, o trecho onde deveria passar o córrego das Corujas. Até peixinhos foram desenhados, lembrando a todos uma São Paulo que poderia existir de verdade, mas ficou apenas nos mapas e fotografias dos livros de História. Em nome daquilo que chamamos de "progresso".
OESP, 12/04/2015, Metrópole, p. A16
http://sao-paulo.estadao.com.br/blogs/edison-veiga/hidrografia-de-sp-do…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.