O Globo, Ciencia e Vida, p.37
29 de Jul de 2004
Hidroelétricas aumentariam poluição
BRASÍLIA. O Brasil pode estar contribuindo de forma mais séria do que se imaginava para as emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global. A denúncia foi feita ontem pelo pesquisador Philip Fearnside, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), no segundo dia da III Conferência Científica do LBA, em Brasília.
Radicado há 28 anos no Brasil, o pesquisador americano sustenta que as queimadas da Floresta Amazônica podem estar jogando na atmosfera muito mais dióxido de carbono (CO2, um dos principais gases do efeito estufa) do que o estimado pelo governo. Ele afirma que as hidroelétricas não são uma matriz energética limpa, como se costuma alegar, e também estariam contribuindo para o aquecimento.
Segundo dados extra-oficiais (o país ainda não divulgou seu inventário de emissões), as queimadas responderiam pelo lançamento de 200 milhões de toneladas de CO2 por ano. Para Fearnside, o número seria o dobro.
Para fazer esse cálculo, é importante levar em conta todos os componentes da floresta explicou Fearnside. E várias partes da floresta, como as raízes e as palmeiras, não foram incluídas nas contas. A decomposição da madeira morta também foi deixada de fora. Mas não há como confirmar tudo isso porque os dados do governo não foram liberados.
As hidroelétricas seriam responsáveis pela emissão do equivalente a 10 milhões a 15 milhões de toneladas de CO2 por ano. A água revirada nas turbinas, segundo Fearnside, revolve o fundo dos lagos trazendo para a superfície matéria em decomposição, emissora de gases.
Não estou dizendo que devemos deixar de construir hidroelétricas, mas não posso dizer que se trata de energia limpa sustentou Fearnside.
Porém, a prioridade, para o pesquisador, deve ser o combate à destruição da floresta.
O desmatamento causa um imenso impacto e traz pouquíssimos benefícios defendeu. Não sustenta a população, nem alimenta os pobres, está enriquecendo fazendeiros que contribuem pouco para a economia do país.
O Globo, 29/07/2004, p.37
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