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Hidrelétricas versus termelétricas

JB, Outras Opiniões, p. A9
Autor: CARVALHO, Joaquim Francisco de
28 de Ago de 2004

Hidrelétricas versus termelétricas

Joaquim Francisco Carvalho
Engenheiro

Na polêmica em que alguns ''ambientalistas de mesa-redonda'' juntam-se a hábeis lobistas de grupos que desejam construir termelétricas a gás, mesmo em regiões onde isso é claramente anti-econômico, condena-se a geração hidrelétrica mediante o simplório argumento de que esta contribuiria para o aquecimento global, devido à emissão de gases provenientes da decomposição da matéria orgânica submersa pelas represas.
Em parte isso é verdade, pois toda matéria orgânica em decomposição libera, entre outros, o gás metano, que, sendo semi-opaco às radiações infravermelhas, exerce o papel de estufa. Esse fenômeno ocorre com qualquer matéria orgânica, inclusive com os resíduos de culturas agrícolas como arroz, feijão, soja, etc, que permanecem no terreno após as colheitas. Não é diferente com a vegetação inundada pelos reservatórios hidrelétricos, cuja decomposição também emite metano, só que aí as emissões só duram enquanto houver material em decomposição. Depois de algum tempo, com o ecossistema já estabilizado, o reservatório assume as características de, por assim dizer, uma lagoa natural. E no caso de hidrelétricas a fio d'água, nas quais os reservatórios são muito pequenos em relação à potência instalada, as emissões de gases de efeito estufa são mínimas. Isto é o que acontece, por exemplo, em Itaipu, a maior hidrelétrica do mundo.
Todo projeto, pequeno ou grande, provoca algum impacto sobre o meio ambiente, mas, desde que se tomem as precauções adequadas, esses impactos podem ser tolerados, na medida em que são absorvidos pelo ecossistema regional, como absorvidos são os impactos de fenômenos da natureza, tais como erupções vulcânicas, terremotos, grandes inundações, maremotos, etc.
Curiosamente, as ''organizações não governamentais de passeata'' são seletivas em suas batalhas, preferindo atacar as hidrelétricas e deixando de lado coisas bem piores, como as termelétricas a combustíveis fósseis, ou a tão falada e pouco avaliada transposição das águas do rio São Francisco, ou ainda as monoculturas extensivas, como, por exemplo, as plantações de soja, que devastam importantes ecossistemas do Planalto Central brasileiro.
Ao contrário do que se tem apregoado ultimamente, a contribuição das hidrelétricas para o efeito estufa é pequena e transitória. São as termelétricas a combustíveis fósseis que contribuem seriamente para o aquecimento global. As menos agressivas, que são as termelétricas a gás natural, colocam na atmosfera pelo menos 2,75 toneladas de gás carbônico, por tonelada de gás natural consumido. Assim, uma usina como a Termo-Rio, no município de Duque de Caxias, com 1040 MW de potência elétrica, operando a plena carga, deverá emitir cerca de 9.600 toneladas de gás carbônico, por dia. Por outro lado - embora ambientalmente menos deletéria do que a extração e transporte do petróleo - a construção de gasodutos para transportar o gás natural, também agride o meio ambiente.
Projetos de grande escala, como os das hidrelétricas do Rio Madeira e de Belo Monte, estão sendo cuidadosamente planejados, para que seus impactos sejam perfeitamente absorvidos pelos ecossistemas amazônicos, conciliando as preocupações dos ambientalistas que realmente conhecem o assunto, com os requisitos do desenvolvimento econômico, que depende diretamente da oferta de energia elétrica.
Em comparação com as usinas termelétricas, as hidrelétricas são ambientalmente muito mais limpas, por não queimarem combustíveis fósseis. E, claro está, geram energia de modo renovável, pois o fluxo dos rios é permanente. Isso não acontece com as termelétricas a carvão, óleo ou gás natural, que têm seus dias contados, porque esses combustíveis caminham inexoravelmente para o esgotamento.
Deve-se, por fim, assinalar que o significado estratégico das usinas hidrelétricas é, para o Brasil, tão importante quanto seu significado econômico, pois a energia que produzem não depende da estabilidade política dos países exportadores de combustíveis fósseis, muitos menos de especulações sobre os preços desses combustíveis, que é muito influenciado por questões geopolíticas e problemas internos de países do Oriente Médio e de outras regiões produtoras.

Joaquim Francisco de Carvalho é diretor técnico da Lightpar e membro do conselho empresarial de energia da Firjan. Foi engenheiro da Cesp e diretor da Nuclen

JB, 28/08/2004, Outras Opiniões, p. A9

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