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Hidrelétricas: proibido construir, proibido demolir

OESP, Vida, p. A18
Autor: REINACH, Fernando
06 de Dez de 2006

Hidrelétricas: proibido construir, proibido demolir

Fernando Reinach

No Brasil, os ambientalistas tentam bloquear a construção de usinas hidrelétricas argumentando que elas destroem a biodiversidade. Nos Estados Unidos, um projeto que pretende demolir uma usina hidrelétrica tem sido criticado pelos mesmos motivos.

Depois de comandar a resistência por mais de uma década, o ambientalista John Muir sofreu sua derrota final em 1913 quando o presidente dos EUA autorizou a construção de uma barragem que alagou um dos vales mais bonitos do Parque Nacional de Yosemite. O lago, que cobre quase 300 hectares, garante o suprimento de água para a cidade de São Francisco. Desde então, por quase 90 anos, grupos de ambientalistas vêm lutando para que a barragem seja demolida. Tudo indica que a represa vai ser destruída nos próximos anos. Uma solução para estocar água para São Francisco já foi aprovada e os milhões de dólares necessários para a obra estão disponíveis.

Foi então que os problemas surgiram. Ecologistas demonstraram que apesar da biodiversidade original ter sido destruída, um novo ecossistema, rico em biodiversidade, se desenvolveu no lago nos últimos 90 anos. Os cientistas garantem que não basta demolir a represa para que o vale volte a ser como era antes de 1913. Na verdade poucos acreditam que o ambiente original possa ser reconstituído mesmo com altos investimentos. Liquens que existiam nas rochas foram destruídos pela água e novos seres vivos ocuparam seu hábitat.

A nova biodiversidade teria de ser destruída e seriam necessários oito anos semeando liquens com helicópteros para recolonizar as margens rochosas.

Quanto ao fundo do lago, os cientistas acreditam que ele seria tomado de imediato por espécies invasoras assim que ele fosse esvaziado. Essas plantas teriam de ser combatidas com herbicidas para permitir a introdução das espécies que ocupavam o local. Apesar de todos os desafios, os ecologistas ficaram animados - seria o maior experimento de reconstrução de um ecossistema já tentado no planeta.

Foi então que grupos de ambientalistas começaram a se opor ao projeto e o conflito que existia em 1913 ressurgiu com os atores em lados opostos. O governo decidido a demolir a represa e os ambientalistas resistindo.

A batalha vai ser longa, pois existem mais duas represas no interior de parques nacionais cuja destruição está aprovada.

Um engano comum é acreditar que alguns ecossistemas são melhores que outros e que é possível congelar ecossistemas. Eles se adaptam às mudanças produzidas pelo homem mesmo quando são tão violentas como as que ocorreram nos rios que cruzam São Paulo.

Hoje um novo conjunto de seres vivos vive feliz em nossos rios. São bactérias anaeróbicas que se alimentam de nosso esgoto e produzem gases malcheirosos. Apesar de nosso preconceito, essas bactérias são seres vivos como quaisquer outros e fazem parte da biodiversidade do planeta. São extremamente bem adaptados para viver em meios ricos em matéria orgânica e pobres em oxigênio. Limpar os rios é um objetivo nobre, mas não podemos nos esquecer de que nesse processo estamos destruindo a biodiversidade que hoje ocupa o Rio Tietê. Desse ponto de vista, um projeto de despoluição só deveria ser aprovado após um cuidadoso estudo de impacto ambiental.

(SERVIÇO)Mais informações em Restoring Yosemite's Twin, na Science, volume 314, página 582, de 2006.

Fernando Reinach, Biólogo fernando@reinach.com

OESP, 06/12/2006, Vida, p. A18

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