O Globo, Economia, p. 25
31 de Jan de 2010
Hidrelétrica sem reservatório, mais poluição no ar
Uso de térmicas na seca dos rios vai triplicar emissão de CO2 até 2020 e elevar custo da energia em R$ 2,4 bi ao ano, diz estudo
Ramona Ordoñez
Apesar de o Brasil ter voltado a construir - depois de muitos anos - usinas hidrelétricas de grande porte, como as de Santo Antônio e Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia (com capacidade para gerar 6.500 megawatts juntas), e planejar a de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará (11.330 megawatts), o país não vai se livrar das térmicas. Quando estiverem em operação, essas usinas "a fio d'água" (chamadas assim por não possuírem reservatórios) precisarão acionar as termelétricas para, em determinadas épocas do ano, gerar energia. As térmicas - a gás, carvão, ou óleo - são grandes emissoras de CO2 (gás carbônico), contribuindo para o aquecimento global. Além disso, têm custos mais elevados, o que deve resultar em gastos extras de R$ 2,4 bilhões por ano de 2010 a 2015 para os consumidores.
Um estudo feito pelo Centro de Estudos Econômicos do Setor Energético (CEE) conclui que as emissões de CO2 para gerar 1 gigawatt-hora (GWh) vão praticamente triplicar no país, passando das atuais 22 toneladas para 72 toneladas em 2020.
Minc: usina com reservatório é 'coisa de saudosistas'
Rafael Kelman, um dos autores do levantamento e diretor da PSR Consultoria, explica que o aumento das emissões na geração de energia se deve ao fato de que desde o fim da década de 1990 o Brasil não está mais construindo hidrelétricas com reservatórios destinados a armazenar a água dos rios. Para diminuir os impactos ambientais, as hidrelétricas que estão sendo construídas no país são as chamadas a fio d'água.
- Nos períodos secos do ano, sem reservatórios, essas usinas terão que reduzir a geração, que deverá ser complementada por térmicas. Estas emitem CO2, e a custos maiores para os consumidores - disse Kelman.
Cálculos feitos pela PSR Consultoria concluíram que a maior participação de usinas térmicas vencedoras de leilões de energia nova provocará um aumento do custo médio da energia para o consumidor cativo de R$ 2,4 bilhões por ano entre 2010 e 2015. Isto equivale a um aumento de 15% na tarifa de energia de 2015, em relação ao patamar atual.
O ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, contudo, não está preocupado com o aumento das emissões por térmicas. Para Minc, não existe a menor possibilidade de o país voltar a construir usinas com reservatórios. Ele acredita, porém, que isso poderá ser compensado por energias alternativas, como a eólica ou a da biomassa, a partir de usinas a bagaço de cana.
- Já passou a época de usinas com reservatórios. Isso é coisa do passado e de saudosistas. Já é uma guerra conseguir aprovar a de Belo Monte sem reservatório, imagine se tivesse - diz Minc.
O ministro destaca que o fato de o sistema brasileiro de energia ser integrado já permite complementar a geração entre regiões onde os rios têm hidrologias diferentes.
Os reservatórios funcionam como tanques, que armazenam a água no período de chuvas (novembro a abril) para ser usada na operação das usinas nos períodos secos, quando a vazão dos rios é menor (de maio a outubro).
Kelman defende que qualquer discussão sobre a construção de reservatórios, com seus prós e contras, deve ser respaldada por análises técnicas e largamente comunicadas à sociedade.
- Em nome de um menor impacto ao meio ambiente, estão se construindo usinas sem reservatórios, mas que terão impacto ambiental e ao consumidor - afirma.
O presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Maurício Tolmasquim, concorda que o problema existe:
- Hoje, temos um grande paradoxo. Em nome do meio ambiente, não se deixam construir usinas com reservatórios. Isso obriga a acionar mais as térmicas, que causam aumento das emissões.
Segundo o especialista, com a perspectiva do aumento da produção de petróleo e gás nos campos do pré-sal, o país deve aumentar a geração térmica a gás natural para complementar a geração hídrica. Tolmasquim defende, então, a necessidade de se usar formas complementares de energia limpa, como a eólica e a de bagaço de cana.
Pinguelli: fio d'água é ambientalmente racional
O presidente da Eletrobrás, José Antonio Muniz Lopes (que já foi ameaçado por uma índia com um facão por causa da construção de Belo Monte), também não está preocupado com o maior uso de térmicas. Segundo ele, o fato de estarem construindo hidrelétricas sem reservatórios abrirá espaço para usinas mais limpas:
- Abre um espaço para a geração por meio da biomassa no segundo semestre do ano, justamente quando é o período seco dos rios.
Muniz diz ainda que em algumas regiões do país a hidrologia dos rios é diferente, o que permite que se usem os reservatórios de forma complementar. Belo Monte, por exemplo, no Xingu, tem o período de maior volume de água em abril e maio, justamente quando em outros rios, principalmente os do Sudeste, começa o período seco.
O diretor da Coppe/UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, secretário do Fórum de Mudanças Climáticas, é mais um que acredita que a falta de reservatórios será complementada por usinas de fontes alternativas.
- Usina a fio d'agua é irracional do ponto de vista do setor elétrico, de planejamento e de custos, mas é racional do ponto de vista ambiental - afirma Pinguelli.
Outras opções seriam os novos projetos de hidrelétricas--plataformas, que têm um impacto ambiental mínimo. A Eletrobrás planeja esse tipo de usina, que funciona como uma plataforma de petróleo, para aproveitamento no Rio Tapajós.
O Globo, 31/01/2010, Economia, p. 25
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