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Hidrelétrica da minha infância

GM, Opinião, p. A3
Autor: GUIMARAES, Durval
22 de dez de 2005

Hidrelétrica da minha infância

A de Aimorés me fez concluir, sobre meus sonhos, que sou ingênuo até dormindo. A construção de uma usina hidrelétrica é algo que me fascina, provavelmente por acolher as esperanças da minha distante infância. Sou nascido numa região sofrida, o Vale do Jequitinhonha, cujos índices sociais se igualam aos dos lugares mais acanhados do planeta. Minha cidade é igualmente pobre, mas orgulhosamente se apresenta quase imbatível no quesito beleza, em decorrência da generosa contribuição daquele rio de águas mornas que busca o seu destino por entre pedras e areias brancas.
Toda a minha adolescência e dos que vieram antes de mim foram embaladas pelo sonho jamais realizado da construção da hidrelétrica do Salto, no nosso no rio. A obra prometia indústrias, empregos e um lago belíssimo com lazer para todos.
Foi, portanto, movido pela esperança de ver a realização desses sonhos - ainda que por outros garotos de uma região igualmente pobre - que visitei Aimorés, às margens do Rio Doce, já na divisa com o Espírito Santo. Naquele município, a Companhia Energética de Minas Gerais, em associação com a Cia. Vale do Rio Doce, construiu uma hidrelétrica com potência de 330 megawatts e que depende apenas de autorização para funcionar.
A obra é grandiosa, investimento de mais de R$ 700 milhões, que revela a ilimitada audácia do homem diante dos desafios impostos pela natureza. Encantado com aquela maravilha, procurei confirmação das minhas hipóteses junto à população e às autoridades. Só deparei com reclamações. Aqui, abro um parêntese para dizer que a barragem é, de certa forma, decepcionante. Não forma lago, e as águas sequer escapam da calha do rio.
Ainda assim, a população de uma pequena cidade, de nome Itueta, foi realocada para uma colina com a finalidade de dar passagem ao novo leito de uma ferrovia. Todos os 1.200 moradores, inclusive os que viviam de favor, receberam casa nova, com água encanada e esgoto tratado. Ninguém, no entanto, se mostra feliz. Cito um exemplo: dezesseis mulheres vendiam doces aos passageiros das duas únicas composições que paravam diariamente, durante um minuto, na estação da cidade. Elas faturavam, em média, cinco reais por dia.
Com a mudança, agora longe da ferrovia, todas ganharam casa e treinamento para uma nova profissão. Consideraram pouca recompensa e cada uma delas exige a indenização de R$ 100 mil na Justiça.
Mais adiante, os índios da tribo Krenak, que trafegam em camionetas modernas, também se sentem lesados com a obra. Reclamam que foram atingidos em seu misticismo, com a interrupção do fluxo natural do sagrado Rio Doce. Reivindicam indenização de R$ 30 milhões.
O prefeito de Aimorés dispõe, no momento, de apenas R$ 60 mil mensais para investir na cidade. Mas não se sente suficientemente atendido com a receita adicional, estimada em R$ 370 mil mensais, que decorrerá da indenização pela área inundada e do imposto sobre a venda de eletricidade. Voltei para a capital refletindo sobre meus sonhos e concluí que sou um ingênuo até dormindo.

Durval Guimarães - Secretário de Redação da sucursal da Gazeta Mercantil em Belo Horizonte)

GM, 22/12/2005, Opinião, p. A3

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