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Herdeiros da terra

OESP, Nacional, p. A9
10 de jun de 2008

Herdeiros da terra
Marrey se diz impressionado com grupos 'que vivem de cabeça erguida'

Roldão Arruda

O secretário de Justiça e Defesa da Cidadania, Luiz Antonio Marrey, embarcou ontem cedo num helicóptero do governo estadual e seguiu para Eldorado, município de 14 mil habitantes no Vale do Ribeira - uma das regiões mais pobres do Estado. Desembarcou num campinho de futebol e seguiu de carro para a zona rural, para uma visita à Comunidade André Lopes - núcleo de remanescentes de quilombolas. De lá foi para a Comunidade São Pedro e, finalmente, para Ivaporanduva, outros dois núcleos quilombolas na vizinhança. Queria conhecer melhor a realidade do lugar e ouvir os líderes comunitários.

Por volta das três da tarde, quando embarcou de volta para São Paulo, se disse bem impressionado com o fato de ter encontrado pessoas que, apesar das carências da região, "vivem de cabeça erguida, parecem ter orgulho de sua origem e não deixam de reivindicar".

De fato, nas três comunidades Marrey encontrou pessoas articuladas, dispostas a expor os problemas e a reivindicar. Deram mostras de que estão se organizando mais e mais para reclamar os territórios que teriam pertencido a seus antepassados e também melhores condições de vida. "O processo de reconhecimento dos quilombos é muito lento', reclamou André Lucas, um dos representantes quilombolas.

Hoje cada comunidade possui uma associação, que está articulada com uma organização estadual, por sua vez ligada à Coordenação Nacional de Quilombolas (Conaq). No Estado de São Paulo foram reconhecidas até agora 22 comunidades, das quais seis conseguiram títulos de propriedade comunitária da terra - com registro em cartório.

Na fila do Instituto de Terras do Estado (Itesp), porém, encontram-se outros 30 pedidos oficiais de reconhecimento. E, segundo a associação estadual, mais 46 ainda devem ser encaminhados ao órgão.

É pouco, se comparado aos 3.116 pedidos de reconhecimento listados pela Conaq em todo o País. Mas no caso de São Paulo, Estado de intensa ocupação territorial, pode ser problemático. No Vale do Ribeira, onde estão 16 dos 22 remanescentes de quilombos reconhecidos, ocorrem conflitos que opõem os quilombolas a proprietários rurais, empreiteiras que planejam construir usinas hidrelétricas no Rio Ribeira de Iguape e organizações ambientais.

Marrey encara a situação com tranqüilidade: "Vamos sempre verificar quem tem direito. E onde houver direito ele terá de ser amparado pelo Estado." Os quilombolas, por sua vez, estão confiantes. Na Comunidade São Pedro, uma clareira no meio da Mata Atlântica, à beira um riacho de águas claras, as 42 famílias que ali vivem estão prestes a receber casas de alvenaria. Vão substituir as antigas casas de paredes de bambu e barro, usadas desde que seus antepassados chegaram por ali, fugindo de senhores de escravos, por volta do século 17.

Na Ivaporanduva, estão criando uma cooperativa para a venda de produtos rurais e procurando fórmulas de estimular o turismo. "Demorou muito porque os homens tinham de guerrar contra quem vinha tentar levar os escravos de volta", conta Benedito Alves da Silva, o Ditão, presidente da associação comunitária.

OESP, 10/06/2008, Nacional, p. A9

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