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Há quatrilhões sob a Amazônia

O Globo, Razão Social, p. 6
19 de jul de 2011

Há quatrilhões sob a Amazônia

Camila Nobrega
camila.nobrega@oglobo.com.br

Sob a floresta amazônica, está escondida uma riqueza que passa da casa dos quatrilhões de dólares. Só a reserva de água subterrânea é calculada em aproximadamente US$ 1,9 quatrilhões. Além disso, a Amazônia tem reservas de petróleo, ferro, alumínio e manganês que valem, juntas, em torno de US$ 12 trilhões. E suas árvores possuem uma capacidade de sequestrar carbono estimada em US$ 379 bilhões. Isso tudo, se a floresta permanecer de pé. É o que aponta um estudo inédito do coordenador de sustentabilidade ambiental do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), José Aroudo Mota ao qual o Razão Social teve acesso com exclusividade. Os dados seguirão para a presidente Dilma Rousseff, que poderá usá-los para negociações internacionais sobre o valor da biodiversidade brasileira.
A necessidade de se calcular o valor dos serviços ecossistêmicos é uma tecla em que a Organização das Nações Unidas (ONU) tem batido frequentemente. A instituição possui, desde 2010, um projeto chamado Economia dos Ecossistemas e Biodiversidade (TEEB, na sigla em inglês), liderado por Pavan Sukhdev, que chefia a iniciativa "Economia Verde" do Programa da ONU para o Meio Ambiente (PNUMA). E vários países têm estimadas suas riquezas. Mas o Brasil ainda não tinha os cálculos. Por isso, o economista e especialista em sustentabilidade José Aroudo Mota iniciou a pesquisa no Ipea, que recebeu o nome de "Valoração dos Serviços Ecossistêmicos", após um encontro com Pavan Sukhdev, que esteve no Brasil no início deste ano:
- Não conhecemos o valor das nossas riquezas. E precisamos conhecer, até para podermos falar de igual para igual em negociações internacionais. A riqueza econômica da floresta é imensa e precisa ser medida, para se pesar na hora de fazer uma legislação ambiental, por exemplo. Não adianta mais usar o argumento de que a preservação da floresta é coisa de amante da natureza. É riqueza, é o valor da floresta em cifras - disse José Aroudo.
O pesquisador também incluiu as espécies animais na conta, que, por enquanto, é só um pequeno panorama da riqueza total que o país possui.
Uma arara azul, por exemplo, vale US$ 60 mil no mercado internacional oficial. Um mico leão dourado vale US$ 20 mil, uma jaguatirica, US$ 10 mil. E apenas um grama do veneno retirado da aranha marrom para produzir medicamentos é estimado em US$ 24 mil.
Mas, enquanto não se ampliam estratégias de proteção para a biodiversidade, todas essas espécimes são alvo da biopirataria internacional e do tráfico ilegal de animais, que movimenta mais de US$ 1 bilhão por ano.
Segundo Mota, havia estimativas, nas quais ele se baseava, de que a biodiversidade brasileira valia em torno de US$ 4 trilhões. Mas, apenas levando em conta dados do IBGE de que há, na Amazônia ,1.344. 201, 7 quilômetros quadrados de aquíferos porosos (dado de junho de 2011), a riqueza já atinge a casa dos quatrilhões. Trata-se de um potencial econômico que ainda não pode ser medido em sua totalidade.
Mas, tendo em vista os dados levantados por ele, já é possível afirmar que a floresta de pé pode se tornar o principal ativo econômico do país, se for preservado.
- Os números dizem: não derrube a floresta. Isso não é inteligente. Se derrubar, lá se vão alguns quatrilhões de dólares, somando a água, o estoque de carbono e etc. Se não há árvores, a água não fica estocada no subsolo e o carbono não é sequestrado.
Além disso, perde-se muito a cada espécime retirado sem precaução. A floresta é um ativo imenso que o Brasil ainda possui. Mas, para começarmos a preservá-la de vez, é preciso que esses dados sejam levados em conta. Quando a perda é econômica, aí o argumento é mais forte.
O pesquisador trabalhou no cruzamento de dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, do Departamento Nacional de Produção Mineral e com valores negociados no mercado internacional de carbono (em toneladas) e água (por m3). Agora, Mota seguirá o estudo, ampliando-o para outros biomas, como a Caatinga e o Cerrado. A primeira parte da pesquisa será disponibilizada na íntegra pelo Ipea somente em meados de setembro.

IPEA ipea.gov.br

O Globo, 19/07/2011, Razão Social, p. 6

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