OESP, Vida, p. A28
Autor: ARTAXO, Paulo
03 de Fev de 2007
'Guerras mundiais são fichinha perto disso'
Não é o 'fim do mundo', diz ele. Mas, com ou sem a colaboração dos países, a temperatura do planeta vai continuar subindo
Entrevista: Paulo Artaxo
Cristina Amorim
O físico Paulo Artaxo, da Universidade de São Paulo, especialista em química atmosférica, é um dos principais autores de um dos capítulos do novo relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). Ele tenta evitar o tom alarmista ao falar das novas projeções do grupo, mas não deixa de assumir um discurso solene e pragmático sobre o futuro da Terra. "Na história da humanidade nunca se chegou nem perto de um problema desta envergadura."
O que significa este novo relatório do IPCC?
A questão é que o efeito estufa está se agravando mais rapidamente do que se esperava. As evidências são enormes e mais sólidas do que em 2001 (ano do terceiro relatório do Painel). O cenário é mais pessimista.
Então a Terra está condenada?
Não, não é o fim do mundo. Porém, teremos um clima complicado, entre 100 e 500 anos para a frente. A temperatura será mais alta; os eventos extremos, mais comuns; a agricultura terá de se adaptar; e a questão da água vai se agravar. Haverá o deslocamento de milhões de pessoas. O mundo vai se estabilizar num patamar mais quente, um ambiente mais inóspito. A sobrevivência será mais difícil.
Qual é o impacto deste cenário para o homem?
Na história nunca se chegou nem perto de um problema desta envergadura. A 1ª e a 2ª Guerras Mundiais são fichinha perto disso. E não existe um órgão para tomar decisões desse âmbito, nem a ONU. Enfrentaremos dificuldades seriíssimas.
Alguma medida, como o Protocolo de Kyoto, pode impedir as interferências climáticas perigosas?
O estrago já foi feito. O ponto de retorno já passou. Um aumento de 3oC em 100 anos é muito alto. O dióxido de carbono tem um tempo de vida na atmosfera de 100 anos. Se cessássemos hoje as emissões, o efeito estufa seria significativo por pelo menos mais uns 500 anos.
E quanto ao uso de modos alternativos de geração de energia?
Podemos e devemos ter fontes alternativas, mas hoje nenhuma delas pode substituir totalmente os combustíveis fósseis. Mas seu consumo precisa diminuir, até que o petróleo deixe de ser interessante.
Como diminuir?
Com medidas concretas transformadas em lei. É como a União Européia tem agido nas últimas semanas, um reflexo dos novos dados antes mesmo da divulgação ao público. Num próximo capítulo do relatório, que será lançado ainda neste ano, o IPCC vai tratar do tema da mitigação: o que fazer e quem paga a conta. Além dos países ricos, Brasil, China e Índia também terão de contribuir. (O Protocolo de) Kyoto é essencial por ser um primeiro passo. Mas é o que vem depois dele, a partir de 2013, que será fundamental.
Antes da divulgação, integrantes do IPCC e delegados se reuniram em Paris. O que foi discutido?
Cada governo trouxe objeções, críticas e sugestões. Os cientistas precisam responder todas as questão. No âmbito da ONU, Camarões tem o mesmo peso que os Estados Unidos. Alguns pedem para fortalecer certos termos e outros, para amenizar. Porém, as críticas que recebemos são perfumaria - trata-se apenas interpretação e recomendação. Não existe um único governo no mundo que recuse o relatório.
Como o IPCC rebate as críticas de que o efeito estufa não é causado pelo homem?
A Terra segue um ciclo natural. Porém, a força impulsora para o aquecimento que observamos é antropogênica, que promove alterações que se sobrepõem às naturais. Essa informação vem da análise paleoclimática, que estuda o clima de milhares de anos atrás.
E quanto às críticas de que o IPCC não traz dados seguros?
O IPCC sempre vai trabalhar com um grau de incerteza. É inerente ao processo científico. A questão é que hoje a maior parte dos governos concorda que nossa ciência é sólida suficiente para que medidas sejam tomadas com base nestes dados.
OESP, 03/02/2007, Vida, p. A28
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