OESP, Notas e Informacoes, p.A3
27 de Jul de 2004
'Guerra santa' contra os transgênicos
No artigo Transgênicos e transnacionais publicado ontem neste jornal, o professor Denis Lerrer Rosenfield, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, cita passagens verdadeiramente assustadoras de um documento conjunto da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do MST. O texto serve de suporte doutrinário para a 19.ª Romaria da Terra, que a CPT fará realizar a 22 de agosto em Cruz Machado, Paraná. O que nele há de assustador é a demonização, levada a extremos de guerra santa, da biotecnologia, das empresas do setor e da moderna agricultura - que recorre às sementes geneticamente modificadas para aumentar a produtividade das lavouras e diminuir o uso de agrotóxicos, beneficiando indiretamente o meio ambiente.
Não fosse por isso, e por serem os alimentos transgênicos conhecidos tão perigosos ou tão pouco perigosos à saúde como qualquer outro alimento não-transgênico, a área mundial plantada com as novas sementes não estaria crescendo sistematicamente e se estendendo a um número cada vez maior de países, apesar dos preconceitos medievais das populações desinformadas e das campanhas contra o seu plantio e consumo. Muitos dos promotores dessas campanhas - invocando uma preocupação destituída de fundamento com a ecologia e o alegado perigo do controle da agricultura global por um punhado de multinacionais - exibem um fervor que costuma ser descrito como religioso. No caso da CPT, um braço da Igreja Católica no Brasil, o adjetivo nada tem de metafórico.
Para catequizar os agricultores, ela trata da questão dos transgênicos em termos teológicos, incluindo citações bíblicas, como um combate entre o Bem e o Mal. De um lado, "o Reino de Deus é o reino da boa semente". De outro, "o inimigo ameaça a vida, semeando o joio (a má semente) no meio da plantação". E mais: "o inimigo está semeando as sementes da morte e nós não podemos nos calar". Como observou o autor do artigo referido no início deste comentário, é significativo o uso reiterado das palavras inimigo, vida e morte. Parafraseando a CPT, isso equivale rigorosamente a semear a violência, sob qualquer forma. Ela está desde logo legitimada porque se exercerá em nome de Deus contra um inimigo da Sua obra. Como a Inquisição.
É obviamente inútil polemizar com esse tipo de pregação, que reproduz o invariável padrão dos apelos dos fanatismos, religiosos ou laicos, de todos os tempos e lugares. O que muda apenas é o objeto da ira que se deseja instigar, a identidade do inimigo a destruir. Ainda assim, não se pode deixar de registrar o abismo entre a atitude dos padres responsáveis por essa alucinada peça fundamentalista e as manifestações da Igreja sobre os transgênicos. Em agosto do ano passado, o arcebispo Renato Martino, falando pelo Conselho Pontifício de Justiça e Paz, declarou-se favorável à biotecnologia aplicada à agricultura. Nas suas palavras: "A Igreja acompanha com especial interesse e solicitude todo desenvolvimento científico que ajude a resolver o drama da fome que aflige a humanidade."
Antes dele, o bispo Elio Sgreccia, vice-presidente da Academia Pontifícia da Vida, já havia declarado não existirem impedimentos éticos à biotecnologia animal e vegetal, que se justifica por ser "para o bem do homem". De todo modo, a tentativa de apresentar a condenação aos transgênicos como um dogma religioso - o que, por definição, impede que o assunto seja examinado a partir das evidências científicas - não é propriamente uma novidade. De há muito setores do movimento ambientalista foram contaminados por uma espécie de misticismo laico, que denuncia o manejo técnico-científico da natureza como uma modalidade de sacrilégio. O expoente mais célebre dessa crendice é o príncipe Charles, do Reino Unido.
Ele certamente nada teria a objetar à fantasia maniqueísta da Pastoral da Terra sobre a boa semente ("natural") e a má semente (criada em laboratório), como se há milênios a espécie humana não se dedicasse a fazer engenharia genética por ensaio e erro, cruzando organismos vegetais ou animais para obter espécimes com certas características. Já se tornaram folclóricas as acusações do príncipe ao "racionalismo científico" no aproveitamento dos recursos naturais, que, entre outros feitos, tornou possível a Revolução Verde dos anos 60, à qual incontáveis milhões devem a sobrevivência. Mas a jihad dos padres da CPT e dos seus parceiros do MST contra os transgênicos não se nutre apenas dessa falsa visão do domínio humano sobre a natureza. O seu inimigo efetivo - e alvo de longo prazo - é a economia de mercado e a ordem jurídica que a ampara.
OESP, 2707/2004. p.A3
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