Veja, Turismo, p. 85
18 de Fev de 2004
A guerra natural
Uns querem fechar acesso a paraísos ecológicos. Outros acham que o exagero vai criar privilégios
Adriana Negreiros
Enrico Marone
Em diversos países, praticantes de pesca esportiva são considerados aliados dos ambientalistas, porque têm interesse na preservação das espécies mais cobiçadas e ajudam a fiscalizar paraísos ecológicos. No Brasil, pescadores e ecologistas estão caminhando para campos opostos. O Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) quer transformar algumas áreas do litoral atualmente consideradas de relevante interesse ecológico em parques nacionais. Traduzindo: mais do que limitar a pesca comercial em lugares que hoje podem ser visitados livremente, pretende-se converter essas regiões em áreas fechadas, às quais só operadores credenciados poderão levar visitantes, proibindo qualquer tipo de pesca em quase toda a sua extensão. "Vamos criar gerações de brasileiros que serão impedidas de desfrutar seus paraísos ecológicos", prevê Claudio Guardabassi, fundador da Confederação Brasileira de Atividades Subaquáticas.
Para o Ibama, trata-se de adotar normas de preservação rígidas nesses locais e também de facilitar a obtenção de verbas para a conservação. "Quanto mais proteção, melhor", afirma o ambientalista Luís Márcio Pereira, presidente da Fundação Biodiversitas e defensor de medidas que podem limitar o acesso a áreas como a Ilha da Queimada Grande, no litoral sul de São Paulo, e das Ilhas Cagarras, na frente das praias cariocas. Quem prega a transformação dessas localidades em parques nacionais aponta a expansão do turismo em Fernando de Noronha e no Arquipélago de Abrolhos como exemplos da viabilidade da medida. É isso que dá arrepios nos grupos contrários à mudança de classificação desses lugares. "Como já aconteceu em Abrolhos, isso vai criar um monopólio que beneficia apenas algumas operadoras", diz um documento de um grupo de pescadores, empresários do ramo e políticos contrários à reclassificação.
Essa é outra daquelas brigas resultantes de um problema anterior. Sem fiscais em número suficiente para proteger as áreas de preservação ambiental, o Estado acaba optando por fechá-las a quase todo tipo de visitante, deixando dúvida sobre a razão da própria existência de um parque nacional. Se praticamente ninguém pode conhecer esses lugares, para que eles servem? Países como a África do Sul conseguiram integrar suas reservas a uma estrutura turística que gera divisas e dá empregos. Se também aqui se conseguisse regulamentar e fiscalizar projetos semelhantes, a discussão poderia evoluir para o tipo de empreendimento que se pode ter nessas áreas. Em parques nacionais dos Estados Unidos, como o John Pennekamp, na Flórida, até o acampamento e a pesca são permitidos em determinados pontos, com estímulos para a atração de visitantes, de um lado, e fiscais para evitar abusos, do outro.
Veja, 18/02/2004, p. 85
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