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A guerra da baleia

O Globo, Ciência, p. 30
04 de Jul de 2012

A guerra da baleia
Interesses econômicos impedem aprovação de santuário no Atlântico Sul

Renato Grandelle
renato.grandelle@oglobo.com.br

Na Rio+20, a tentativa de criação de uma legislação para os oceanos naufragou. No primeiro encontro ambiental após a cúpula das Nações Unidas, esta semana, no Panamá, uma iniciativa para regular o uso dos mares também foi um fracasso. Liderado por Japão, Noruega e Islândia, um bloco de nações bloqueou na Comissão Internacional Baleeira (CIB) a criação de um santuário que abrangeria todo o Atlântico Sul. O veto vai além de mais uma derrota da biodiversidade. Interesses políticos e econômicos contribuíram para a aliança pró-caça, cujos países poderiam ensaiar uma aproximação de suas frotas pesqueiras do Brasil.
Oitenta e nove países participam da CIB. Só têm direito a voto em resoluções - como a criação do santuário - aqueles que pagam uma taxa, que varia de cerca de US$ 20 mil a mais de US$ 200 mil, dependendo do PIB do país e de quantos delegados ele manda à comissão. O Japão é acusado por ambientalistas de financiar o ingresso de membros mais pobres.
A Mongólia, por exemplo, que sequer tem litoral, se opôs à proteção das baleias no Atlântico Sul.
- O Japão oferece incentivos comerciais a países menores, como os caribenhos, para que fiquem ao seu lado nessas votações - lamenta o veterinário Milton Marcondes, diretor de pesquisas do Instituto Baleia Jubarte.
- É um governo que gasta mais do que arrecada com a caça de baleias, e o faz por questões geopolíticas. Eles têm medo que, se permitirem proteção da baleia, depois tenham de fazer o mesmo por atum e por outros animais que, se protegidos, ameaçariam a sua indústria pesqueira.
O Atlântico Sul seria o terceiro oceano a abrigar um santuário de baleias - os outros são o Índico e o Antártico. O continente gelado, porém, é alvo de constantes investidas de navios pesqueiros japoneses.
Como uma moratória internacional impede, desde 1986, a caça comercial destes animais, a indústria japonesa alega que a caça tem fim científico. Grupos ambientalistas, porém, têm protagonizado iniciativas bem-sucedidas para frear os baleeiros em alto-mar. Na última temporada, a Agência de Pesca do Japão pretendia abater 900 baleias minke. Matou 266.
Ameaça a cetáceos na costa brasileira
l A dificuldade em cumprir suas próprias estimativas pode fazer com que os barcos japoneses ampliem sua área de atuação, o que não seria uma boa notícia para o Brasil.
- O Japão tem vontade de caçar jubartes, assim como as baleias minkes, e a população de ambas está em recuperação em nosso litoral - lembra Karina Groch, diretora de pesquisa do Projeto Baleia Franca no Brasil e pesquisadora convidada da CIB. - É um país que quer garantir todos os recursos alimentares pesqueiros possíveis, mesmo tendo sofrido uma queda absurda no consumo da carne deste animal. Nos restaurantes japoneses, ela já é considerada uma iguaria. Houve uma época em que ela foi introduzida na merenda escolar, talvez para recuperar esta tradição.
A área costeira brasileira se tornou um santuário no fim de 2008, por iniciativa do governo federal. Algumas décadas antes, no entanto, o Brasil já acumulava boas notícias. A população de baleias jubarte, estimada em 25 mil no século XIX, caiu para apenas mil indivíduos na década de 1960, quando sua caça foi proibida. Hoje, até 14 mil jubartes passariam pelo país. Considerando que estas espécies passam apenas seis meses aqui, e o resto do ano na Antártica, esta recuperação pode ser ameaçada.
- Elas ficam na costa brasileira entre maio e novembro, onde se reproduzem. Quando os filhotes estão mais fortes, voltam para a Antártica, onde se alimentam - explica Fábia Luna, chefe do Centro de Mamíferos Aquáticos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, vinculado ao Ministério do Meio Ambiente. - Não creio que haja um ataque ao litoral brasileiro, mas, quando saem de nossa zona econômica exclusiva, as baleias são mortas pelos navios pesqueiros. E a recuperação das espécies é é muito lenta, já que cada fêmea tem apenas um filhote por vez.
Outro front do Japão para aumentar seu estoque é a caça aborígene de subsistência - a qual o país asiático não tem direito. Rússia e EUA conseguiram, na reunião da CIB, aprovação para capturar 336 baleias-da-groenlândia e 744 cinzentas entre 2013 e 2018. Já o remoto arquipélago caribenho de São Vicente e Granadina, que pleiteou o direito de consumir 24 jubartes, viu sua proposta rejeitada. Foi alegado que não se tratava de uma tradição da população nativa: apenas 39% conheciam carne de baleia. O fornecimento é feito pelo Japão.

O Globo, 04/07/2012, Ciência, p. 30

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