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Guardião da natureza

O Globo, Rio, p. 16
06 de Mai de 2013

Guardião da natureza
Veterinário de 85 anos abre as porteiras de sua fazenda para caminhadas e pesquisas

Paulo Roberto Araújo

Ruy Brandão Caldas abre as porteiras da Fazenda União, em Silva Jardim Paulo Roberto Araújo / Agência O Globo
RIO - Destacada numa placa junto a uma cachoeira ao lado da sede da Fazenda União, em Silva Jardim, Baixada Litorânea, a frase "Ser grande é abraçar uma grande causa", de William Shakespeare, resume a saga de Ruy Brandão Caldas. O veterinário de 85 anos, aposentado pelo Ministério da Agricultura, comprou a propriedade de 5,3 milhões de metros quadrados - o equivalente à área da Zona Portuária do Rio - em 1969, numa época em que pouco se falava em preservação ambiental. Depois de 44 anos, ele decidiu abrir as porteiras para compartilhar a riqueza natural da fazenda, que ele jamais explorou comercialmente.
- Nesses anos todos, não derrubei uma árvore da floresta, e tudo que fiz foi com o dinheiro do meu bolso. Sobrevivi a duas emboscadas de caçadores, mas agora estou no meu limite. Espero que uma universidade se interesse em fazer um levantamento científico da flora e da fauna da fazenda para que ela continue sendo protegida pelas futuras gerações - apelou.
A idade avançada não impediu que Ruy acompanhasse o grupo reunido pela ONG Anda Brasil que, domingo passado, fez a primeira caminhada pelos seis quilômetros de trilha. Ele enche os pulmões de ar e a alma de orgulho para mostrar alguns riachos que brotam das 30 nascentes das três microbacias da Fazenda União, que formam três rios.
- Água é vida, e esses riachos de água limpa não existiriam se a floresta não fosse preservada. Pode cair uma grande tempestade que nada vai acontecer, a mata ciliar é intocável.
Ruy interrompe a caminhada várias vezes para mostrar ao grupo árvores como garapas, paus-brasis, jequitibás e palmitos-juçaras.
- A nossa floresta tem muita semelhança com o bioma da Amazônia. Depois de mais de 40 anos de preservação, há um natural equilíbrio biológico. Só uso agrotóxico para matar as formigas saúvas, que são predadoras - explica ele.
A Fazenda União é a primeira Reserva Florestal Legal (área de proteção em propriedade privada) do estado, criada em 1975. É preciso não confundir com a Reserva Biológica (área de proteção de domínio público) também chamada União, do Ibama, no limite dos municípios de Casimiro de Abreu e Rio das Ostras, de 1998. A fazenda não é aberta à visitação regularmente por causa dos riscos de depredação. Por ora, os interessados em conhecer as terras devem entrar em contato com o Sindicato Rural de Silva Jardim.
Não se tem ainda o levantamento científico dos animais que vivem ali, mas é comum esbarrar em onças, quatis, ariranhas, cachorros-do-mato, tamanduás, cotias, tucanos, micos-leões-dourados, bugios, jacarés e uma infinidade de pássaros e borboletas coloridas.
Cadeirante de 82 anos, Benita Alves participou da caminhada e ficou extasiada com a diversidade:
- É uma festa da vida. Há anos não via borboletas. Os jovens deveriam conhecer esse lugar para valorizar a preservação dos recursos naturais.
Devoto de N.S. do Perpétuo Socorro, Ruy está concluindo a construção de uma capela na propriedade. Ao lado, ficam os únicos espaços modificados desde que ele comprou a fazenda: uma área onde plantou pupunha, manga, açaí, dendezeiros, tamarineiras e outras árvores frutíferas exóticas que estão ali apenas para alimentar os pássaros; e um prédio onde está instalando o Museu Rural, idealizado para preservar a história do distrito de Correntezas.
- O Ruy abriu mão de uma fortuna explorando a terra unicamente pelo amor à natureza. Muitos acham que ele é louco, mas é uma figura fantástica - elogia Berli Lima Cordeiro, de 78 anos, dona da Fazenda Santo Antônio dos Cordeiros, também em Silva Jardim.
Presidente do Sindicato Rural local, o fazendeiro Amaro Vianna endossa:
- Ruy é um preservacionista. Afugentou sozinho caçadores, carvoeiros e lenhadores. Ele pode ser apontado como pioneiro da preservação ambiental no Rio.
Morador de Niterói, Ruy vai para Silva Jardim todas as quintas-feiras e só volta para casa na segunda-feira. Bate ponto no sindicato e reclama da falta de ajuda para preservar o paraíso ambiental: paga cinco impostos para manter a fazenda em dia e não dá ouvidos aos que o criticam pelos gastos.
- Será que eu tinha uma missão a cumprir? Acho que sim. Tive muitas dificuldades, mas não me arrependo de nada. Amo a natureza - conclui.

O Globo, 06/05/2013, Rio, p. 16

http://oglobo.globo.com/rio/guardiao-da-natureza-em-silva-jardim-8301752

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