OESP, Economia, p.B6
01 de Fev de 2004
Grupo Caramuru, nos trilhos da soja e do milho Empresa paranaense importou dez locomotivas para facilitar escoamento do produto
CARLOS FRANCO
Uma importação de 10 locomotivas e 300 vagões dos Estados Unidos, por US$ 10 milhões, pôs nos trilhos da Ferronorte, a ferrovia da soja que liga o Mato Grosso do Sul ao Porto de Santos, a marca do Grupo Caramuru.
Compradas da GE, cinco dessas locomotivas e 100 vagões já estão rodando, num projeto que deve ser concluído em 2006, quando todos estarão em operação.
Essas locomotivas e vagões são a ponta mais visível do poderio de um grupo que completa 40 anos em março e nasceu num pequeno estabelecimento de madeira na Rua Caramuru, em Maringá, no Estado do Paraná, como armazém de venda de grãos a granel. Como todos os consumidores diziam que iam à Caramuru fazer suas compras, acabaram batizando, naquela época, a mais nova estrela do agronegócio no País.
O empresário César Borges de Souza, que divide com o irmão Alberto o comando do Grupo Caramuru, fica emocionado toda vez que uma das locomotivas apita nos trilhos que cruzam os campos do Alto Taguari, no Mato Grosso do Sul, até a serra que anuncia a chegada a Santos.
"É uma sensação boa de que estamos no caminho certo, sem sair dos trilhos", diz César, que nasceu em Uberlândia, se criou em Maringá e fez faculdade de Ciências Contábeis em São Paulo e, hoje, com o irmão, negocia a venda de grãos para países da Europa, Ásia e Estados Unidos e Canadá. Com este último, César está dando "as alinhavadas finais" num acordo para a compra de sementes de canola para testar a produção no País.
Seguindo a trilha do crescimento do agronegócio e suas cifras crescentes, hoje o Grupo Caramuru é o maior processador de soja de capital nacional do País, com capacidade de 1,2 milhão de toneladas de soja e perto de 450 mil toneladas de milho por ano, além de uma capacidade de armazenamento de 1,7 milhão de toneladas. Fechou o balanço de 2003 com faturamento de R$ 1,5 bilhão ante R$ 1,2 bilhão em 2002 e prevê R$ 2 bilhões para este ano. Quando o assunto é comercialização da soja, o Caramuru, entre os nacionais, só perde para o Grupo Maggi, capitaneado pelo governador Blairo Maggi (MT).
Também começa a investir pesado no processamento de óleo de soja, girassol e canola, de olho no no mercado externo, que responde hoje por 43% dos negócios do grupo - o que o faz figurar na 55.ª posição do ranking brasileiro de exportadores. No mercado interno, a empresa investe para dar visibilidade aos produtos que carregam a marca Sinhá.
Com uma timidez respeitosa, César tem orgulho da saga iniciada pelo pai, Múcio de Sopuza Resende, mineiro de Santa Juliana, uma das pequenas cidades da região do Triângulo Mineiro. "Nunca cheguei a pensar, quando menino, que do nosso pequeno armazém de grãos a granel fôssemos nos tornar rapidamente grandes exportadores de soja." Ele conta histórias de uma vida dura, de muito trabalho, mas também de pais dedicados que estimularam os filhos a estudarem em São Paulo e no exterior, economizando na venda dos grãos e no processamento do milho para investir no futuro.
"Meu pai nasceu empreendedor. Não demorou a perceber que, se comprasse grãos e os processasse, os ganhos aumentavam muito. Foi o que fez com o milho."
Também como um visionário, conta César com fala baixa e mansa, o pai acabou por traçar os caminhos da soja e da logística, ao vislumbrar a possibilidade de montar uma unidade de processamento de milho em Itumbiara, na divisa com Goiás e o Triângulo Mineiro, no final dos anos 70.
Antes, os negócios já haviam deixado a Rua Caramuru, em Maringá, em direção a Apucarana, também no Paraná, onde hoje a empresa processa os produtos de milho e derivados que carregam a marca Sinhá. São 30 milhões de unidades de produtos com a marca Sinhá que abastecem o varejo todos os meses. O óleo de soja livre de transgênicos é o mais novo lançamento.
Para César, o grande salto do Caramuru começou com a unidade em Itumbiara, que permitiu ao grupo entrar no negócio da soja, numa época em que o empresário Olacyr de Moraes era o rei da soja e um dos poucos brasileiros a apostar na nova fronteira agrícola do País. Moraes, por fatores diversos, acabou perdendo o trem que hoje, nesta região, conduz a soja de Maggi e a que os irmãos Alberto e César Borges de Sousa compram de produtores de Goiás e Mato Grosso, processam e vendem para o mundo. O dinheiro para a instalação da unidade de Itumbiara veio, no entanto, das exportações de farelo de milho na década de 60, num momento em que a Europa fez restrições às importações de milho, mas abriu as portas para o farelo. "Como esse era o nosso negócio, prosperamos", diz César sem cerimônia.
Hoje, o Caramuru tem cinco unidades de processamento e capacidade de refinar 230 mil toneladas de óleos de milho, soja, girassol e canola em Itumbiara e São Simão em Goiás, Apucarana (PR), Petrolina (PE) e Fortaleza (CE). "Somos hoje o maior processador de óleo de girassol do País, porque estimulamos os produtores de quem compramos a soja a plantar os girassóis no período de entressafra, com o compromisso de que compraríamos toda a produção". É com esse produto nobre e as exportações que o grupo quer ser conhecido na região Sudeste, onde o grupo que emprega 2,2 mil funcionários ainda é confundido com uma famosa fábrica de fogos.
OESP, 01/02/2004, p. B6
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