GM, Indústria, p. A1 e A14
02 de Mar de 2004
Grandes do papel plantam árvores
Suzano/Bahia Sul, Klabin, VCP, Ripasa e Orsa investem R$ 700 milhões. Sem oferta suficiente de madeira para cumprir as metas de crescimento, as fábricas de celulose e papel estão acelerando o ritmo de investimento em florestas plantadas. Somados, os valores previstos para 2004 pela Companhia Suzano de Papel e Celulose, Bahia Sul, Klabin, Votorantim Celulose e Papel (VCP), Ripasa e Orsa devem alcançar cerca de R$ 700 milhões.
A Suzano/Bahia Sul anunciou ontem que vai gastar R$ 380 milhões neste ano, e valor igual no próximo, para aumentar e melhorar o abastecimento de madeira para as fábricas do grupo. O investimento é cerca de 30% maior do que o de 2003 - foram US$ 102 milhões em 2003 e serão US$ 130 milhões neste ano. Os valores vêm crescendo desde 2000, quando somaram US$ 55 milhões.
A meta para 2004 é plantar 31,6 mil hectares e chegar a dezembro com área total de 190 mil hectares de florestas de eucalipto, segundo o gerente da divisão de recursos naturais da Suzano/Bahia Sul, Luis Cornacchioni.
Os valores incluem, da compra de terra, as despesas com a colheita. Só para comprar terras serão R$ 50 milhões, 20% mais do que em 2003. Outros R$ 90 milhões vão para o plantio, manutenção e despesas com a colheita. Cerca de R$ 15 milhões serão destinados à compra de equipamentos. O valor é 5% maior e contempla principalmente maquinário para aumentar a mecanização da colheita em áreas que abastecem a controlada Bahia Sul.
Mas um dos principais reforços da Suzano/Bahia Sul será feito em pesquisa e desenvolvimento. A verba destinada para esse fim é 60% maior do que a do ano passado e chegará a R$ 16 milhões. Os recursos, segundo Cornacchioni, são focados nas questões genéticas e na biotecnologia visando ganhos de produtividade. O executivo informou que há 20 anos a Suzano obtinha 3 toneladas de celulose por hectare plantado; hoje são 11 toneladas para a mesma área. Os trabalhos são desenvolvidos em parceria com universidades.
O esforço é para atender os programas de crescimento das empresas, que prevêem, só neste ano, aumento de 160 mil toneladas de celulose.
E está em andamento um programa de investimento em uma nova linha na Bahia Sul para produzir 1 milhão de toneladas de celulose a partir de 2008. A floresta de eucalipto precisa de sete anos para atingir ponto de corte.
A Klabin também reforça os investimentos. Vai desembolsar cerca de R$ 80 milhões neste ano para aumentar a disponibilidade de madeira. A empresa não prevê a compra de terras, mas a área própria crescerá 10 mil hectares, informou o diretor geral, Miguel Sampol. A produção total de madeira própria da Klabin será de 6,5 milhões de metros cúbicos ao final deste ano. Desse total, 2,5 milhões serão vendidos para terceiros, para atender a fabricação de móveis e equipamentos musicais, mercados de maior valor agregado, informou o diretor de assuntos estratégicos, Reinoldo Poernbacher.
Além do plantio próprio, a Klabin investe também no fomento. Em 2003 a área fomentada cresceu 2,5 mil hectares. Neste ano a estratégia é garantir volume maior, cerca de 3,5 mil hectares. "A intenção é manter entre 3,5 mil e 4 mil hectares o crescimento anual da área fomentada", disse Poernbacher. O objetivo da empresa é não só fazer frente aos programas de expansão mas ainda sustentar os volumes de venda à terceiros , informou Sampol. No total, a Klabin mantém hoje 190 mil hectares de área plantada.
Outra grande empresa do setor, a Votorantim Papel e Celulose (VCP) conta hoje com um total de 178,6 mil hectares de área de florestas, sendo 114 mil hectares plantados e o restante áreas de preservação ambiental. Além disso, a empresa compra de terceiros 600 mil metros cúbicos de madeira por ano, uma média de 50 mil metros por mês, o que representa 15% do total de madeira usada na produção, que soma hoje 4 milhões de metros cúbicos por ano, segundo o informou o gerente da área operacional Jacareí (SP) e Sul da VCP, Arnaldo Salmeron.
Este ano a VCP vai gastar US$ 70,8 milhões (cerca de R$ 204,9 milhões) na compra de terras, formação de florestas e compra de máquinas. No ano passado foram US$ 54,1 milhões (R$ 156,6 milhões). O objetivo é plantar 20 mil hectares, considerando área própria e arrendada. Em 2003, para assegurar maior volume de madeira para as fábricas, a VCP adotou um programa batizado de "fomento contratado" no qual fornece tecnologia, insumos, assistência técnica e recursos financeiros para o agricultor formar as florestas.
O investimento é de cerca de R$ 1,8 mil por hectare, disse Salmeron. No total devem ser destinados R$ 2,56 milhões ao programa. O valor gasto é devolvido em madeira, seis ou sete anos depois, quando as árvores são cortadas. "O valor em madeira é calculado no momento do plantio. O que o produtor obtiver além da quantidade previamente contratada é comprado pelo valor de mercado na ocasião da colheita. Os investimentos devem continuar elevados na VCP que tem por objetivo aumentar o abastecimento de florestas próprias para 85% a partir de 2007. Hoje essa taxa é de 70%.
Na Ripasa a ordem é aumentar 5,5 mil hectares plantados por ano de 2004 até 2008 para atingir cerca de 100 mil hectares plantados e garantir cerca de 700 mil toneladas de madeira ainda em 2007. No ano passado foram 430 mil toneladas, 130 mil mais do que o volume de 1999. Para atingir a meta, a empresa paulista está dobrando os recursos destinados à compra de terras nesse período, serão R$ 20 milhões ao ano nos próximos cinco anos. O investimento acumulado na compra de terras nos últimos três anos somou R$ 30 milhões. O montante reservado para a manutenção e para o replantio também será maior, R$ 30 milhões. No ano passado foram cerca de R$ 25 milhões.
Atualmente a Ripasa conta com 63,5 mil hectares de área plantada - considerando próprias e arrendadas, que devem crescer para 69 mil até dezembro.
"A idéia é comprar metade das terras necessárias e arrendar a outra metade. Mas vai depender da disponibilidade para compra. Do volume não posso abrir mão", afirmou o superintendente florestal da Ripasa, Pablo Vieitez Garcia, dando o tom da corrida das fábricas atrás da matéria-prima. "Não tem madeira no mercado para dar suporte ao crescimento, a alternativa é aumentar o plantio ", acrescentou o executivo da Ripasa.
A Aracruz Celulose, maior exportadora de celulose do Brasil, desenvolve em parceria com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) um projeto piloto no qual o banco financia o fornecedor de eucalipto da empresa. A previsão é de conceder recursos, inicialmente, para cerca de 2,5 mil agricultores. Hoje a Aracruz financia produtores em Minas Gerais, Bahia e Espirito Santo com um total de 58,2 mil hectares. Já a Orsa vai investir R$ 6 milhões para aumentar em 2 mil hectares a área de fomento neste ano. São até agora 7,7 mil hectares e um total de 35 mil hectares plantados, informou o presidente Sérgio Amoroso.
Escassez começou em 1999
A área é estratégica para as empresas, que têm o grande diferencial internacional no custo e na produtividade da madeira, segundo Garcia, da Ripasa. O executivo disse que a oferta no mercado começou a escassear em 1999, quando a economia acelerou no mercado local e principalmente no internacional, depois de quase uma década em ritmo mais fraco, com adiamento de alguns projetos. Na ocasião, informou, o preço da celulose chegou a US$ 600 a tonelada, quando o razoável era US$ 400. As fábricas brasileiras aceleraram a produção.
Na época, a Ripasa colocava cerca de 1 milhão de metros cúbicos de madeira por ano. "Florestas não podem ficar plantadas muito além de um ou dois anos após o período de corte porque entram em estagnação e começam a morrer, já que a plantação é muito condensada", explicou Garcia
A mudança no cenário e a pressão de compra aumentou o preço da madeira que custava R$ 9 o metro cúbico em 1999 para cerca de R$ 30 atualmente, preço que se estabilizou na segunda metade do ano passado. O que determina o preço, disse Garcia, é o picadinho, compra de olarias para queimar tijolos, pizzarias, cerâmicas, milhares de pequenos consumidores que pagam o preço para garantir o consumo de pequenos volumes. Como o pinus não tem o mesmo rendimento, o eucalipto é utilizado por essas pequenas empresas
Selo para vender à Europa
As fábricas brasileiras de celulose e papel Ripasa, Bahia Sul e Jari Celulose estão buscando o selo do Forest Stewardship Council (FSC), ou Conselho de Manejo Florestal. Trata-se de um sistema de certificação independente que adota padrões ambientais internacionalmente aceitos, incorpora os interesses de grupos sociais e ambientais. O selo, explicaram as fabricantes, começa a ser uma exigência principalmente do mercado europeu.
O superintendente florestal da Ripasa, Pablo Vieitez Garcia, informou que no caso da indústria de móveis a existência do selo chega a dar uma vantagem de preço para a fábrica que o possui. "Nesse caso a exigência existe há mais tempo", afirmou. Segundo ele, a celulose e o papel até pouco tempo não tinham essa pressão. Agora, pode virar uma barreira alfandegária ou, pelo menos, fazer com que as fábricas que não o possuam percam mercado.
Para estampar o FSC nos produtos a Ripasa vem melhorando o plano de manejo e a qualificação dos fornecedores "Eles exigem, por exemplo, um plano de monitoramento de áreas naturais, garantindo que não estão degradadas, mantendo potencial", disse Garcia. Para tanto, a Ripasa fez convênios com faculdades para fazer levantamentos da flora e fauna.
Os ajustes necessários devem custar R$ 500 mil no primeiro ano e meio. O trabalho dos auditores deve somar outros US$ 40 mil. A auditoria na Ripasa é realizada pela Sientific Certifications Systems (SCS). O trabalho é feito por um engenheiro florestal que analisa performance econômica e técnica da empresa, por um ecologista que avalia interfaces do manejo com a área ambiental e um sociólogo que avalia a relação com trabalhadores comunidade. As demais empresas não deram detalhes do processo.
GM, 02/03/2004, Indústria, p. A1 e A4
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