VOLTAR

Governo prevê elevação da oferta de energia térmica

OESP, Economia, p. B8
24 de Ago de 2014

Governo prevê elevação da oferta de energia térmica

Adriana Fernandes, Anne Warth - O Estado de S. Paulo

No momento em que o governo foi obrigado a acionar a pleno vapor as usinas termoelétricas para enfrentar uma das piores secas da história, o planejamento estratégico para a expansão dessa fonte de energia para os próximos dez anos sofreu uma reviravolta. O governo decidiu quintuplicar a expectativa de expansão de energia proveniente de térmicas na próxima década, segundo o novo Plano Decenal de Energia para 2014-2023 obtido pelo 'Estado'.
A projeção para o crescimento da matriz termo elétrica passou de 1,5 mil megawatts (MW), como constava do último plano, para 7,5 mil MW. A seca, que reduziu drasticamente os níveis dos reservatórios das hidrelétricas, reforçou a necessidade de ampliação da oferta de energia térmica, segundo estratégia traçada pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Na contramão das térmicas e eólicas, a participação de hidrelétricas deve cair de 69% para 61% no período. O uso das pequenas centrais hidrelétricas (PCHs) ficará estável em 4%. Segundo a EPE, a eólica, junto com as hidrelétricas, não trará segurança para o sistema.
Térmica Luís Carlos Prestes, da Petrobrás, pode abastecer cidade com 1,2 milhão de habitantes

O aumento expressivo da energia térmica corresponde a uma capacidade maior de energia do que a que será produzida pelas hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau complexo em construção no rio Madeira, em Rondônia, que prevê geração de 6,5 mil MW. Representa também mais da metade do que produz Itaipu, segunda maior usina do mundo e símbolo maior do potencial elétrico brasileiro, com capacidade de geração de 14 mil MW.
As projeções contidas no novo plano traçam uma fotografia da matriz energética no futuro e funcionam como uma espécie de "guia" para os novos investimentos em energia. Para agregar essa energia termoelétrica adicional ao sistema até 2023, os leilões para a contratação de novas térmicas terão de ocorrer até 2018.
Apesar do custo e do risco ambiental das térmicas serem mais elevado, o aumento é justificado no governo pela necessidade de segurança energética e pela tendência de redução da participação hidrelétrica na matriz do País. Neste ano, por causa da seca prolongada que baixou o nível do reservatório das hidrelétricas a padrões inéditos, o parque térmico foi colocado em funcionamento pleno para garantir a geração de energia para todo o sistema interligado, com um custo maior para o consumidor.
No cenário energético brasileiro, as térmicas têm o papel de um bateria, uma espécie de "backup de energia para o País, explica o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim. A tendência, prevê ele, é que as térmicas sejam usadas com mais frequência. O que se projeta "preferencialmente" é um aumento das térmicas a gás, mas também estão previstas térmicas movidas a carvão, apesar de mais poluentes.
"Está cada vez mais claro que não podemos ficar dependentes da energia hídrica ou de fontes intermitentes, como eólicas. É preciso ter esse 'backup' e, para isso, a térmica é fundamental", diz Tolmasquim.
Racionamento. Sem as térmicas, admite o presidente da EPE, o Brasil teria enfrentado este ano problemas de racionamento de energia, como em 2001, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. As novas projeções, que levam em conta um aumento da demanda de 5% ao ano, indicam que para manter, nos próximos dez anos, a participação térmica atual de 15% na matriz, é preciso crescer mais do que o previsto. Tolmasquim destaca, no entanto, que a maior expansão virá das eólicas, que saltarãode 2% para 12% na matriz energética. O Brasil, diz, é um dos maiores mercados em expansão do mundo nessa fonte de energia.
Responsável pelo programa energético da campanha à reeleição da presidente Dilma, Tolmasquim argumenta que reduziu o espaço para a construção de usinas com grandes reservatórios, principalmente,por razões socioambientais. Os projetos hidrelétricos com grandes reservatórios têm sido abandonados por estarem em áreas muito sensíveis, com vasta biodiversidade ou terras indígenas.
A consequência desse cenário é que a geração hidrelétrica na matriz brasileira fica cada vez mais dependente do ciclo de chuvas. "A água que se estocava nos reservatórios dava para passar por três anos com pouca chuva. Agora, não", reconhece.
Do potencial de 260 gigawatts (GW) de energia hidrelétrica, o Brasil já utilizou um terço. Mas a EPE estima que somente 172 GW desse potencial serão explorados. A grande parte não explorada está na região Norte, onde o movimento de reação a novas empreendimentos é cada vez mais explosivo.
Um dos últimos grandes projetos hidrelétricos que serão montados é o de São Luiz de Tapajós, com potencial de 8 mil MW e leilão previsto para dezembro. Para o presidente da Associação Brasileira de Carvão Mineral, Fernando Luiz Zancan, os projetos para novas térmicas estão prontos aguardando os leilões. "Temos projetos prontos para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina", afirma. A última usina a carvão do País, Candiota III (RS), entrou em operação em 2011.
Por causa do período eleitoral, a Associação Brasileira de Geradoras Termelétricas (Abraget) não quis comentar as novas previsões. O conselho diretor da entidade decidiu que quaisquer comentários referentes ao atual momento do setor elétrico serão encaminhados diretamente aos órgãos competentes do governo com base em conceitos puramente técnicos, sem cunho político.

Falta de chuva leva a discussão sobre modelo do setor
Com reservatórios de usinas em baixa, modelo fortemente baseado na geração hídrica passa a ser questionado

Ao longo dos anos, o que sempre se ouviu, de forma elogiosa, é que o Brasil tem uma das matrizes energéticas mais renováveis do mundo, por conta do uso disseminado das hidrelétricas. A crise provocada nos últimos anos pela escassez de chuva, porém, colocou esse modelo no centro da discussão, e a verdade é que o caminho para se chegar a uma alternativa não está muito perto do consenso.
Na campanha eleitoral, o tema energia não tem sido, até o momento, aprofundado pelos presidenciáveis. A candidata do PSB à Presidência e ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, em entrevista na semana passada, reconheceu que é difícil substituir neste momento as térmicas e que, caso eleita, vai "recorrer às fontes que já existem para fazer a complementação" representada pela baixa na produção das hidrelétricas.
Marina considerou que o uso de térmicaspara compensar a baixa dos reservatórios em períodos de seca, como atualmente, deve ser feito apenas em "eventualidades extremas", e não como componente fixo da matriz energética, como é feito há cerca de um ano. "Infelizmente, estamos sujando a matriz energética brasileira", disse.
O programa para a área de energia da presidente Dilma Rousseff, coordenado pelo presidente da EPE, Maurício Tolmasquim, está em fase final de elaboração e ainda não foi divulgado.
Coordenador de mudanças climáticas e energia da organização não governamental WWF-Brasil, o biólogo André Nahur diz que as mudanças climáticas têm alterado a vazão de rios e o regime de chuvas, com impacto negativo na geração das hidrelétricas.Ele ressalta que o painel intergovernamental de mudanças climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU) relatou que diversas perdas econômicas vão ser geradas por problemas de disponibilidade de água e de perdas na geração de energia decorrentes dos efeitos dessas mudança no clima.
"Diante das mudanças que o Brasil vem enfrentando no regime hídrico, várias usinas vêm caindo a geração", diz. Segundo ele, um dos problemas do planejamento energético brasileiro é que é baseado na hidreletricidade, tornado o País refém desse fonte de energia.Qualquer impacto que se tem na geração, não há alternativa, avalia.
Nahur diz que foi o aconteceu este ano com a falta de chuvas, que levou ao acionamento das térmicas. Ele contabiliza um custo de R$ 12 bilhões com o acionamento das térmicas nos últimos anos. "Uma hora esse custo vai se repassado para o consumidor, diz.

OESP, 24/08/2014, Economia, p. B8

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,governo-preve-elevacao-da…

http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,falta-de-chuva-leva-a-dis…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.