O Globo, Ciência, p. 38
30 de Ago de 2007
Governo: cientista agiu ilegalmente
Holandês condenado a 16 anos de prisão pedia doações pela internet
Carlos Albuquerque e Evandro Éboli
O secretário-executivo do Ministério do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, disse ontem que considera lamentável a condenação do primatologista holandês Marc van Roosmalen, mas afirmou que mesmo um cientista renomado como ele não está isento de cumprir as normas legais do país. Roosmalen foi condenado a 16 anos de prisão, acusado de abrigar animais sem autorização das autoridades.
- A condenação desse pesquisador, pela importância que tem em função dos serviços prestados à ciência, gera uma comoção. Mas você não pode partir do pressuposto que, por ser uma pessoa de alta relevância, como ele é, possa cometer atos ilegais. Isso não se justifica. É preciso separar o joio do trigo nesse caso - disse Capobianco.
Primatologista recebeu 100 mil Euros de príncipe
Além de coletar exemplares da fauna e flora amazônica, o pesquisador holandês, naturalizado brasileiro, colecionava polêmicas também. Em 2002, Roosmalen foi acusado de vender, pela internet, o direito à escolha de nomes para quem financiasse suas pesquisas.
As autoridades brasileiras consideram essa busca virtual por um mecenato uma prática ilegal e inadequada. Roosmalen argumentou que tais doações serviriam para que comprasse terra com biodiversidade alta para protegê-las.
Segundo o Ministério Público Federal no Amazonas, o primatologista chegou a receber C 100 mil do príncipe Bernardo, da Holanda, para que desse o seu nome à uma nova espécie de macaco.
- Mas essa é uma prática que existe no mundo da ciência desde os tempos de Galileu e sua ligação com os Médici, que eram os seus mecenas - argumenta o físico Ênio Candotti, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Proteção à Ciência (SBPC).
No ano seguinte, Roosmalen foi alvo de sindicância interna no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), onde trabalhava, sob acusação de enviar material genético para o exterior sem autorização. Roosmalen acabou sendo demitido do órgão.
- O que estamos presenciando é um caso que mistura burocracia e xenofobismo - diz o advogado Miguel Barrella, constituído pelo SBPC para dar apoio jurídico ao cientista holandês.
Segundo Barrella, o cientista holandês está sendo equivocadamente tomado como um "bode expiatório".
- Essa visão xenófoba é antiga - garante o advogado. - Ela já atingiu os próprios índios da região, que muitas vezes são tratados como se fossem estrangeiros também.
O Globo, 30/08/2007, Ciência, p. 38
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