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Gigante pela própria natureza

O Globo, Segundo Caderno, p. 1 e 3
16 de Nov de 2017

Gigante pela própria natureza
Brasil perde o homem que transformou resíduos de crimes ambientais em obras de arte, ao mesmo tempo poéticas e potentes, para alertar o mundo sobre a necessidade da preservação ambiental

Nascido na Polônia em 1921, mas brasileiro desde 1957, como gostava de dizer, Frans Krajcberg foi um dos primeiros a olhar a natureza do Brasil com preocupação. Crítico visceral da destruição dos ecossistemas do país, transformou em arte e manifesto o que seriam apenas resíduos de crimes ambientais. Suas esculturas feitas com árvores calcinadas correram o mundo, retratando o resultado de incêndios criminosos em todas as regiões do país, principalmente Amazônia, Centro-Oeste, Nordeste. Raízes, cipós, caules e pigmentos minerais tornaram-se o material mais constante de uma obra que foi, ao mesmo tempo, um agradecimento à terra que o recebeu, em 1948, e uma denúncia permanente dos crimes ambientais cometidos ao longo de décadas.
- É preciso falar sobre a destruição do planeta. E é preciso falar sobre cultura. Estamos passando por momentos difíceis, há um vazio de arte, não se pronuncia mais a palavra cultura. É uma crise mundial, mas no Brasil parece mais profunda. Porque aqui, também se trata de uma crise moral - afirmou ele ao GLOBO em 2016.
- A vida e a obra de Krajcberg eram feitas de coerência, matéria cada vez mais escassa no Brasil. Ao mesmo tempo, era puro afeto. Desde os anos 1970, ele lutou pela preservação desse nosso pulmão coletivo que é a Amazônia, e pela biodiversidade brasileira - disse ontem o cineasta Walter Salles, que era amigo do artista e o transformou em personagem dos documentários "Krajcberg: o poeta dos vestígios" (1987) e "Socorro nobre" (1995).
Frans Krajcberg chegou aqui para fugir do sofrimento que ainda tomava a Europa logo após a Segunda Guerra Mundial. Toda a sua família fora executada em campos de concentração, mas ele conseguira escapar para a então União Soviética, onde cursou Engenharia e Artes em Leningrado. De volta ao seu país, foi condecorado como herói pelo exército polonês, estudou na Academia de Belas Artes de Stuttgart, viveu em Paris.
Mas o que ele queria mesmo era ficar longe de tudo, isolado dos homens. Já que não podia mais se refugiar nos bosques da cidade natal, Kozienice, como tanto fazia quando criança, desistiu da Europa antes que desistisse de tudo.
- Meu primeiro pensamento foi: a guerra continua. Havia dias em que era tanta fumaça que não se conseguia ver a luz do sol. O cenário, aquela terra arrasada pela destruição, era o mesmo dos campos de batalha. E me perguntava que ser terrível era o homem, capaz de fazer aquilo. A arte foi a maneira que encontrei para reagir - lembrou ele anos mais tarde.
ASSISTENTE DE VOLPI
Incentivado pelo amigo Marc Chagall (18871985), que conhecera em Paris, Krajcberg chegou ao Brasil sem muitas referências. Aos 27 anos, o recomeço solitário, num país de língua estranha e gente alegre, não foi tão fácil quanto parecia. Sem falar português e com pouco dinheiro, dormiu nas praias do Rio durante algumas noites e logo decidiu tomar o rumo de São Paulo, onde encontrou outros europeus fugidos da guerra. Foi lá que conseguiu emprego como encarregado da manutenção no Museu de Arte Moderna e conheceu artistas influentes, chegando a ser assistente de Alfredo Volpi. Enfim, sentiu-se em casa - pelo menos durante algum tempo.
Já em 1951, participou da Primeira Bienal de São Paulo, marcando o início de uma carreira que lhe rendeu prêmios e viagens frequentes entre Paris, Ibiza e Rio. Nada disso, entretanto, diminuiu uma certa aversão ao convívio social. Quanto menos gente, melhor. Esse pensamento levou Krajcberg a isolar-se durante um tempo numa gruta de Itabirito, em Minas Gerais. Abrindo mão de qualquer tipo de conforto, trabalhava incessantemente na criação de esculturas e gravuras usando pedras das minas da região.
Com tantas histórias vividas desde que chegou ao país, nada mais natural do que Frans Krajcberg sentir-se integrado à paisagem.
- Era o mais brasileiro dos poloneses. Tinha muita paixão pelo Brasil e muita raiva do desmatamento - disse ontem o artista plástico Carlos Vergara, lembrando que a generosidade era outra grande característica do amigo. - Ele me ensinou, como dizem, o caminho das pedras. O caminho das pedras da cor.
Vergara conviveu muito com Krajcberg na região em que ele encontrou seu endereço definitivo no Brasil, em 1972. Naquele ano, o brasileiro com forte sotaque polaco estabeleceu-se em Nova Viçosa, no litoral sul da Bahia. Cercado pela única porção de Mata Atlântica remanescente na região, tomou para si a tarefa de mantê-la intacta e, mais que isso, recuperar o que pudesse. Hoje, a área em que viveu, o sítio batizado de Natura, é uma floresta de dez mil árvores de espécie nativa que conseguiu recompor nos últimos 40 anos.
- Mais do que um posicionamento político e existencial, ele nutria um comprometimento religioso com a Terra e com a floresta. A mata era o seu altar, e envolvia toda a sua casa - complementa Vergara.
A chegada à Bahia coincidiu com a necessidade de Krajcberg abandonar a pintura porque uma forte alergia a determinadas tintas estava afetando sua saúde. Foi aí que as árvores surgiram prioritariamente como matéria-prima para sua obra. Basta dizer construiu sua casa sobre um troco de pequi de 2,60m de diâmetro, a 12 metros do chão.
Desde então foram décadas de trabalho intenso e isolamento, que sempre gostava de manter, além de alguns percalços. A casa dos sonhos chegou a ser invadida algumas vezes, e numa dessas ele sofreu a única perda material que poderia ter deixado alguma marca: os ladrões levaram o cordão que pertencera à sua mãe.
CORPO SERÁ CREMADO
Com o tempo, o ativismo ecológico só ganhou mais espaço na vida do artista plástico, que fazia questão de participar de congressos que discutissem o desmatamento. Foi assim em dezembro do ano passado, quando se tornou uma das presenças mais esperadas da 21ª Conferência do Clima (COP21), em Paris.
-Ele sempre fez da sua obra, da dimensão plástica da escultura, um monumento à natureza e à capacidade de a arte resistir - disse ontem o crítico de arte Luiz Camillo Osório.
Frans Krajcberg estava com a saúde debilitada desde o início do ano. Nos últimos meses, ele chegou a ser hospitalizado em Teixeira de Freitas, cidade próxima a Nova Viçosa. Internado há um mês no Hospital Samaritano, na Zona Sul do Rio, tinha problemas cardíacos e já chegou à cidade com várias infecções. Seu quadro de saúde era considerado muito delicado. Morreu na manhã de ontem, com a galerista e grande amiga, Marcia Barrozo do Amaral, a seu lado. A causa da morte, porém, não foi divulgada.
- Estou me sentindo muito perdida - disse ela, que convivia com Krajcberg há mais de 20 anos. - Agora está todo mundo tonto por aqui.
O corpo do artista será cremado às 11h desta quinta-feira no Memorial do Carmo, no Caju, Zona Norte do Rio. E suas cinzas serão levadas ao Sítio Natura para serem espalhadas entre as árvores do canto de terra que ele mais amou.

Frans Krajcberg: A floresta e a arte estão de luto
Catador de mundos, artista resolveu dar o contorno de seu imaginário ao que a natureza criou

por Leonel Kaz, especial para O GLOBO*

RIO - Frans Krajcberg nasceu em 1921. Eu o ouvi dizer que seria o último sobrevivente com este sobrenome no mundo. Possivelmente, sim. Sua família foi dizimada na Segunda Guerra Mundial, durante o massacre nazista. Krajcberg decidiu não ter filhos. Deixará como legado milhares de troncos calcinados, pintados em urucum vermelho, contorcidos pela assimetria ou pelo acaso que marcam a natureza (e transformados, por sua mão faber, em obras de arte). Deixará também moldagens em relevos e fotografias de galhos, flores e queimadas - espécie de acervo bruto de onde nasce sua obra escultórica.
Krajcberg é um arauto da defesa do verde, desde quando o assunto não era moda, desde quando não era tão clara - e angustiante - a realidade de uma natureza trucidada pelo homem. Essa percepção sobre a obra do artista teve o Museu do Homem, em Paris, que criou, há menos de um ano, uma nova exposição permanente sobre a história da civilização. Sabe qual o único artista que, com dez esculturas, marca esta caminhada do homem sobre a superfície terrestre? Krajcberg, ele mesmo.
Em suas esculturas com flores-fósseis avermelhadas, se percebe, para além do belo, a memória ressurgida do sofrimento. Também se percebe a dor nos relevos, de acordo com o crítico Frederico Morais, para quem o mundo do artista, "baseado numa espécie de memória da natureza" surgiu, também, como forma de "anular uma memória do seu próprio passado".
O filólogo e crítico de arte Antonio Houaiss escreveu que o amor de Krajcberg pela natureza se externava de três formas: "Sofridamente, porque nele há denúncias dos ultrajes que cotidiana e sistematicamente estamos praticando contra a vida. Emotivamente, porque nele há a apreensão da beleza que se encerra na coerência e harmonia naturais. E apaixonadamente, porque cada um de nós, vendo as coisas de Krajcberg, passa a conviver com Krajcberg, a compreendê-lo e a engajar-se na direção do seu engajamento como paixão de vida."
Nascido na Polônia, Krajcberg chegou ao Brasil, em 1948, aos 27 anos. Em 1972, deixou a vida urbana para enraizar-se em meio ao mato de Nova Viçosa, no sul da Bahia. Desde então, a natureza lhe foi companheira e também matéria-prima. O tronco gigante de um pequizeiro virou sua casa suspensa, onde ele dormia, acordava, sonhava e se enfurecia. As raízes do mangue - ocultas ou visíveis, úmidas ou secas - viraram quadros e esculturas (que nada têm de ready-made, porque minuciosamente talhadas, coladas, pintadas e trabalhadas pelo artista). Há peças suas, emolduradas em madeira, onde a "pintura" é feita apenas com pedras. De tudo ele se apropriou nesta passagem de quase um século pela superfície e pelas entranhas da Terra.
Esta magia da abstração se dá quando os objetos que nos cercam rebrilham pelo acaso de nosso olhar. É o acaso que nos faz identificar o ser que amamos entre milhares. É o acaso que faz o artista verdadeiro perceber, na miríade de formas da floresta, aquele recorte para o qual dará um novo sentido. Catador de mundos, ao que a natureza criou Krajcberg resolveu dar o contorno de seu imaginário. Raízes, lianas, troncos retorcidos vão se entretecendo. Passam a dispor de uma dupla vida: aquele na qual nasceram e morreram e aquela, recriada pelo artista, onde ganharam algum desejo de eternidade.
O que se produz é um amálgama entre o ser e as coisas, entre Krajcberg e seus troncos, como se não houvesse distinção física entre ambos. Foi a vontade de viver que levou Krajcberg a abandonar a Europa do pós-guerra em busca de um caminho próprio de expressão. "A natureza é minha cultura. É ela que me dá o desejo de viver. Muitas vezes o diálogo é mais rico com a natureza do que com os homens. Um pedaço de pau no meio do mato chega a me dizer mais que algumas pessoas."
A floresta e a arte estão de luto.
* Leonel Kaz é coeditor do livro de artista "Outra Natureza", de Krajcberg

O Globo, 17/11/2017, Segundo Caderno, p. 1 e 3

https://oglobo.globo.com/cultura/artes-visuais/morre-artista-plastico-f…

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