CB, Brasil, p. 14
04 de Mar de 2006
Gestão das águas sai do papel
Em solenidade oficial, Lula lança projeto que trata da administração dos recursos hídricos do país. "Esse plano vai nos ajudar a não fazer as loucuras que fizeram nos séculos 19 e 20", diz o presidente
Hércules Barros
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva lançou ontem, em cerimônia no Palácio do Planalto, o Plano Nacional de Recursos Hídricos. Lula ressaltou que a política ambiental do Brasil está à altura de suas responsabilidades mundiais. "Esse plano (Plano Nacional de Recursos Hídricos) vai nos ajudar a não fazer no século 21 as loucuras que fizeram nos séculos 19 e 20. Vamos ter bom senso", profetizou. A idéia é que o plano represente um avanço na gestão estratégica dos recursos hídricos naturais no país até 2020. O plano significa um passo a mais para proteger o patrimônio natural que o Brasil tem.
A ministra Marina Silva aproveitou a ocasião para ressaltar que o Brasil é o primeiro país da América Latina e Caribe a ter um plano nacional de recursos hídricos.
Para atingir tal propósito, Lula destacou a participação da sociedade na elaboração de planos de sua administração, como a proposta de gestão das águas. "É mais um tijolo na arquitetura de um país em construção", disse. O presidente lembrou ainda que participaram da elaboração do plano mais de 7 mil especialistas, entre representantes de secretarias estaduais de Meio Ambiente, organizações não-governamentais (ONGs), governo federal, além de populações tradicionais, como as indígenas.
"O novo plano vai orientar a gestão das águas nacionais e, ao mesmo tempo, fortalecer nossa caminhada rumo ao cumprimento de um dos Objetivos do Milênio", lembrou Lula. As Metas do Milênio - definidas pela Organização das Nações Unidas (ONU), prevê o aumento do acesso da população ao saneamento básico e à água potável. O objetivo é reduzir à metade a população que ainda não conta com esses benefícios. O plano atende proposta da Agenda da Cúpula de Joanesburgo (Rio+10), em que a ONU determinou que os países construíssem seus planos de gestão.
Em entrevista à rádio CBN, o presidente do Instituto Internacional de Ecologia de São Carlos (SP), José Galizia Tundisi, destacou a importância do projeto a longo prazo. Mas ponderou que, embora o país tenha leis avançadas no setor, falta "passar para a ação". "Um dos problemas mais graves hoje é fazer os comitês de bacias funcionar", ressaltou.
Tundisi destacou também o problema de gestão e qualidade de águas nas grandes regiões metropolitanas e para os pequenos municípios falta, segundo ele, técnica adequada para gerir e controlar a qualidade de seus mananciais e tratar esgoto. "É preciso ter instrumentos para desenvolver mecanismos de gestão nas áreas urbanas", disse.
De acordo com o especialista, na Amazônia, apesar da abundância de água, enfrenta-se problema sério de saneamento, enquanto na Região Sudeste, o desafio é combater a poluição e equacionar a disponibilidade de água para o grande contingente populacional da região. O desperdício de água é outro desafio.
Segundo Tundisi, a rede tratada perde hoje em torno de 40% do seu potencial. "Em algumas cidades do Norte, o desperdício de água tratada chega a 60%, enquanto a média mundial é de 30%", destaca.
CB, 04/03/2006, Brasil, p. 14
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