VOLTAR

Gelo ferve no Ártico

O Globo, Ciência, p. 35
20 de Dez de 2011

Gelo ferve no Ártico
Solo congelado derrete e libera CO2 e metano. Fenômeno pode ter efeito no clima

Justin Gillis
Do New York Times FAIRBANKS, Alasca.

Uma bolha surge em um buraco de um lago congelado.
Ela explode, seguida de outra e mais outra, como se uma panela estivesse fervendo nas profundezas geladas. Cada bolha que explode lança um sopro de metano - um poderoso gás-estufa gerado no fundo do lago pela decomposição de restos de plantas que viram a luz do dia pela última vez há 30 mil anos e estavam presos no gelo até agora.
- Esse é um ponto quente - declarou Katey M. Walter Anthony, cientista líder de um estudo sobre a emissão de metano.
Poucos minutos depois, ela se debruçou perigosamente na beira do gelo, mergulhando uma garrafa na água para recolher uma amostra, mais uma pequena pista para os cientistas que lutam para entender um dos maiores mistérios sobre o futuro da Terra. Há tempos os especialistas sabem que as terras do norte são um estoque de carbono congelado, preso no gelo na forma de folhas, raízes e outros materiais orgânicos - um mistura que, quando derretida, pode produzir metano e dióxido de carbono, gases que aprisionam o calor e aquecem o planeta. Mas eles foram surpreendidos nos últimos anos pela quantidade de restos orgânicos lá.
Estimativas recentes sugerem que o solo congelado perenemente, conhecido como permafrost e que cobre cerca de um quarto do Hemisfério Norte, guarda duas vezes mais carbono do que toda a atmosfera. As temperaturas estão subindo em toda região, segundo os cientistas, por causa da rápida emissão de gases-estufa pelo homem. Assim, o permafrost também está aquecendo. Parte dele já descongelou, e outros sinais estão surgindo de que o carbono congelado pode estar ficando instável.
- É como se fossem brócolis no seu freezer - comparou Kevin Schaefer, cientista do Centro Nacional de Dados sobre Neve e Gelo dos EUA em Boulder, no estado do Colorado. - Enquanto estiverem no freezer, estarão bem. Mas, uma vez que você os coloca na geladeira, eles descongelam e eventualmente se decompõem.
Se uma quantidade substancial desse carbono atingir a atmosfera, ela vai intensificar o aquecimento.
Uma possibilidade preocupante é que uma proporção significativa dele não seja liberada como dióxido de carbono, gás normalmente formado pela quebra do material orgânico, mas como metano, produzido quando a decomposição ocorre em lagos ou pântanos. O metano é especialmente poderoso em aprisionar o calor do Sol, e o potencial de grandes novas emissões de metano no Ártico é um dos maiores mistérios da ciência climática.
Os cientistas afirmam que entender o problema é uma grande prioridade. O Departamento de Energia dos EUA e a União Europeia recentemente se comprometeram com novos projetos que têm como objetivo exatamente isso, e a Nasa está avaliando plano semelhante.
Por enquanto, os cientistas ainda têm mais perguntas que respostas.
Análises preliminares realizadas apenas recentemente sugerem que regiões do Ártico e do subártico podem eventualmente se tornar fonte equivalente a 15% das atuais emissões anuais globais decorrentes das atividades humanas. Estes cálculos, no entanto, são deliberadamente cautelosos.
Emissão impossível de ser contida
Uma pesquisa recente com 41 cientistas que estudam o permafrostoferece projeções informais mais sombrias. Eles estimam, que se a queima de combustíveis fósseis pelo homem continuar grande e o planeta se aquecer muito, os gases do permafrost podem eventualmente equivaler a 35% das emissões humanas atuais. Os especialistas também afirmam que, se a Humanidade começar a controlar suas emissões em breve, os gases-estufa provenientes do permafrost podem ser mantidos em um nível muito mais baixo, talvez menos que 10% das emissões correntes.
Mas mesmo este número mais baixo significa que as longas negociações internacionais sobre emissões de gases-estufa devem ficar ainda mais difíceis, com menos espaço de manobra para os países continuarem a queimar grandes quantidades de combustíveis fósseis. Na cabeça dos especialistas, a maior preocupação não é se o carbono no permafrost irá ser liberado rapidamente - as estimativas típicas são de que isso pode levar mais de um século, talvez vários - mas que, uma vez que a decomposição comece, ela seja impossível de ser contida.
- Mesmo 5% ou 10% das emissões atuais são preocupantes, e 30% são um absurdo - disse Josep G. Canadell, cientista na Austrália que administra um programa global de monitoramento dos gases-estufa.
- O permafrost se tornará uma fonte crônica de emissões que perdurará por centenas de anos.
O derretimento do permafrost também fez surgir outra tendência preocupante: os incêndios florestais estão aumentando no norte do planeta, e pesquisas preliminares sugerem que isso pode levar a uma perda ainda mais acelerada da cobertura de gelo do solo.

O Globo, 20/12/2011, Ciência, p. 35

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.