OESP, Economia, p. B18
20 de Mar de 2011
''Gatos'' contratam mão de obra para usina de Jirau
Operários se queixam das promessas não cumpridas pelos homens que apresentam o canteiro da usina como um ''Eldorado''
Leonencio Nossa
As construtoras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) recorrem às mesmas práticas de recrutamento de trabalhadores dos tempos do "Brasil Grande", nos anos 70, quando o País viveu um surto de desenvolvimento econômico no período do regime militar (1964-1985).
As vagas dos canteiros de obras da usina hidrelétrica de Jirau, paralisadas depois de um quebra-quebra promovido pelos operários, foram preenchidas, nos últimos meses, por migrantes que receberam promessas de "gatos" para enfrentar mais de três dias em ônibus precários das cidades nordestinas até as margens do Rio Madeira.
A história de um dos "gatos", pagos para recrutar pessoal sem qualificação em sítios e povoados do sertão, ganhou status de lenda, tamanho o ódio que desperta nos que se aventuraram em busca do "Eldorado" de Rondônia. Os operários falam de um "Antônio Carlos", de boa conversa, que "engana direitinho o pessoal". Ninguém sabe o nome completo ou o endereço dele.
Os "Antônios" com sobrenome e demais dados de identificação são os que aparecem nas filas de reclamação. "Ele cumpriu o trato de garantir merenda na viagem, mas até agora não recebi os R$ 120 que prometeu quando a gente chegasse aqui", queixou-se o operário Antônio Raimundo Pinho da Silva, 48 anos, um dos que deixaram o alojamento da Jauru Engenharia, na madrugada de quinta-feira, após a revolta. O incêndio teria sido provocado por funcionários da Camargo Corrêa revoltados com o valor dos benefícios.
De Parnarama, a família do operário já acreditou ou teve de confiar em outros "gatos". O pai, tios e conterrâneos de Antônio Raimundo foram deslocados do Maranhão para as matas do Pará, nos anos 1970, para trabalhar nas obras da hidrelétrica de Tucuruí e da rodovia Transnordestina. Aos 18 anos, Antônio Raimundo era um dos milhares de maranhenses que atravessaram o rio Tocantins para se aventurar no garimpo de ouro de Serra Pelada. Ele não se lembra do nome do "gato" que o levou para uma frente de extração do garimpo, mas cita histórias de ordem e rigidez dentro da mina.
Longe do tempo em que ecoava a frase "a economia vai bem, mas o povo vai mal", nos anos do milagre econômico do governo Médici (1969-1974), época em que o salário real ficava bem longe dos números de aumento do Produto Interno Bruto (PIB), o País ainda enfrenta o desafio das relações de trabalho. O operário paraense Antônio César Souza da Silva, 34 anos, de Belém, reclama que o "gato", quando chegou para conversar com o pessoal num bairro da periferia da capital paraense, não disse que em Jirau havia seguranças dispostos a espancar quem entrasse alcoolizado no alojamento nem quem desrespeitasse filas no refeitório e banheiros.
"Os seguranças não sabiam conversar. Nos finais de semana, quando o pessoal passava um pouquinho da conta na bebida, eles tratavam os bêbados na pancada, como vagabundos", relata Antônio César. "Eu não sabia que a obra era uma panela difícil para sair", diz. Antônio afirma que, ainda em Belém, assinou "contrato de comprometimento" com o "gato" em que abriria mão de qualquer benefício se deixasse as obras de Jirau antes de três meses. "Se sai antes de 90 dias, a volta é por sua conta".
Com salários em média de R$ 1 mil, os operários tentam prolongar a permanência nos canteiros e esperar o cumprimento do prazo do contrato para deixarem Rondônia. "Se sair antes, não pega nem o seguro desemprego", reclama José Francisco Soares, 29, de Imperatriz.
No povoado de Jacy-Paraná, transformado do dia para a noite na maior "fofoca" do complexo do Jirau - reduto de jogos, bares e mulheres -, a maioria dos operários costuma ir nos finais de semana e os momentos de folga. Pelo acordo firmado ainda pelo "gato", eles têm direito à "embaixada", isto é, a uma visita de cinco dias à família, com transporte pago, a cada quatro meses de trabalho.
Muitos dos operários sonham em ir para os canteiros da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. É o caso do maranhense Rafael Mendes Pereira. "Aqui, em Rondônia, é um inferno. Pelo menos, em Belo Monte, a gente vai estar mais perto de casa", afirma. "Os encarregados no Jirau acham que só porque usam fardas amarelas podem agredir as pessoas."
Ar-refrigerado e desaforos
Nos alojamentos improvisados, em Porto Velho, incerteza e revolta com a ação dos ''cachimbos''
Leonencio Nossa
O incêndio nos alojamentos da construção da hidrelétrica de Jirau, no rio Madeira, na semana passada, resultou numa fuga desesperada de boa parte dos 20 mil operários para o centro da capital de Rondônia. A pé, na carroceria de caminhões ou nos poucos ônibus disponibilizados pelas empresas Camargo Corrêa, Enesa e Jauru, eles percorreram cinco quilômetros de uma estrada de terra que liga o canteiro de obras ao povoado de Nova Mutum e, dali, mais 72 quilômetros até o centro de Porto Velho.
A legião de operários não coube nas pousadas e pequenos hotéis da cidade. Eles foram alojados no ginásio do Sesi, nas casas de show Forasteiro, Caipirão e Nautilue e em uma clínica médica desativada. No prédio da clínica Ameron, os operários reclamavam que não havia chuveiro e o café era limitado. Muitos deles, na fuga, deixaram para trás roupas e calçados.
O maranhense Ariston Rodrigues de Oliveira, 48 anos, da Jauru Engenharia, outro veterano de Serra Pelada, era um dos 150 homens que se espremiam na antiga sala de espera e nos consultórios desativados da clínica. "Só tomei um copo de refrigerante e comi um pão desde que cheguei aqui", reclamou. "O problema maior é se molhar com uma canequinha e não ter roupa para vestir", completa. "Cheguei a retirar algumas roupas do alojamento, mas no caminho aquilo pesou e joguei fora", contou Ariston.
Em nota, a Camargo Corrêa afirmou que alojou 7,5 mil operários nas casas de show e no ginásio do Sesi. "Os profissionais estão sendo recebidos com alimentação, água, kits de higiene pessoal e colchões. O grande contingente de funcionários forma fila em alguns momentos, mas está garantido o atendimento de todos", destaca o comunicado da empresa.
Ar condicionado. O maranhense Rafael Mendes Pereira, 20 anos, outro que passou as três últimas noites na clínica de Porto Velho, diz que sente falta das condições dentro do alojamento, com ar-condicionado e camas individuais.
Num discurso para os operários de Jirau, em agosto do ano passado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva destacou que o "ar condicionado" nos alojamentos de Jirau era um avanço nas grandes obras. "Isso demonstra que os trabalhadores vão aprendendo a conquistar seus direitos, os empresários vão aprendendo que é importante que, quanto mais conforto, mais os trabalhadores produzem e assim a gente vai mudando a cara do nosso País", afirmou.
Lula disse à época que os operários se aperfeiçoaram. "Eu tenho esperança de que uma obra destas não vai acabar e deixar parados milhares de trabalhadores, que se aperfeiçoaram, se prepararam. Tem outras grandes hidrelétricas que pretendemos fazer pelo País afora."
Para Rafael Pereira, o mais difícil, na usina de Jirau, era o relacionamento com os seguranças, conhecidos como "cachimbos", e o isolamento no canteiro de obras, na mata, sem transporte fácil para ir a Porto Velho.
"O problema era ficar num lugar longe de tudo, gastando o dinheiro que eu queria levar para casa e ouvindo desaforos de encarregados", afirma.
Rafael faturava com horas extras R$ 1 mil por mês, sem os descontos em farmácias e lanchonetes. Ele costumava entrar no trabalho às 7 horas e, com horas extras, largar às 23 horas.
"Só parava uma hora para comer. Estava incluído o tempo que eu ficava na fila sendo empurrado por seguranças e do trajeto de ônibus da obra até o refeitório", diz. Desde que foi recrutado em Imperatriz, há dez meses, o operário não passou por cursos de capacitação.
Contratações são regulares, diz grupo
A Camargo Corrêa, responsável pelas obras civis de Jirau, disse que todas as suas contratações são feitas por meio do Sine (Sistema Nacional de Empregos) e por empresas especializadas e registradas. "A empresa não usa os chamados "gatos"", afirmou. O TRT de Rondônia vai instalar uma vara itinerante para ouvir os trabalhadores da hidrelétrica.
OESP, 20/03/2011, Economia, p. B18
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