OESP, Economia, p. B16
10 de Dez de 2006
Gás que 'brota da terra' é esperança para cidades de MG
Municípios ao longo do Rio São Francisco esperam o progresso com o interesse de empresas petrolíferas
Eduardo Kattah
Entre o ceticismo e a esperança, comunidades pobres do noroeste de Minas convivem com a expectativa de que a redenção econômica da região, ao longo da extensa Bacia do Rio São Francisco, poderá se tornar realidade nos próximos anos. Os relatos sobre o gás natural que por ali 'brota da terra' são antigos. Exageros e fantasias à parte, o certo é que não se trata de uma lenda do sertão mineiro.
No fim dos anos 70, pesquisas foram realizadas na região pela Petrobrás após a constatação do 'fenômeno' dos vazamentos naturais de gás. Os estudos não chegaram a resultados conclusivos sobre o tamanho das reservas ou sua viabilidade comercial.
Há pouco mais de um ano, no entanto, causou surpresa o interesse de grandes empresas nacionais e estrangeiras, que arremataram de 39 das 43 áreas para exploração oferecidas pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). Foi o primeiro indício de que o lado mineiro da bacia, de quase 126 mil quilômetros quadrados, pode realmente abrigar uma das maiores riquezas naturais do planeta.
O apetite demonstrado pelas empresas na sétima rodada de licitação aberta pela ANP, em outubro de 2005, gerou uma onda de otimismo entre as prefeituras - num total de 153 municípios, alguns extremamente carentes -, que já sonham com os royalties pagos pela exploração dos recursos naturais.
Enquanto isso, os sertanejos tocam a vida como podem. É o caso de Evaldo Rodrigues dos Santos, de 28 anos. Morador do distrito de Cachoeira do Manteiga, em Buritizeiro, cidade vizinha a Pirapora, cresceu ouvindo histórias sobre o gás que emana do subsolo. 'Eu só acredito depois de ver.'
Com esse espírito, acompanhou a reportagem do Estado até um poço artesiano na Fazenda Vila das Aroeiras. Foi testemunhar a tão falada emanação de gás. Colocou fogo num pedaço de papel e a água represada do poço deu lugar a uma grande chama, que se formou no ar. 'Agora eu acredito', disse, ainda trêmulo por causa do susto.
Agora ele espera que alguém explore mesmo o gás. 'Aqui só tem serviço braçal. Precisamos de indústrias para mudar nossa vida', conclui Santos, que sobrevive 'enchendo forno' e 'batendo lenha' nas carvoarias.
O gerente da Vila das Aroeiras, Juvercino Ferreira da Silva, de 42 anos, conta que o poço foi perfurado em 1976 e terminou por queimar a sonda utilizada na obra. O gás que emana junto à água, de uma leve textura branca, não presta para o consumo humano. 'Mas para o gado é bom porque tem enxofre', afirma o gerente.
Naquele ano, a Petrobrás programou uma análise da Bacia do São Francisco. No fim da década de 80 e início dos anos 90, quatro poços apontaram indícios favoráveis de gás. 'Mas ninguém nunca comentou sobre o resultado das análises', diz Silva. 'A salvação da lavoura aqui é esse gás. Pode gerar muito emprego'.
BOLHAS
É nisso o que confia Maria Josefa Ferreira de Jesus, de 48 anos, que mora a 15 km da fazenda, em um casebre à beira do Rio Paracatu, com o marido e cinco filhos. Ela se acostumou a ver as bolhas que surgem nas águas do rio. Pouco visíveis nesta época, por causa da cheia, as bolhas são resultado das constantes emanações de gás. 'Muita gente faz um buraco da areia, põe uma lata e até frita peixe', assegura a mulher. 'O rio borbulha tanto que assusta.'
Como em outros municípios da região, a atividade econômica de Buritizeiro, com 26,7 mil habitantes, gira em torno da agropecuária e da produção de carvão vegetal, muitas vezes clandestina. Pelo trabalho duro, os carvoeiros não ganham mais do que R$ 15 por dia.
As cidades sobrevivem basicamente dos repasses do Fundo de Participação dos Municípios. 'Há mais de 20 anos já se comenta que aqui era possível esquentar a marmita na terra', diz Adelson Toledo de Almeida, secretário-executivo da Associação dos Municípios do Médio São Francisco. A entidade abrange 12 municípios, onde vivem 153 mil pessoas.
'Nossa expectativa são os royalties', diz Warmillon Fonseca Braga (PFL), prefeito de Pirapora, cidade-pólo da região, com 52,7 mil habitantes. 'O potencial existe e pode ser a solução para essa dependência do gás boliviano e da necessidade de o País se tornar auto-suficiente.'
O pescador Leonardo da Piedade Diniz Filho, de 44 anos, também espera o crescimento, mas tem uma preocupação. 'Tenho um medo muito grande em relação à parte ambiental. O nosso sustento depende do rio.'
Pesquisas indicam que as reservas são promissoras
Ainda não há dados suficientes para se afirmar que a região mineira da Bacia do São Francisco pode reivindicar um lugar no mapa do gás natural no Brasil. O pesquisador Wilson Guerra, coordenador do Núcleo de Geologia do Petróleo (Nupetro) da Fundação Gorceix, vinculado à Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), estuda, há três anos, a viabilidade comercial e a dimensão da reserva. A principal conclusão a que chegou é que a bacia é muito antiga e tem semelhança com a formação geológica da Sibéria, na Rússia, maior produtor mundial de gás.
Mas Guerra suspeita que se trata de uma reserva bastante significativa. 'Não é à toa que praticamente todos os blocos postos em leilão foram arrematados', observa.
Diferentemente da primeira tentativa de leilão, em 2002, quando nenhuma companhia fez lances, no ano passado grupos como a Petrobrás, em parceria com a britânica British Gas (BG) e a argentina Oil M&S decidiram arrematar fatias de lotes pelo direito de pesquisa.
Há quase dez anos, a Petrobrás foi obrigada a suspender as incipientes experiências na região do noroeste mineiro, já que a partir de 1997, com a quebra do monopólio, as pesquisas em áreas passaram a depender da concessão da ANP. A estatal chegou a fazer levantamentos de dados sísmicos em 2.815 quilômetros, incluindo o distrito de Cachoeira da Mantega (na cidade de Buritizeiro) e o município de Santa Fé de Minas.
Para a Petrobrás, o imbróglio com o gás boliviano tornou premente a busca de novas reservas de gás natural. E.K.
OESP, 10/12/2006, Economia, p. B16
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