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Gás natural

OESP, Economia, p. H1-H8
20 de Out de 2012

Gás natural
Preço alto prejudica competitividade da indústria, mas cenário pode mudar com exploração do gás de xisto e a chegada de novas empresas

Apesar do grande potencial, a exploração de gás no Brasil enfrenta desafios. Atualmente, o combustível é comprado no País a US$ 16 por milhão de BTUs (unidade térmica referência no setor). Nos Estados Unidos, a explocação do gás de xisto, derrubou o valor chega a US$ 2.
Não basta ter reservas. A falta de infraestrutura, tecnologia e mão de obra especializada impõe um piso para a queda de preços no mercado nacional. A diferença de preços entre Brasil e EUA já afeta a competitividade de setores da economia brasileira, como a indústria petroquímica, da cerâmica e do vidro. O fórum "O Futuro do Gás Natural", promovido pelo Grupo Estado em parceria com o Projeto +Gás Brasil, discutiu saídas para reverter esse quadro, incluindo a exploração das reservas de gás não convencional (shale gas), como no mercado americano.
O presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), Paulo Pedrosa, alerta que, com as limitações para desenvolver o potencial do gás natural no Brasil, o déficit comercial da indústria que usa intensivamente o combustível deve continuar a crescer nos próximos anos. Essas indústrias, que registravam superávit de US$ 5 bilhões em 2005, passaram a um déficit de US$ 15 bilhões em 2011.
Um fator que deve ajudar a baixar o preço do gás natural é a entrada de novos empresas no setor, trazendo mais concorrência e transparência e reduzindo a concentração que existe atualmente nas mãos da Petrobrás. O evento "O Futuro do Gás Natural" foi o terceiro da série Brasil Competitivo. O próximo discutirá "Mão de Obra para o Crescimento", dia 6 de novembro.

Gigantesco potencial ainda não explorado
A competitividade do gás brasileiro depende de investimentos bilionários em gasodutos que levem o produto do poço ao consumo

SABRINA VALLE, FERNANDA GUIMARÃES, CIRCE BONATELLI

O potencial gigantesco na exploração de gás no Brasil não será suficiente para baixar o preço do combustível no País no mesmo patamar dos Estados Unidos, segundo especialistas. E a diferença de preços entre os dois mercados, que já afeta a indústria petroquímica brasileira, pode demorar para ser estreitada.

Participantes do fórum "Futuro do Gás Natural", organizado pelo Grupo Estado em parceria com o Projeto +Gás Brasil, comemoram que o pré-sal e as reservas de gás não convencional (shale gas) vão ampliar a oferta no Brasil, o que tende a baixar os preços.

Mas os especialistas alertam que não basta ter reservas. O tipo das jazidas brasileiras e a falta de infraestrutura, tecnologia e mão de obra especializada impõem um piso para a queda de preços. Hoje, no Brasil, o gás é comprado no mercado livre (spot) a US$ 16 por milhão de BTUs (unidade térmica referência no setor), segundo o Ministério de Minas e Energia (MME). Nos EUA, após a exploração do gás de xisto, o valor chegou a US$ 2. "Temos de ter em mente que nossa indústria não conseguirá receber grandes volumes de gás abaixo de US$ 8 por milhão de BTUs", disse o secretário de óleo e gás do ministério, Marco Antonio Martins Almeida.

E a competitividade pode demorar. Depende, por exemplo, de investimentos bilionários em gasodutos para levar o gás do poço ao consumo, em investimentos ainda não programados e que levam, ainda, anos para serem amortizados.

Com as limitações para desenvolver o enorme potencial, o déficit comercial da indústria brasileira que usa intensivamente o gás como insumo deverá crescer nos próximos anos, diz o presidente da Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (Abrace), Paulo Pedrosa. O Brasil tem hoje o oitavo maior preço, numa lista de 46 países pesquisados pela associação.

Pedrosa diz que o conjunto das empresas intensivas em gás tinha superávit comercial de US$ 5 bilhões em 2005, e passou a um déficit de US$ 15 bilhões em 2011. "A expectativa é de que esse déficit possa superar os US$ 100 bilhões até 2025."

Nos Estados Unidos, a autossuficiência trazida pelo shale gas levou o combustível a cair a US$ 2 por milhão de BTUs. Hoje, o preço está em cerca de US$ 3,20. Mantida a diferença, parte da indústria petroquímica brasileira, que tem no insumo um de seus principais custos, pode migrar para o mercado americano, como já manifestou a presidente da Petrobrás, Graça Foster.

O tipo do gás brasileiro é outro limitador de competitividade. No pré-sal, a maior parte do gás está associada a óleo e a CO2, que precisa ser separado na plataforma e reinjetado, em um processo possível, mas custoso. Levar o insumo para a costa até 300 quilômetros distante também demanda investimento em infraestrutura.

Os recursos de gás não convencional poderiam equivaler a 300 anos do atual consumo brasileiro. As reservas poderiam ser 20 vezes maiores do que as atuais reservas provadas, segundo números usados pelo consultor Manuel Quintela, da Gas Energy. Mas o potencial ainda não está confirmado, diz, e só será possível comprovar a viabilidade comercial com perfuração, o que ainda não começou no Brasil.

Para completar, o estoque do gás é difícil e transformá-lo em líquido (GNL) para exportação também encarece o produto final. Somados todos os fatores, perde competitividade. "Não dá para ter expectativa de que nosso preço chegue a isso (americano). Nossa infraestrutura de transporte ainda não está desenvolvida e boa parte ainda precisa ser remunerada", diz Almeida.

Mesmo distante, especialistas já traçam um cenário mais competitivo para o preço. Um corte à metade no preço do gás teria potencial de aumentar em 0,5 ponto porcentual o crescimento econômico do Brasil anualmente, até 2025, de acordo com pesquisa apresentada por Fernando Garcia, coordenador de pesquisas da Fipe. A Fipe leva em conta o gás a US$ 14 por milhão de BTU. "Se a energia ficar mais barata, temos uma liberação dos recursos da indústria para realizar autoinvestimento."

Apesar dos entraves, a diretora-geral da Agência Nacional do Petróleo, Magda Chambriard, dá como certo que o mercado vai se desenvolver e ganhar competitividade. "O Brasil tem dimensões continentais. Temos indícios de gás no Norte, Sul, Leste e Oeste. Não é possível que a gente não possa dar este salto."

PDF com a integra do caderno especial.

OESP, 20/10/2012, Economia, p. H1-H8

http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,gas-natural,948187,0.htm
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