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Garimpo expõe índios da Amazônia ao mercúrio

Ciência Hoje on line
Autor: Adriana Melo
27 de jun de 2003

Níveis do metal nos Pakaanóva são 40% maiores que o tolerado pela OMS, diz estudo

A exposição por mercúrio foi estudada em 910 índios Pakaanóva

Os índios Pakaanóva estão expostos a um alto nível de intoxicação por mercúrio, revela um estudo realizado no Instituto Evandro Chagas (IEC). Nos indivíduos estudados, foi constatado um nível médio de exposição a esse metal 40% acima do tolerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). No caso mais grave, o de uma criança, essa concentração era 14 vezes maior do que a tolerada pela OMS.

O mercúrio pode prejudicar o funcionamento dos aparelhos digestivo, respiratório e urinário, mas os maiores danos são causados ao sistema nervoso central. "Os sintomas mais freqüentes incluem alterações na coordenação motora e diminuição da acuidade visual", diz Elisabeth Santos, coordenadora da seção de meio ambiente do IEC e principal autora do estudo, publicado na edição de janeiro/fevereiro dos Cadernos de Saúde Pública.

A área habitada pelos Pakaanóva, nos municípios de Guajará Mirim e Nova Mamoré, em Rondônia, está sob a influência da bacia do rio Madeira, onde é praticado o garimpo de ouro. Desde o final dos anos 1970, essa atividade é responsável pela emissão de mercúrio no ambiente. O ouro de granulação fina é recuperado do leito dos rios pela formação de uma amálgama com a forma metálica do mercúrio. A amálgama em seguida é queimada ao ar livre, o mercúrio se separa do ouro e é liberado na atmosfera na forma de vapor.

O mercúrio metálico se deposita nos rios e, sob a ação de fatores como a presença de certas bactérias, se transforma em diversas formas orgânicas, inclusive no metilmercúrio, prejudicial para o organismo humano. Por meio da cadeia biológica, o metilmercúrio contamina os peixes, principal fonte de proteína na dieta dos índios da Amazônia. O consumo de água não tratada também favorece a exposição ao metal.

A população indígena nos municípios estudados é estimada em 1930 indivíduos. Participaram do estudo 910 deles, moradores de nove aldeias. As medições, feitas pela análise de fios de cabelo, revelaram um teor médio de mercúrio de 8,37 microgramas de mercúrio por grama de cabelo (mg/g), superior aos 6 mg/g considerados como pela OMS como limite de tolerância biológica. Em geral, crianças apresentaram exposição ao mercúrio maior que a dos adultos (10,5 mg/g em média para aquelas com até 2 anos) -- a mais exposta tinha 83,89 mg/g. A contaminação por esse metal é cumulativa e é possível que haja exposição intra-uterina e pela amamentação.

"Dada a dependência do peixe como fonte de alimentação dos índios e a associação desse padrão alimentar com o aumento da exposição ao mercúrio, é importante recomendar a criação de programas de vigilância ambiental, bem como a realização de novas pesquisas para avaliar os processos de acumulação mercurial dessas populações", sugere Santos.

A participação dos índios no estudo foi mediada pela Fundação Nacional de Saúde e pela Fundação Nacional do Índio de Rondônia. "Essas instituições deram apoio importantíssimo para a pesquisa", diz Santos.

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