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Funai não promete terra para índios

Dourados Agora-Dourados-MS
Autor: Honório Jacometto
11 de Mai de 2005

Índios cobram agilidade do presidente da Funai na demarcação de novas áreas em Mato Grosso do Sul. Foto Hedio Fazan
Presidente da Funai diz que em MS há 'indústria de advogados' financiada por políticos e fazendeiros

Índios querem 600 mil ha no sul do estado; funai não faz promessas

Para os índios de Dourados foi mais que uma reunião com o presidente do órgão que defende os interesses dos povos indígenas, afinal, em quase dois anos à frente da Fundação Nacional do Índio, Mércio Gomes Pereira nunca tinha estado na Reserva para uma conversa "cara-a-cara" com os índios.

Para a comunidade o encontro foi a oportunidade de reiterar um pedido que vem sendo feito às autoridades há um bom tempo. Os índios de Mato Grosso do Sul cobram agilidade da Funai na demarcação de novos territórios, que totalizariam quase 600 mil hectares no Sul do Estado.

PROMESSAS
Mércio Pereira preferiu não fazer promessas e aproveitou o discurso para elogiar o trabalho que vem sendo desenvolvido pela Funai.

"A gente sabe que é um órgão que está sucateado, mas que vocês podem ter certeza que sempre estaremos ao lado dos povos indígenas. Quando os 'cintas-larga', por exemplo, assassinaram os garimpeiros em Roraima, que o mundo se virou contra os índios adivinhe quem foi que apoiou eles? Adivinha de onde serão os advogados que vão defender estes índios? Claro que da Funai", exemplificou Mércio Pereira.

RECLAMAÇÕES

O único não-índio a discursar no encontro com as lideranças indígenas foi o presidente da Funai. Na reunião de ontem na escola Tengatui-Marangatu, na Reserva de Dourados, eles tiveram oportunidade de apresentar as reclamações que afligem os onze mil índios que vivem nas aldeias Jaguapiru e Bororó e também em outras da região.

Um dos índios que usou o microfone para reclamar foi Ambrósio Ricalde. Ele apresentou recorte do jornal O PROGRESSO ao presidente da Funai. A reportagem contava uma história de suícidio nas aldeias de Dourados. Com o jornal em mãos o índio cobrou a presença intensiva e ostensiva da polícia dentro das aldeias para garantir segurança às comunidades. Também usou outro recorte do jornal para contar o problema das casas que estão desabando.
"Não é possível imaginar que tenha tanto dinheiro do governo sendo aplicado aqui e que os resultados não sejam bons", disse o índio ao presidente da Funai.

O representante do Conselho de Saúde Indígena de Mato Grosso do Sul, Fernando Souza também participou da reunião e cobrou mais recursos da Funai para as aldeias do Estado.
"A gente sabe que o orçamento anual da Fundação do Índio está em torno de R$ 94 milhões. Esse montante é dividido entre 400 mil índios o que significa que por ano o investimento no índio é de apenas R$ 230, ou seja, falta dinheiro para os povos", constatou Fernando Souza.

O terena Ramão Almirão da Silva foi além. Fez duras críticas à administração da Funai e cobrou empenho de Mércio Pereira para resolver o problema dos índios de Dourados.
"Lá em Brasília, dentro dos gabinetes, vocês pensam que as coisas aqui estão num paraíso, mas aqui, na verdade, está tudo de cabeça para baixo. Me responde, seo presidente, pra que a gente vai ficar formando índios nas faculdades de Dourados, para eles cortarem cana? A gente não vê perspectiva para nossas crianças e jovens", disse indignado o terena que continuou esbravejando "somos onze mil índios e vocês ficando fazendo a gente de tapete. É tanta CPI, tanta reunião, tanto blá-blá-blá e nenhuma ação concreta", finalizou.

Eram tantas lideranças querendo discursar que foi preciso estipular cinco minutos para que todos pudessem apresentar as reclamações.
O representante da aldeia Lagoa Rica, capitão Faride Mariano, cobrou agilidade na demarcação de 8 mil hectares em Douradina.
"Aqui neste papel está dizendo que a gente tem uma área de 8 mil hectares, quando na verdade somos mil pessoas e estamos obrigados a viver dentro de 300 hectares", disse o capitão apontando um documento da década de 60.

Outra reclamação recorrente foi a falta de um chefe de posto da Funai que fica na aldeia Jaguapiru, na Reserva de Dourados.
"Pode parecer que é uma coisa pequena, mas a figura do chefe de posto é muito importante para gente. É ele que agiliza a liberação de documentos, como aposentadoria e também benefícios para gestantes", disse Regina de Souza, líder indígena.

A professora Edna Souza, filha do líder indígena Marçal de Souza, afirmou que o governo não tem uma preocupação com os problemas dos índios brasileiros.
"Nós que somos índios mais esclarecidos e que temos acesso à informações sabemos que este governo federal não tem uma política séria para a questão indígena, por isso eu conclamo nossa comunidade para se unir, porque se a gente não estiver juntos quem lutará por nós?", indagou a professora Edna Souza.

DEMARCAÇÕES

Não adiantou todo o discurso dos líderes indígenas, porque Mércio Gomes Pereira disse que em Mato Grosso do Sul os trâmites para que uma área seja reconhecida são lentos.
"Aqui neste Estado há uma 'indústria de advogados', com concentração em Campo e Dourados, mantida com dinheiro de políticos e fazendeiros. E esses advogados fazem de tudo para barrar os processos de demarcação", afirmou o presidente da Funai.
Mércio Pereira Gomes recebeu um documento dos índios denominado 'Carta dos Povos Indígenas de Mato Grosso do Sul'. O documento tem quatro páginas e nele constam vários pedidos dos índios do Estado.

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