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Funai aciona Exército após ataque a tiros contra base no Amazonas

FSP - https://www1.folha.uol.com.br/poder
24 de dez de 2018

Funai aciona Exército após ataque a tiros contra base no Amazonas
Foi ato de terrorismo, diz comandante da PM; liderança diz que Bolsonaro incentiva invasões de terras indígenas

24.dez.2018 às 17h59

Fabiano Maisonnave
SÃO PAULO

Em ação descrita como terrorista pela PM, homens armados atacaram uma base da Funai de proteção a índios isolados na Terra Indígena Vale do Javari, no oeste do Amazonas. Em resposta, o órgão indigenista solicitou reforço do Exército.
O ataque, revelado pelo site Amazônia Real, aconteceu por volta das 3h deste sábado (22) na base Ituí-Itacoaí, que funciona sobre uma balsa e está a cerca de 40 km de Atalaia do Norte.
Na descrição dos quatro PMs que faziam a segurança do local, os invasores estavam em dois barcos e chegaram atirando. A base funciona 24h por dia e é estratégica para impedir a entrada de invasores a regiões onde moram índios isolados.
"A intenção era matar todo mundo", diz o comandante do 8o Batalhão de PM do Amazonas, major Huoney Herlon Gomes. "Foi um ato de terrorismo, para acabar com a fiscalização."
Para proteger a embarcação, onde também dormiam servidores da Funai e colaboradores indígenas, os PMs dispararam 86 tiros. Os barcos foram achados mais tarde, com rastros de sangue. As marcas das balas indicam disparos de calibre 16 (espingarda) e de calibre 380 (pistola).
Em nota, a Funai informou que solicitou reforços do Exército e da Polícia Militar, que enviou mais seis homens para a região. A reportagem procurou o Comando Militar da Amazônia (CMA), que orientou a contatar o Centro de Comunicação Social do Exército, mas ninguém foi localizado para comentar o assunto.
O comandante da PM criticou a falta de estrutura da base da Funai por parte do governo federal. "Não há armamento adequado nem pagamento completo das diárias."
Na semana passada, a Justiça Federal acatou pedido do Ministério Público Federal e determinou que a Funai apresente, em até 90 dias, um plano de reestruturação das Frentes de Proteção Etnoambiental no Amazonas, incluindo a do Vale do Javari.
Segundo o MPF, a própria Funai afirma que precisa de 96 servidores nas seis frentes, mas dispõe de apenas 42. Procurada pela reportagem da Folha, a Presidência da Funai não comentou a decisão judicial.
A TI Vale do Javari concentra a maior população de índios isolados do país, como os flecheiros, além de etnias de recente contato, incluindo os korubos e os matis.
No ano passado, garimpeiros teriam massacrado um grupo de isolados na região, mas a investigação sobre o suposto ataque segue inconclusiva.
QUINTO ATAQUE
Beto Marubo, da organização Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), afirma que este já foi o quinto incidente com tiros neste ano envolvendo invasores e indígenas na região, cobiçada principalmente por pescadores.
Em três ocasiões anteriores, pescadores teriam atirado na direção de colaboradores, servidores da Funai e PMs alocados para proteger as equipes. No quarto caso, índios da etnia korubo que pescavam em um lago foram obrigados a deixar o local, em área indígena, após disparos.
Para Marubo, declarações do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL), contra a Funai têm gerado a expectativa em Atalaia do Norte (1.140 km em linha reta de Manaus) de que o órgão deixará de existir, abrindo o Vale do Javari para não indígenas.
Bolsonaro já disse que quer revisar demarcações, como a Raposa Serra do Sol (RR), e comparou indígenas vivendo em suas próprias terras a "animais em zoológico".
"Isso tem motivado esses invasores a aumentar o ímpeto", diz Marubo, que trabalhou por 20 anos como servidor da Funai no Javari. "O que se ouve em Atalaia do Norte é: 'Agora, a gente tem autorização para fazer o que quiser'."
"Isso acontece contra o Ibama também. São equipes do Estado que vêm sendo caçadas por pessoas que se sentem motivadas e no direito de fazer porque o presidente da República meio que oficializou isso", afirma a liderança.

FSP, 24/12/2018, Poder.

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