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Fruto da terra

O Globo, Ela, p. 2
20 de Out de 2007

Fruto da terra
Hoje executiva em Genebra, a filha do sertanista Apoena Meirelles fala sobre seus pais e os índios

Bety Orsini

Tainá Maldi Meirelles tinha 6 anos quando a jornalista Lilian Newlands a conheceu. Filha do sertanista Apoena Meirelles - assassinado em 2004 quando retirava dinheiro de um caixa eletrônico -, Tainá era uma menina desassombrada. Com o irmão Chiquinho, ela costumava mergulhar nos igarapés, brincar com os índios, caminhar na mata, voar com o pai pela Amazônia. Era sociável, tinha personalidade forte e seus sonhos eram iguais aos das garotas de sua idade, entre eles, ser bailarina e modelo. Para Lilian Newlands, autora do livro "Apoena - O homem que enxerga longe" (Editora da UCG), o que tornava Tainá diferente era que ela também desejava ser piloto, veterinária e mulher de empresário.
O destino não quis assim.
Depois que a mãe, a antropóloga Denise Maldi, morreu de um câncer fulminante, a adolescente não quis mais continuar vivendo no Brasil.

Foi morar em Genebra, formouse em administração de empresas e hoje ocupa o cargo de consultora financeira do Banco UBS. Quando deixou o Brasil, Tainá queria apenas fugir de suas dores como se fosse possível abandoná-las em outro continente. Mas mesmo distante, continua sensível à causa indígena.

Acusa o indigenismo da Funai de "obsoleto e incapaz" e gosta de repetir uma frase do pai: "Este governo não tem mais tempo hábil para limpar toda a sujeira que fez. É muita ação a ser feita e poucos homens de coragem para fazê-lo". No livro, ela homenageia o pai com um comovente poema escrito dois meses depois de sua morte. "Não me ensinaram a te perder. Ou se me ensinaram, eu não quis aprender./ Porque também não tive tempo de aprender você. Aprender teu ser e tuas estórias./ Teu coração e tuas memórias. Aprender a te ensinar o quanto eu te amo."

"Tenho medo do Brasil"
Lilian acompanhou a trajetória de Tainá (na língua carajá o nome significa "estrela da manhã") e não vê contradição no fato de ela ter se tornado uma executiva sendo filha de um indigenista com militância socialista.

Ela é uma menina bonita, simples, preocupada com o mundo e as pessoas. Tem distanciamento e idéias próprias. Além do mais, em algum momento todos os caminhos se encontram, ali, onde o que realmente importa prevalece.

De Genebra, por telefone, Tainá conta que sua infância com os índios foi marcante mas que naquela época não tinha idéia do valor do trabalho dos pais. E conta que o índio fazia parte das conversas na hora do almoço, das férias passadas em aldeias e dos ornamentos que decoravam a casa dos Meirelles. Por questões profissionais ligadas ao pai, ela passou a infância entre Brasília, onde nasceu, Cuiabá e Porto Velho.

Quando Apoena virou presidente da Funai, lembra do medo da mãe de que o telefone estivesse grampeado. Por causa disso, Denise não gostava de deixar os filhos saírem sozinhos.

- Ele pediu demissão porque sua visão de descentralizar o órgão não convinha ao Ministério do Interior. Hoje sou consciente da dimensão da questão indígena e das esferas que a envolvem, inclusive de poder e corrupção.

Pelo bem de uma causa, meus pais galgaram caminhos tortuosos e impensáveis para a maioria dos seres humanos.

Aos 31 anos, noiva de um brasileiro que mora em Genebra, ela lamenta que atualmente ninguém se importe com o índio no Brasil.
- Meus pais me ensinaram a renunciar a tudo por um ideal - diz, frisando que a pureza da alma do índio é incorruptível.
Ela conta que seus pais vieram de mundos muito diferentes. A mãe, de uma família "com certa distinção econômica", o que lhe deu a oportunidade de estudar em escolas bilíngües, de viajar e de optar por uma carreira acadêmica sem se preocupar muito com os limites financeiros.

Tainá diz que a mãe não era ligada ao lado material da vida e que, apesar de ser muito vaidosa - gostava de cremes e roupas bonitas -, não se incomodaria se, de um dia para o outro, tivesse de viver sem isso. O pai era antimaterialista, embora fizesse questão de certos itens, como os indispensáveis óculos Ray Ban próprio de pilotos.

- Ele era extremamente organizado e podia dizer, de olhos fechados, onde estava tudo no seu armário. Sabia logo se alguém havia mexido nas suas coisas.

Perto da morte da mãe, quando seus pais já estavam separados há vários anos, Tainá ligou para Apoena avisando. Ele pegou um avião e foi ver Denise no hospital.

- Quando eu disse a ela que meu pai estava no hospital querendo vê-la, ela me pediu um batom emprestado, não queria revê-lo com o rosto pálido. Há muitos anos que eles não se viam. Meu pai entrou no quarto e os dois conversaram como se fizesse apenas alguns dias que eles não se viam. Ali, eles se perdoaram e eu pensei: Agora, minha mãe pode ir em paz.

Leitora ávida de biografias, maratonista de finais de semana e "mãe" da shih-tzu Georgia ("coloquei o nome em homenagem a música de Ray Charles"), Tainá vem pelo menos três vezes por ano ao Brasil para analisar o mercado.

Executiva respeitada, ela conta que cresceu ouvindo dos pais que mulher não pode depender de homem.
Isso é tão forte em mim que não deixo um homem pagar minha conta em restaurante - conta Tainá.

A geração da negligência

Apesar de ter nascido em Brasília, ela adotou o Rio como cidade natal porque ela lembra Apoena. É aqui que Tainá recarrega a sua alma e garimpa as roupas que fazem sucesso lá fora. Se ela tem vontade de voltar? Não sabe.

Diz que a Suíça é um país muito frio, tanto o clima quanto as pessoas, mas vive uma luta interna. Um lado quer voltar, outro, não.

- A gente acaba sendo um cidadão de lugar nenhum - diz ela, lamentando que o Brasil seja um país de memória curta. - A história de meu pai se perdeu. Hoje a gente fala de Apoena e as pessoas dizem "Quem"?
Além do mais, afirma que no Brasil não teria a mesma independência por causa das condições econômicas.

- Tenho medo do Brasil. Lula só agradou a investidores estrangeiros. O investimento que entra hoje no país é especulativo, não vai durar.

Ele teve muita sorte de ser presidente nesse momento, se fosse numa fase de recessão na economia mundial, o Brasil não estaria nada bem.

Tainá tem poucos arrependimentos na vida. Um deles é ter convivido pouco com o pai, que morreu aos 55 anos.

Lembra que a morte era um tema sempre presente em suas conversas. Ele dizia para a filha que já tinha vivido meio século, que era o bastante.

Mas quando aconteceu, não entendi. Meu pai, que tantas vezes desafiou sua vida, não podia ter morrido assim.

É banal demais para um homem com a vivência dele. Não acredito em latrocínio, essa é mais uma historinha. De Lula, minha família recebeu um reles telegrama e o Ministro da Justiça na época, Thomáz Bastos, recusou-se a me receber quando o assunto já não saía nos jornais.
Para Tainá, é imperdoável que o governo "não dê a mínima" para a causa indígena.

- Nunca os índios foram tão negligenciados na história deste país. Isso trará conseqüências irreversíveis para o povo como um todo. Seremos vistos, no futuro, como "a geração da negligência", a que viu o extermínio de um povo debaixo do seu próprio nariz e nada fez para detê-lo.

O Globo, 20/10/2007, Ela, p. 2

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