Folha do Estado-Cuiabá-MT
15 de Nov de 2005
Os moradores do distrito de Ponta do Aterro, localizado no Vale do Guaporé, a aproximadamente 500 quilômetros de Cuiabá, estão vivendo um grande impasse junto a Fundação Nacional do Índio (Funai), que quer que as 10 comunidades que integram o distrito, sejam reconhecidas como indígenas. O problema é os quase 5 mil moradores da região não querem ser 'transformados' em índios. De acordo com representantes dos moradores, a Funai quer obrigá-los a aceitar uma identidade indígena. Os habitantes do local se uniram para provar ao Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Funai, que apesar de apresentarem traços parecidos com a dos indígenas, são descendentes de bolivianos. Os moradores dizem que a região faz divisa com o Bolívia, e que existem documentos que provam que há quase 300 anos os jesuítas declaram a não existência de povos indígenas na região. Os cidadãos do distrito entendem como um retrocesso a questão e dizem que são pessoas civilizadas, possuidoras de terras, comércio e de uma vida economicamente ativa. O fato é que desde que a Fundação Nacional do Índio e o Cimi se uniram para mudar a etnia local, a população vem realizando audiências públicas para mostrar que não são e não querem ser registrados como índios.
Há dois anos os órgãos tentam transformar os cerca de 400 mil hectares dessa área que passa pelos municípios Porto Esperidião, Cáceres, Vila Bela da Santíssima Trindade e Pontes e Lacerda, em reserva indígena. São 150 quilômetros de fronteira com a Bolívia. De acordo com o proprietário de uma das fazendas da região, João Bosco Teixeira de Rezende, as pessoas do local vivem da agricultura e da pecuária, e no caso das terras serem desapropriadas e virarem reserva, um grave problema social e econômico vai ser gerado.
"O que os moradores querem saber é para onde vão os animais que são criados lá e as pessoas que não quiseram se submeter a voltar no tempo e viver como índios. O que acontece com quem depende do local para tirar o sustento da sua família. Isso é uma situação o Cimi a Funai têm que repensar para não gerar problemas maiores", salientou O fato é que a Funai alega que os cidadão que lá estão, são descendentes da etnia Chiquitano, que habitou a região há quase 3 séculos, e que devem ser reconhecidos como tal. A direção da Funai no Estado e o Cimi foram procurados, mas ninguém foi encontrado para falar sobre o assunto.
Desmentidas ameaças feitas aos moradores Uma outra versão para o reconhecimento da etnia apareceu na semana passada quando moradores da região, favoráveis à desapropriação da área, denunciaram que estariam recebendo ameaças por parte dos fazendeiros para que não reconheçam a origem indígena, e assim atrapalharem o processo de identificação das terras.
O fazendeiro João Bosco disse que dentre as cinco mil pessoas, apenas uma está a favor da Funai, e que o órgão está prometendo aos moradores a 'terra dos sonhos'. "Eles tentam comprar as pessoas com a idéia de que se a área for transformada em reserva, eles vão ter muitas terras e ficarão ricos, mas o que eles não falam é que nada poderá ser feito nessa terra, além de agricultura manual, sem uso de nenhum tipo de maquinário. Quem é que vai querer viver assim?", disse. Uma audiência pública com o governador Blairo Maggi e com o presidente da Funai, Mércio Gomes, com o objetivo de mostrar a real situação em Ponta do Aterro, deve acontecer ainda esta semana.
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