O Globo, Economia, p. 24
06 de Out de 2009
Frigoríficos aderem a 'desmatamento zero'
Maiores empresas do setor assinam compromisso de não comprar gado criado ilegalmente na Amazônia
Ronaldo D'Ercole
Os maiores frigoríficos do país - o JBS-Friboi (que incorporou o Bertin), o Marfrig e o Minerva - formalizaram ontem o compromisso de não comprar gado criado em áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia. Com a chancela do Greenpeace, o acordo de "desmatamento zero" define que num prazo de seis meses as empresas tenham cadastrados seus maiores fornecedores de boi para abate, de modo a permitir o monitoramento da origem dos animais. Segundo o Greenpeace, 80% das áreas desmatadas na Amazônia são ocupadas pela pecuária.
- É questão de sobrevivência competitiva e econômica. É inegável que o Brasil precisa mudar.
Passamos da era da maquiagem verde para a era da responsabilidade, onde o consumidor vai cobrar - disse o diretor executivo do Greenpeace, Fernando Furtado, na cerimônia que marcou a adesão das empresas, realizada na Fundação Getulio Vargas, em São Paulo.
JBS-Friboi: Brasil é o oxigênio de todo o planeta
O alinhamento dos grandes frigoríficos aos compromissos socioambientais estabelecidos no acordo ocorre quase três meses depois de uma ação do Ministério Público (MP) do Pará. A partir de documentos obtidos pelo Greenpeace, em julho o MP paraense notificou as empresas e os supermercados a quem elas vendiam carne, alertando que poderiam ser responsabilizados pela compra de carne oriunda de áreas desmatadas ilegalmente.
As grandes redes de supermercados, como Pão de Açúcar, Carrefour e Wal Mart, junto com a Abras, entidade que representa o setor, reagiram e anunciaram a suspensão da compra de carne sem especificação de origem dos frigoríficos. Os frigoríficos, então, concordaram em adotar novas práticas.
Com a assinatura, ontem, do documento "Desmatamento zero na cadeia de suprimentos", as empresas assumem o compromisso de não mais aceitar fornecedores envolvidos em novos desmatamentos, e de adotar um programa de seis pontos que, além do cadastro das fazendas produtoras, exige o seu "rigoroso" monitoramento.
- Não basta querer vender, mas sim preservar. Estamos aqui validando o compromisso sobretudo com o desmatamento zero na Amazônia - disse José Batista Júnior, diretor da JBSFriboi, que, com a aquisição da Bertin, em setembro, tornou-se a maior processadora de carnes do mundo. - A ideia é buscar cada vez mais a sustentabilidade e mostrar que o Brasil é e será sempre responsável pelo oxigênio de todo o planeta.
Marcos Molina, presidente da Marfrig, o segundo maior processador de carne bovina do país, fez coro ao concorrente.
- Essa parceria é para nós um passo muito importante na área socioambiental.
Para o diretor do Greenpeace Paulo Adário, o ato demostra "a seriedade dos compromissos assumidos pelos grandes frigoríficos".
- É incrível que o principal setor responsável pelo desmatamento se comprometa a preservar a integridade da floresta
Maggi prevê dificuldades
Governador defende compensação a pecuarista
O governador de Mato Grosso, Blairo Maggi, tratou de dar contornos realistas ao compromisso dos frigoríficos com o desmatamento zero na Amazônia, durante cerimônia na FGV. Segundo ele, cujo estado está entre os líderes do desmatamento no país, o objetivo de não comprar carne de quem desmata "está bem como política, como uma intenção". Mas, previu, vai demorar para se chegar a "um nível ótimo para todos - pecuaristas, frigoríficos e varejo".
- Essa questão ambiental não se resolve com tanta simplicidade, com a assinatura de um termo, como estamos fazendo hoje - disse, destacando que o processo de ocupação da Amazônia foi incentivado pelo governo. - Discutir isso aqui, na FGV, é muito tranquilo, mas ir lá no campo, no interior da Amazônia é complicado.
Maggi defendeu que os pecuaristas sejam compensados financeiramente pelas áreas que preservarem.
- Precisamos dar uma alternativa àquelas pessoas a quem nós estamos dizendo "não desmatem mais, porque senão o supermercado não vai mais comprar carne de vocês". (R.E.)
O Globo, 06/10/2009, Economia, p. 24
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