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França segura expectativas para a cúpula do clima

Valor Econômico, Especial, p. A13
Autor: CHIARETTI, Daniela
24 de Abr de 2015

França segura expectativas para a cúpula do clima
Acordo climático Governo francês tem desafio de alinhavar consenso

Daniela Chiaretti | De Paris

O governo de François Hollande prepara a maior conferência internacional da história da França com cautela. Chegar a um acordo climático global em Paris, em dezembro, é tema prioritário na agenda do governo francês e vem sendo perseguido como um marco histórico nas relações internacionais e algo fundamental para o futuro do planeta.
Mas como o acordo tem que ser consensual entre representantes de 195 países, com interesses conflitantes, há também o risco de não sair ou de sair e ser fraco. Pelo sim, pelo não, a estratégia francesa tem sido conter expectativas.

Os franceses preparam o evento a 15 km ao norte de Paris, em Le Bourget, ao lado de um antigo aeroporto muito usado por jatos particulares, que abriga uma famosa feira internacional de aviação e onde o Air Force One de Barack Obama pousou recentemente. Esperam 40 mil pessoas nas duas semanas de conferência, sendo três mil jornalistas. Trabalham erguendo salas de reunião e anfiteatros em uma área de 160 mil m2, a 45 minutos de trem da Torre Eiffel. Abrigarão ali também centenas de eventos de organizações não-governamentais e, em outro espaço, a intensa agenda programada por empresas do mundo todo.

O Parlamento francês aprovou o orçamento para a COP-21 -como se chama a conferência das Nações Unidas sobre mudança do clima - de 180 milhões de euros. "É um grande esforço para um país em situação orçamentária difícil. Financiamos o conjunto da conferência, mas se empresas vierem se associar à inciativa, serão bem-vindas", diz o diplomata Pierre- Henri Guignard, secretário-geral para a preparação e a organização do megaevento.

Para se ter uma ideia da logística envolvida, cada delegado precisa de wi-fi para três pontos simultâneos (celular, tablet e computador). São mais de 90 mil pontos de wi-fi funcionando na mesma hora, no mesmo espaço.

Ao mesmo tempo em que preparam a operação, os franceses evitam responder quantos chefes de Estado e de governo virão à COP-21. Nunca dizem que será uma cúpula de líderes mundiais. Falam em "reunião ministerial" e explicam que a presença dos estadistas dependerá do progresso das negociações durante o ano. Há diversas reuniões multilaterais e informais programadas nos próximos meses em vários países.

A razão da cautela francesa tem nome e data - o fracasso da conferência de Copenhague, em 2009. Ali se esperava que o acordo climático global fosse assinado e passou-se o ano especulando-se quantos e quais chefes de Estado e de governo participariam do evento. O final foi melancólico, com líderes mundiais tentando acertar as pontas de um acordo complexo e confuso, que a diplomacia internacional não havia conseguido aparar. "O impacto da conferência foi muito negativo para a Dinamarca", avalia um negociador.

Hollande tem falado da COP-21 sempre que pode. A conferência é da ONU, mas o país que hospeda o evento tem papel-chave na mediação de interesses para que se consiga um bom resultado. Alguns analistas avaliam que, se um acordo climático internacional for assinado em Paris, a imagem do socialista se beneficiará da conquista. Se não for assim, conter expectativas ajuda a colocar eventual fracasso na conta do processo da ONU.

A popularidade do presidente estava em seu pior momento antes dos ataques terroristas a Paris em janeiro (76% achavam seu governo ruim ou muito ruim). Depois dos atentados, a rejeição passou a 65%.

"Nosso objetivo é chegar a um acordo em dezembro, no âmbito deste processo de negociação que começou no Rio e dura 21 anos", diz Guignard. "A conferência de Copenhague deveria ter sido o fim do processo e não o foi por muitas razões. Talvez o mundo não estivesse pronto, foram cometidos erros, certamente. Ter se pensado em forçar um acordo com a presença dos chefes de Estado não foi uma boa ideia", diz o diplomata.

O governo francês montou uma comissão de coordenação da COP-21 onde estão os ministros do Meio Ambiente, Agricultura, Finanças, Relações Exteriores. A presidência da conferência é do ministro das Relações Exteriores, Laurent Fabius, de 68 anos, primeiro-ministro da França no governo Mitterrand. Ao seu lado ele terá Marie Ségolène Royal, ministra da Ecologia, do Desenvolvimento Sustentável e da Energia.

"Estamos trabalhando no Protocolo de Paris, na Aliança de Paris ou no formato que este acordo tiver e que só saberemos no último momento", diz Guignard, encarregado da logística. "São quatro pilares principais. Mas, da mesma forma que os Três Mosqueteiros eram quatro, os quatro pilares da COP-21 são cinco", brinca.

O primeiro pilar, diz, é conseguir um acordo legalmente vinculante e universal. O segundo é encontrar modos de como financiar os esforços para enfrentar a mudança do clima. O terceiro ponto, montar uma agenda de soluções que leve em conta propostas de empresas, ONGs, governos locais, jovens e outros segmentos da sociedade. O quarto pilar são as contribuições que os países estão colocando sobre a mesa, as INDC.

O quinto pilar é enigmático: construir uma espécie de "road map" para que o que não estiver pronto em Paris possa estar até 2020 ou 2030. Não se trata de adiar decisões, mas de ter um cronograma para que o que for acertado na COP-21 possa ser implementado. Na conferência do clima de Cancún, em 2010, por exemplo, os países concordaram em criar um Fundo Verde, mas sua implementação só ocorreu nos anos seguintes.

"Há muitas diferenças entre Copenhague e Paris", compara Pascal Canfin, especialista em finanças do clima e que foi ministro especial para o desenvolvimento, referindo-se à fracassada conferência de 2009. "A primeira é que já há um acordo entre EUA e China e, antes de Copenhague, só havia embate entre eles", continua Canfin, atual conselheiro-sênior para o clima do think tank World Resources Institute.

A segunda diferença, segue, é que o preço das alternativas limpas (as energias renováveis) diminuiu drasticamente. "A terceira é que a França está no Conselho de Segurança da ONU, no Banco Mundial, no Fundo Monetário Internacional, no G-7. Este tema é prioridade para o país, e a França pode empurrá-lo para a frente", acredita. "Isso me deixa positivo sobre as esperanças de acordo."

Nas obras feitas em Le Bourget, o eixo central foi batizado de Champs-Elysées. A construção da plenária principal está sendo feita cuidadosamente. "Queremos que reflita a importância do acordo, que os delegados sintam a responsabilidade do que estão fazendo", diz Guignard. Durante a conferência, lembra, Paris estará no alerta máximo de segurança.
A repórter viajou a convite do Ministério das Relações Exteriores da França

Atitude do Brasil nas negociações é alvo de crítica

Daniela Chiaretti | De Paris

"O Brasil é um parceiro difícil, como a Índia. É duro nas negociações. Na gestão atual, não está claro o que vai fazer, mas não desempenha papel negociador. O Brasil é aquele país que reclama o tempo todo", diz um assessor próximo a François Hollande.
Ele lembra que o Brasil é importante nas negociações climáticas e que se espera que apresente logo sua contribuição nacional voluntária, ou seja, a proposta de redução de emissões para depois de 2020. O prazo vai até outubro, mas a expectativa mundial é que as grandes economias apresentem rápido seus planos. Mais de 30 países já o fizeram - EUA, bloco europeu, Rússia e México entre eles.
"Todos têm vontade de avançar rumo ao acordo", continua. "Se EUA e China estão se acertando não é por amor ao planeta, mas porque já há uma competição tecnológica e econômica em curso", segue. "Enquanto se entender que o aquecimento global é um freio para o desenvolvimento não chegaremos a um acordo ambicioso."
Ele admite que a diferenciação entre os compromissos dos países de reduzirem emissão é "a questão de maior conflito", nos debates do acordo.
Diz que o mundo mudou desde 1992, quando se fez a Convenção do Clima e o processo de se chegar a um acordo climático global foi iniciado.
Estabeleceu-se, à época, que só os países ricos teriam que cortar emissões e financiar as mudanças nos demais. "Os EUA não aceitam mais esta classificação", continua. "Por seu turno, os países emergentes estão muito resistentes à ideia de mudar esta classificação, mas é preciso ter certo realismo." Uma reunião informal, em Paris, em maio, tentará aparar arestas sobre este ponto.
Outro grande nó do acordo é financeiro: como se paga a conta da mudança para uma economia de baixa emissão. Em 2009, em Copenhague, os países desenvolvidos prometeram US$ 100 bilhões ao ano, até 2020, para adaptação aos impactos da mudança do clima nas nações mais vulneráveis.
Embora algum dinheiro esteja indo para esta conta, está longe da soma acertada. Os países em desenvolvimento se queixam que esta promessa nunca foi cumprida.
Na COP-21 será preciso também acertar as finanças para o pós-2020. O acertado é que todos os países contribuam para o esforço. "A primeira dimensão do pacote de Paris é produzir um road-map para as finanças", diz Pascal Canfin, do World Resources Institute.
O acordo de Paris tem que traçar o rumo para o que acontecerá depois de 2020. Mas sem destravar a promessa dos US$ 100 bilhões, ao ano, até 2020, nada irá andar neste campo e os franceses sabem disso. NO G-7, em junho, na Alemanha, tentarão convencer seus pares a emitir uma mensagem forte sobre dinheiro para a mudança do clima, dobrando resistências como a canadense, por exemplo.
"Se realmente quisermos enfrentar a mudança do clima, trata-se de uma questão de trilhões de investimento. Temos que se sair de economias que emitem muito carbono para economias de baixo carbono, principalmente nos países emergentes", continua Canfin. "Não há outra maneira de se promover esta mudança. Isso quer dizer mudar transportes, energia, cidades, agricultura." Não há dinheiro público para tanto, boa parte dos fundos terão que ser privados. Espera-se, também, fluxos de capital da cooperação Sul-Sul.
Há outros momentos, antes da COP-21, para que as finanças do clima ganhem força, além da reunião do G-7. Em julho acontece a conferência da ONU sobre finanças para o desenvolvimento, em Adis Abeba, na Etiópia.
"Estamos construindo o século 21 e é preciso lembrar que não há outro planeta habitável", diz o especialista em política energética Pierre Radanne, que já esteve em 17 COPs.

20 mil municípios franceses procuram serviço para prevenir desastres naturais
Em junho de 2013, chuvas torrenciais associadas ao degelo dos Pirineus inundaram o sudoeste da França.

Daniela Chiaretti | De Montepellier, França

Atingiram em cheio a cidade de Lourdes, famosa por abrigar um dos mais famosos santuários católicos do mundo. Na gruta, lugar sagrado para milhares de peregrinos, a água atingiu quase 1,5 metro de altura. Mais de duas mil pessoas tiveram que deixar suas casas sob risco de inundação, mil hóspedes foram retirados dos hotéis. Ninguém morreu. A Prefeitura havia sido avisada por um serviço de gerenciamento de riscos de catástrofes naturais e emitira um alerta geral.
Dos 36 mil municípios franceses, 20 mil assinam os serviços de previsão de acidentes naturais da Predict, empresa sediada em Montpellier e que tem por sócios a Météo France (serviço nacional de meteorologia), a Airbus e a empresa de gestão de água BRL. As prefeituras pagam, em média, 4 mil de euros ao ano para saber se correm o risco de inundações ou nevascas, quando e com qual intensidade. Alix Roumagnac, presidente da Predict, diz que a empresa consegue prever "de inundações a tsunamis" e que analisando mais de 700 eventos nos últimos 3 anos, nunca tiveram um falso alerta. O mais complicado, diz ele, é fazer prognósticos para a agricultura.

A Predict começou como uma start-up há 8 anos. Hoje tem 25 funcionários e faturamento anual de 3 milhões de euros. Realizou mais de 19 mil análises de vulnerabilidade. Um de seus diferenciais em relação a outros institutos ou empresas do gênero é conseguir fazer previsões com 4 a 5 dias de antecedência.

A empresa francesa trabalha no segmento de gestão de risco a desastres naturais, setor que cresce em função dos impactos da mudança climática e da busca por adaptação. "Em 2050, inundações em grandes cidades costeiras custarão mais de US$ 750 bilhões ao ano se nenhuma ação for feita", lembra Roumagnac, referindo-se às previsões de relatórios do IPCC, o Painel Intergovernamental sobre Mudança do clima, braço científico das Nações Unidas.

"Inundações são o maior problema climático da França", diz o engenheiro hidráulico que agora prepara dispositivos para alertar a população nos celulares.

Em Montepellier, capital da região de Languedoc-Roussilion, formou-se há alguns anos um pólo de estudos sobre água, reunindo empresas e institutos de pesquisa. Na região, a de maior estresse hídrico do país, há mais de 550 pesquisadores trabalhando com temas relacionados à água e mudança do clima.

Valor Econômico, 24/04/2015, Especial, p. A13

http://www.valor.com.br/internacional/4019618/franca-segura-expectativa…

http://www.valor.com.br/internacional/4019620/atitude-do-brasil-nas-neg…

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