OESP, Economia, p. B3
25 de Fev de 2013
Foz do Amazonas desperta interesse de petroleiras
Disputa se acirra após descoberta de reservatórios na vizinha Guiana Francesa; área estaria entre as mais cobiçadas do mundo
SERGIO TORRES / RIO
A disputa pelos blocos da Bacia da Foz do Amazonas, no extremo norte do País, promete ser a mais acirrada da 11.ª rodada de licitação de blocos exploratórios de óleo e gás, que será promovida pelo governo federal em maio. O motivo é a descoberta, no litoral da vizinha Guiana Francesa, praticamente ao lado da bacia brasileira, de grandes reservatórios exploráveis de petróleo.
Em sigilo, as grandes petroleiras articulam sociedades para concorrer às áreas ofertadas pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). De olho no súbito interesse despertado nas companhias pelas jazidas de óleo e gás presumivelmente escondidas no subsolo marinho do litoral do Amapá, o governo aumentou de 172 para 289 os blocos a serem leiloados. Das 117 novas áreas, 65 estão na Bacia do Foz do Amazonas, o início da chamada margem equatorial brasileira.
A formação de consórcios para explorar a bacia tem mobilizado os executivos das petroleiras desde o ano passado. Esse processo foi acelerado pela descoberta na Guiana. A Petrobrás, com a experiência de 43 anos de fracassos na bacia, tem interesse nos blocos e finaliza parcerias com companhias internacionais empenhadas em renovar seus portfólios brasileiros.
O secretário de Petróleo, Gás Natural e Combustíveis Renováveis do Ministério de Minas e Energia, Marco Antônio Martins Almeida, creditou explicitamente o aumento da oferta de blocos na bacia à proximidade dos campos guianenses. "Houve indicações de possíveis descobertas importantes na Guiana, a 50 quilômetros da fronteira com o Brasil. Então, a área brasileira também tem potencial para descobertas", afirmou o secretário.
Descoberta. O petróleo apareceu pela primeira vez na Guiana Francesa em 2011. O consórcio formada pelas companhias Tullow Oil, Total e Shell anunciou a presença, em águas profundas, no campo de Zaedyus, de um reservatório importante de óleo de boa qualidade.
Nem mesmo o fracasso da prospecção de um segundo poço no campo, no ano passado, arrefece o entusiasmo das empresas interessadas em disputar área da Foz do Amazonas no leilão da ANP. "O bloco da Guiana Francesa permanece altamente prospectivo e ainda oferece um excelente potencial para exploração com sucessos múltiplos", diz o comunicado divulgado pela britânica Tullow Oil.
A descoberta na Guiana Francesa foi saudada pelas instituições financeiras que analisam a indústria do petróleo. Para o Bank of America-Merrill Lynch, o achado "abre uma bacia totalmente nova" na América do Sul e Caribe. O Royal Bank of Scotland demonstrou otimismo com a descoberta ao comentar, em nota, que o conteúdo do reservatório de petróleo "provavelmente excede a maioria das expectativas".
O geólogo brasileiro Pedro Victor Zalán, consultor em exploração de petróleo, avalia que "a imensa faixa marítima de águas profundas (acima de 600 metros de lâmina d'água) em frente do Amapá, Pará, Maranhão e Piauí encontra-se hoje entre as áreas mais cobiçadas pela indústria petrolífera mundial".
No artigo "O potencial petrolífero das bacias sedimentares brasileiras além do pré-sal", publicado em 2012 no site www.geofisicabrasil.com, o especialista sustenta que também as Bacias do Pará/Maranhão e do Parnaíba (no Piauí), cujos blocos vão a leilão em maio, apresentam expressivo potencial petrolífero.
Zalán diz que o campo da Guiana Francesa tem reservatório, de acordo com as estimativas iniciais, de cerca de 800 milhões de barris de óleo recuperáveis. "A Bacia da Foz do Amazonas, sua vizinha muito maior, passou a ser considerada como potencialmente portadora da mesma riqueza. A geologia do litoral da Guiana se estende para a costa do Amapá. Isso está comprovado pelas linhas sísmicas e estudos feitos. Há grande possibilidade de depósitos de petróleo serem encontrados no Amapá. As petroleiras sabem disso."
Em janeiro, a 11.ª rodada, aguardada desde 2008, foi marcada para os dias 14 e 15 de maio. A Bacia da Foz do Rio Amazonas foi contemplada com 96 blocos, indicativo da importância que o governo vem dando à suspeita de que há óleo e gás abundantes nos campos da costa do Amapá.
Os limites da bacia são a fronteira do Amapá com a Guiana Francesa e a Ilha de Marajó, no vizinho Estado do Pará.
Prospecções feitas nas últimas quatro décadas fracassaram
Dos 93 poços perfurados na região, em apenas dois foram encontrados vestígios da presença de óleo e gás
RIO
A constatação de que existem reservatórios submarinos de petróleo com viabilidade comercial na Guiana Francesa, a 50 km da fronteira marítima com o Estado do Amapá, representa uma espécie de alento para a Petrobrás e as demais empresas petrolíferas interessadas em atuar na região.
Isso porque fracassaram todas as prospecções realizadas nas últimas quatro décadas no litoral do Amapá, em área da Bacia da Foz do Amazonas. Na visão de analistas e das próprias empresas, a descoberta do petróleo no departamento ultramarino da França dará novo impulso à atividade no local, desta vez, com perspectivas favoráveis de êxito.
Em 2001, após anos de frustrações nos processos exploratórios na bacia, a inglesa British Petroleum (BP), então chamada de BP Amoco, por causa da incorporação da American Oil Company (Amoco) três anos antes, desativou sua base de prospecção na foz do Amazonas, localizada a cerca de 550 km de Belém.
O motivo da desistência da petroleira foi bem simples: não encontrou petróleo na região, apesar dos estudos, pesquisas e sondagens exploratórias. À época, o mercado petroleiro avaliou que o prejuízo mínimo da BP Amoco não foi menor do que US$ 36 milhões.
Abandono. Antes de desistir da bacia, a British Petroleum operava em dois blocos. Em um deles (BFZ-2), a Petrobrás assumiu o projeto depois que a sócia decidiu deixar a exploração. Mais tarde, a estatal brasileira também optou por abandonar o bloco.
O outro bloco (BM-FZA-1) foi devolvido à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) em 1999 pela BP. No ano anterior, o bloco BFZ-1 já havia sido recuperado pela ANP, após a desistência da operadora Esso.
A Petrobrás também já enfrentou contratempos ao atuar no litoral do Amapá e nas imediações da Ilha de Marajó. Em 1998, 2003 e 2004 a principal petroleira nacional devolveu três blocos na Bacia da Foz do Amazonas à ANP, por não ter localizado jazidas relevantes de óleo e gás.
Desde o início da presença de petroleiras na região da bacia, já foram perfurados 93 poços, dos quais 60 pela Petrobrás e os demais por companhias internacionais.
Até agora, apenas em dois dos poços perfurados foram encontrados vestígios da presença de óleo e gás, no Campo de Pirapema (o primeiro da Bacia da Foz do Amazonas, descoberto em 1976), mas em quantidades consideradas insuficientes para comercialização.
Contratos de risco. A bacia foi também contemplada pelos contratos de risco assinados entre o governo militar e as petroleiras na segunda metade da década de 70. Em dezembro de 1976, a Petrobrás assinou com o consórcio Shell/Pecten/Enserch contrato para explorar uma área de 6.500 km².
Um mês depois, a estatal firmou com a Elf Aquitane/AGIP contrato de exploração de 3.050 km². Em fevereiro de 1979, o contrato foi a Hispanoil. Nenhuma das explorações resultou em produção de óleo e gás. / S.T.
Poço é abandonado após acidente com sonda no Amazonas
O principal alerta da natureza sobre os perigos da exploração de petróleo nas áreas de mar revolto no entorno da foz do Rio Amazonas ocorreu no fim de 2011, quando uma sonda de perfuração a serviço da Petrobrás foi arrastada pela correnteza.
Não houve vítimas, mas os riscos à integridade física da tripulação, do equipamento e à segurança ambiental de uma região de ecossistema tão importante e particular, levaram a companhia a abandonar o poço em 2012.
O acidente ocorreu durante o processo de perfuração de poço exploratório no bloco BM-FZA-4, em acumulação batizada de Oiapoque, referência à última cidade do território brasileiro antes da Guiana Francesa.
Com o abandono do poço e as dificuldades para cumprir prazos contratuais de atuação no bloco, a Petrobrás solicitou à Agência Nacional do Petróleo (ANP) prorrogação do período previsto para o plano exploratório.
O desastre só foi revelado pela Petrobrás em setembro de 2012, na conferência Rio Oil & Gás, no Rio. Na época, o diretor de Exploração e Produção, José Formigli Filho, procurou minimizar o episódio e limitou-se a dizer que a sonda tinha sofrido forte pressão da correnteza e inclinado, sem ter se soltado da ancoragem./ S.T.
OESP, 25/02/2013, Economia, p. B3
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