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Fórum Social Mundial

JB, Outras Opiniões, p. A9
Autor: ANTUNES, Ricardo
20 de Jan de 2005

Fórum Social Mundial
Em Porto Alegre, encontramos a solidariedade, a esperança, a vitalidade dos que sabem se rebelar, dos que querem a felicidade social para a humanidade

Ricardo Antunes
Sociólogo

Estamos às vésperas da realização do novo Fórum Social Mundial? Qual a sua importância para as lutas sociais globais hoje?
Desde que o capitalismo acentuou sua tendência à transnacionalização e mundialização, a partir dos anos 1970, ampliou-se não só o processo de financeirização da economia, mas se generalizou também a internacionalização das cadeias produtivas, cada vez mais globalizadas. Para que se tenha uma idéia, segundo o sociólogo argentino Atilo Boron, a estrutura de poder internacional apresenta, em seu topo, cerca de 200 megacorporações, verdadeiros leviatãs modernos do mercado destrutivo, cujo poder econômico é equivalente ao de 182 países. Se somarmos as grandes corporações, a coisa se amplia muito.
A elas se acrescentam os organismos do sistema global do capital, como FMI, Banco Mundial, OMC e assemelhados que, sob a batuta do Império de Washington, ditam receituários que são verdadeiros mortuários para os países que vivenciam a integração subordinada, desigual e dependente.
Combinando empresas, organismos e estados, numa rede poderosa, o sistema de poder dominante procura, de todos os modos, sustentar-se, apesar da destrutividade global que é diretamente responsável e que se estampa na enorme destruição ambiental, na precarização ilimitada do trabalho - de que o desemprego estrutural é o maior flagelo - na superfluidade crescente das mercadorias, materiais e simbólicas, no culto dos irracionalismos dominantes e dos individualismos exacerbados, para não falar da forma mais abjeta, a política de guerra, modus vivendi do governo bushiano e sua política de terror.
Desse modo o capital global se estrutura e reproduz, que o leva a realizar, uma vez mais, o (des)encontro de Davos, mescla de megaempresários e de governos, dos que mandam àqueles que competem para aumentar seu servilismo, falando uma linguagem que nem precisa de tradução simultânea.
Do outro lado do mundo temos o Fórum Social Mundial de Porto Alegre, o encontro que não aceita a barbárie e a destrutividade como a única alternativa. É o encontro polissêmico dos homens e mulheres que-vivem-de-seu-trabalho, que buscam um mundo ''desmercadorizado'', onde o sentido humano e societal prevaleça contra o império da mercadoria-dinheiro. Onde a produção de bens socialmente úteis se sobreponha à produção para a acumulação.
São encontros inconciliáveis e chega a ser grotesco, como faz o governo Lula, querer ter um pé aqui e outro lá. Governo que já se encontra, vale dizer, completamente desequilibrado e sem possibilidade de volta.
Em Porto Alegre, então, encontramos a solidariedade, a esperança, a vitalidade dos que sabem se rebelar, dos que querem a felicidade social para a humanidade. Em Davos, encontram-se aqueles que se entopem de tanto acumular, decidem ou são coniventes com as guerras, e que são responsáveis por um mundo onde bilhões vivem em condições as mais degradadas, não só nos países do chamado ''Terceiro Mundo'', mas também no coração do sistema, o que levou a alguns sociólogos do centro a falar em brasilianização do Primeiro Mundo. Contra a irrazão instrumental desmesurada e descontrolada, um outro mundo está sendo desenhado, nas lutas e ações cotidianas, fora das transnacionais, dos organismos financeiros internacionais, como FMI, Banco Mundial, OMC etc., longe dos estados imperiais e contra o capitalismo cuja lógica dita neoliberal é cada vez mais destrutiva.
Se o Fórum Social Mundial é o espaço de encontro dos movimentos de oposição social à desordem mundial, sob a impulsão das lutas sociais onde ele encontra sua força e propulsão, é preciso, no encontro de 2005, que ele encontre os caminhos que lhe permitam converter essa enorme pujança social também em força política coletiva, global, imprescindível para enfrentar as tantas batalhas em curso do mundo contemporâneo.

Ricardo Antunes, professor da Unicamp, escreve nesta página às quintas-feiras, a cada 15 dias

JB, 20/01/2005, Outras Opiniões, p. A9

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