CB, Mundo, p. 26
16 de Set de 2004
Fora, brasiguaios
Pressionado por ruralistas, governo de Nicanor Duarte impulsiona reforma agrária que terá como maiores prejudicados os colonos brasileiros. Líderes sem terra exigem desapropriação de fazendas
Claudio Dantas
Da equipe do Correio
O governo do Paraguai prepara uma polêmica reforma agrária que ameaça tornar mais difícil a permanência de agricultores estrangeiros no país. Os imigrantes brasileiros, que detêm 1,3 milhão de hectares produtivos em território paraguaio, estão no alvo da proposta, negociada sob pressão cada vez maior da bancada ruralista e de movimentos camponeses. Fontes diplomáticas alertam para o tom discriminatório adotado por Assunção e temem uma onda xenofóbica entre a população.
Depois de um ano de mandato, o presidente Nicanor Duarte Frutos precisa deter a crise que avança em terreno diplomático, mas que começou no campo há quase cinco anos, deixando um rastro de 15 mortes. Um alto diplomata da embaixada brasileira no Paraguai diz que Duarte optou por atacar o lado mais fraco.
''Ninguém admite oficialmente, mas os estrangeiros são acusados do empobrecimento do campesinato, ao impor um sistema de produção mecanizada de perfil exportador e se beneficiar com a venda indiscriminada de terras do Estado'', analisa o diplomata.
De um lado estão cerca de 400 mil brasiguaios, como são chamados esses imigrantes, e seus descendentes, cerca de 8% dos 5,5 milhões de habitantes do país - uma força de trabalho que colocou o Paraguai no quinto lugar da produção mundial de soja e terceiro na de carne. Do outro, pouco mais de cem mil paraguaios sem terra, oriundos de 30 diferentes movimentos, que se agruparam na Mesa Coordenadora Nacional de Organizações Campesinas (MCNOC).
Os camponeses acusam os brasileiros de ''colonizar'' o Paraguai aos poucos e temem perder a soberania. ''Daqui a dez anos, desde Coronel Oviedo, tudo será parte do Brasil'', afirma o vice-presidente da MCNOC, Antonio Gayoso. Ele lembra que ontem venceu o prazo dado ao governo para responder ao pedido de 500 mil hectares para assentar os sem-terra. Duarte prometeu 15 mil hectares, nos departamentos de San Pedro, Misiones, Alto Paraná, Caaguazú, Amambay e Canindeyú - onde vive a maior parte dos colonos brasileiros.
''Queremos uma lei que impeça a venda de terras aos grandes exportadores argentinos e brasileiros. Há muitas terras improdutivas nas mãos de grandes latifundiários. A oferta do governo é ridícula'', dispara Gayoso.
Fuga
Segundo a Associação dos Produtores de Soja (APS), cerca de 200 mil brasileiros deixaram o Paraguai nos últimos dois anos por causa de pressões externas e do clima de instabilidade. ''O país está sem rumo, e o atual governo está gerando uma luta de classes, uma luta entre nacionalidades'', acusa Claudia Russer, presidente da APS.
O sinal mais claro foi dado há uma semana. Em visita surpresa aos brasiguaios do município de Naranjal, em Alto Paraná, o procurador-geral, Nelson Mora - homem de confiança de Duarte -, pressionou os colonos a entregar parte de suas terras.
Clemente Busanello, porta-voz dos brasiguaios no local, afirma que Mora disse agir em nome do presidente paraguaio. ''Ele pediu para falar em particular comigo e um líder camponês. Depois, disse que nós, colonos, estamos há muito tempo no país e já ganhamos muito dinheiro. E que agora é a hora de entregarmos parte de nossas terras aos paraguaios. Nos deu um prazo de oito dias'' - que termina hoje.
O colono chegou ao Paraguai em 1984 com três filhos e a mulher e vive em cooperativa com outras 12 famílias, que lutaram na Justiça para conseguir a posse da terra. Em maio, supostos camponeses sem terra invadiram a área de cerca de 1,2 mil hectares.
O embaixador paraguaio no Brasil, Luiz Gonzales Árias, nega que exista algum tipo de movimento contra brasileiros no país. ''O governo é contra a invasão ilegal e o latifúndio improdutivo'', afirma. Árias admite que o governo pretende equilibrar esse panorama. ''Queremos que os paraguaios também produzam, mas vamos usar outras terras. O país tem muitas terras produtivas mal utilizadas'', diz. A soja brasiguaia representa 80% da produção do país.
''Acho que o governo do Brasil e seus parceiros do Mercosul deviam se preocupar, pois a crise social aqui é iminente. E vai repercutir em todos os vizinhos. Se o presidente quer doar terras, que dê o exemplo e ceda a sua fazenda de 15 mil hectares'', ironiza Russer.
O líder dos sem-terra, no entanto, aposta na ''tomada'' das terras nas mãos de brasileiros. ''A embaixada brasileira tem um grande lobby, o que torna a luta desigual. Mas se o governo não adotar políticas que protejam a soberania nacional, vamos fazer do nosso jeito'', ameaça.
Missão: Estabilidesa
O presidente Nicanor Duarte Frutos chegou ao poder há um ano como esperança de estabilidade depois do conturbado período iniciado com a eleição de Raúl Cubas, em 1998. Apontado como mandante do assassinado do vice, Luis María Argaña, seu adversário, Cubas renunciou, em março de 1999, e foi substituído pelo então presidente do Congresso, Luis Gonzalez Macchi
Análise da notícia
Temor do imperialismo brasileiro
O desafio de escolher entre a agricultura familiar e a agroindústria mecanizada - introduzida pelos brasiguaios - seria simples como optar entre um passado antiquado e um presente moderno, inevitável. O avanço econômico obtido pelo Paraguai nos últimos anos se deve praticamente a esse modelo exportador.
No país vizinho, entretanto, o modelo anterior está personificado em sua população rural. Esquecidos pelos governos dos últimos 30 anos, os camponeses estão empobrecidos, desqualificados tecnicamente e sem crédito na praça - literalmente. A ''invasão'' brasileira mexe com o sentimento nacionalista dos anfitriões, mas também com seu orgulho como cidadãos.
Uma guerra há 130 anos colocou de lados opostos paraguaios e brasileiros, aliados a argentinos e uruguaios. O conflito - iniciado pela sanha expansionista de um ditador - dizimou a população masculina do país, atingiu a honra de pessoas simples e deixou muitas seqüelas ainda presentes no dia-a-dia dos paraguaios.
Do lado de cá, nossos olhos enxergam os vizinhos com um desprezo velado. Do lado de lá, a animosidade ganha tons de discurso antiimperalista em um bate-papo em mesa de bar. A mesma verve de muitos brasileiros contra norte-americanos, ainda que sonhem viver na terra do Tio Sam.
O fato é que a crise provocada pela grande concentração de terras produtivas nas mãos de brasileiros, atraídos nas décadas de 70 e 80 pela promessa de uma vida melhor, passa a ter prioridade no governo do presidente Nicanor Duarte.
Os conflitos entre os brasiguaios e a população local fazem periodicamente suas vítimas. A identidade paraguaia se dilui com a predominância de estrangeiros que impõem sua própria língua, moeda e bandeira, mas expulsar o brasileiro é ruir deliberadamente as bases que sustentam sua economia.
É bom lembrar que Paraguai e Brasil dividem as primeiras posições no mundo em concentração de terras: 72% do solo guarani está nas mãos de apenas 2% da população. São como irmãos. (CD)
CB, 16/09/2004, Mundo, p. 26
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