GM, Relátorio da Gazeta Mercantil, p. 7
31 de Ago de 2004
Fontes alternativas podem suprir a geração de energia
Há projetos direcionados à biomassa e eólica, mas ainda sob debate. N ão se pode deixar de considerar a importância vital da energia em qualquer que seja o modelo de desenvolvimento. "A questão da energia é fundamental, tanto no modelo do tipo chaminé de fábrica como no que tem como foco maior o serviço e a estrutura", afirma o engenheiro alagoano Geoberto Espírito Santo, especialista no tema. Obviamente que, dependendo do modelo econômico, as formas de energia são diferentes.
O professor Geoberto Espírito Santo considera que o plano energético de Alagoas já está esgotado. Na sua avaliação, o estado passou muito tempo sem uma visão de excelência; sem planejar aonde quer chegar e perdeu muito tempo com brigas entre industrialização e meio ambiente, sem chegar a conclusão nenhuma. Resultado, em sua opinião: não existe coordenação das ações energéticas em Alagoas.
Embora se anime com a percepção de que o planejamento para o desenvolvimento está sendo retomado, ele alerta que esse processo não pode ser apenas uma atribuição do governo, mas deve envolver a comunidade, por meio da sociedade organizada, instituições de ensino, sindicatos, organizações não governamentais, imprensa, poder legislativo e outros setores.
Um outro aspecto destacado por ele é a necessidade de seqüenciamento das ações, independente de governo. Na sua opinião, a falta de continuidade administrativa é um dos principais fatores que emperram o desenvolvimento. "As ações que ficam pela metade são perdidas e os recursos praticamente jogados fora".
A política energética tem que estar relacionada com uma matriz energética. A última referência em Alagoas, segundo ele, é de 1982. De lá para cá não se fez muito mais do que experiências individualizadas cuja aplicação não teve seqüência.
Energias renováveisComo fazer para chegar a essa matriz, com significativa participação das energias renováveis? Pelos ensinamentos de Geoberto, é necessário, primeiro, o levantamento das potencialidades estaduais, regionais e nacionais. E quando for definir a forma para alcançar o modelo de desenvolvimento desejável, tem que seguir uma ordem seqüencial, pelo custo: a renovável local, depois as não renováveis. Se localmente não há condições de atender, passa-se adiante para um processo regional e depois para o nacional. Se não tem condições, busca-se a importação, obedecendo a uma seqüência lógica.
Definida essa potencialidade, é a vez de avaliar o estabelecimento das relações sócio-econômicas-político-culturais da energia com o meio em que vai utilizar, qual o retorno do investimento, o que isso vai gerar de receita, de impostos, de evolução tecnológica, de emprego e de concentração de poder.
Mas será que as circunstâncias não são capazes de tornar mais interessante um modelo energético descentralizado, que utilize menores potências? Em tese, a energia solar pode ser um modelo mais adequado para o interior do estado, em locais mais distantes dos centros urbanos. Mas, para Geoberto Espírito Santo, isso tem um pouco de poesia, "porque não dá para ignorar o forte sistema de poder que existe no Brasil em torno da Petrobras, na questão do petróleo/gás, e que se está tentando organizar em torno da Eletrobrás". Essas duas grandes empresas, diz o especialista, são detentoras de recursos e poder político e investem nas fontes de seus objetivos principais: o petróleo e o gás natural para uma e as grandes hidrelétricas para a outra.
Em países desenvolvidos, onde a sociedade tem um peso político maior que o governo, o uso de energia alternativa e complementar acontece graças a um alto grau de conscientização popular, que considera válido pagar um custo mais caro hoje, em troca de melhor qualidade de vida no futuro, e banca isso, diz o especialista.
Um exemplo é a possibilidade de geração da energia a partir do lixo. Tecnicamente não há problema nenhum, mas os custos tornam um projeto desse praticamente inviável numa sociedade como a nossa, onde não há um nível elevado de consciência. "Aqui, se pegar a conta da Ceal, os consumidores pagam diretamente 36% de impostos. Da receita da Ceal, o governo leva 47% de impostos. Esses recursos, que poderiam estar sendo endereçados para bancar a energia renovável, mais cara, quase sempre são utilizados para tapar buracos financeiros. Existe ainda um monte de penduricalhos que deixam as empresas em difícil situação de sobrevivência. Não dá nem para pensar em investimento de porte em energia renovável, para o objetivo específico de melhoria de qualidade de vida. Todos os recursos são aplicados para o atendimento da demanda do crescimento".
Além disso, segundo Geoberto, não existem parâmetros no sistema elétrico que possibilitem a comparação do custo social. É óbvio que a geração de energia do lixo eliminaria um problema ambiental que afeta a maioria das cidades, inclusive Maceió. Mas o custo dessa produção é calculado em torno de R$ 400/MWh, contra R$ 75/MWh do sistema tradicional. Entretanto, se contabilizar os problemas de saúde gerados pelo lixo, o quanto se gasta com tratamento de doenças e fizer o encontro de contas entre o custo de produção e o custo social, é outra situação.
Bagaço da canaO grande potencial do Nordeste está na energia, mas diz-se que Xingó foi a última grande hidrelétrica da região e o potencial para este tipo de geração de energia está esgotado. Há possibilidades de aumentar a produção, sobretudo na Amazônia. Mas o grande problema da energia hidráulica é a sua dependência das variações climáticas. Por questões de estratégia e de segurança, na opinião de outro especialista no assunto, Beroaldo Maia, pelo menos 20% do perfil da energia produzida no Brasil deveria ser de outra fonte. Atualmente, esse perfil está entre 5 e 8%. E aí desponta a energia do bagaço da cana como uma linha mais interessante para Alagoas.
Maia destaca a vocação do estado para a produção energética. "Produzimos insumos como a soda cáustica, o cloro, o PVC, o dicloretano, que são intensivos no uso de energia. Ainda tem energia concentrada nas usinas. O consumo de eletricidade industrial percapita em Alagoas é igual ao de São Paulo. Somos um estado energético e nossa força está nisso", afirma o especialista.
Numa escala de viabilidade de energias alternativas para Alagoas, Maia coloca a biomassa em primeiro lugar, seguida da energia solar e de todas as outras, deixando em última colocação a eólica, por causa das condições de vento necessárias ao seu funcionamento. O mercado parece seguir essa lógica. O bagaço da cana, de alto potencial energético, vem sendo utilizado em muitas unidades do setor sucroalcooleiro, tornando-as auto-suficientes em energia.
Mas há o problema do preço que - segundo Geoberto Espírito Santo - não permite avançar além disso. Ele reconhece que o bagaço da cana é a principal fonte de energia do estado, mas destaca que a biomassa só seria viável para a geração de um volume considerável de energia, transformando usina de açúcar em centrais energéticas com equipamentos de alto rendimento. E isso custa caro. A maioria das usinas produz com caldeira de 20 kg/cm² de pressão do vapor superaquecido, muito embora a Usina Caetés, do grupo Carlos Lyra, tenha inaugurado recentemente uma de 40 kg/cm² de pressão. Para que as usinas se transformem em centrais energéticas de alto rendimento, as caldeiras teriam que ser de 120 kg/cm² de pressão. "Sem perspectiva de venda da energia excedente, o empresário não vai fazer investimento", avalia Espírito Santo.
Consolidação do gás
O Brasil tem uma situação confortável em reserva de gás natural. Embora seja um combustível fóssil não renovável, as reservas até hoje descobertas são suficientes para pelo menos 20 anos mais. São 750 bilhões de m³, dos quais 13 bilhões estão em Alagoas.
Há pelo menos 15 anos esse gás vem sendo extraído e distribuído no mercado interno e em outros estados, como Sergipe e Bahia. A distribuição pela empresa alagoana Algás começou há 10 anos. Hoje já se utiliza o gás natural como combustível veicular, nos condomínios residenciais e em estabelecimentos comerciais, como hotéis e restaurantes. Segundo o presidente da Algás, Gerson Fonseca, o consumo em Alagoas já representa 10% do nacional, e vai ampliar mais ainda.
A Algás já contabiliza 11 postos de gás natural veicular (GNV) em Maceió e iniciou a interiorização do uso com o posto de Pilar. Outros estão em fase de implantação. Já são mais de cinco mil veículos movidos a gás do estado. Mais de 40 estabelecimentos comerciais já são abastecidos com gás natural e quase uma centena de condomínios residenciais. O estado conta com mais de 100 quilômetros de gasoduto.
Segundo Gerson Fonseca, a Algás ainda não vende gás natural para gerar energia, mas não tem como dispensar a sua presença em discussões sobre desenvolvimento com adensamento de cadeias produtivas, porque, como provedor de integração energética, tem procurado atuar como fortalecedor dessas cadeias.
kicker: "A biomassa só é viável com o investimento em equipamentos de alto rendimento"
GM, 31/08/2004, Relátorio da Gazeta Mercantil, p. 7
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