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A floresta sufoca

O Globo, Ciência, p. 36
28 de Nov de 2007

A floresta sufoca
Aquecimento global ameaça matar plantas de calor e reduzir biodiversidade

Roberta Jansen

Se o aumento de dióxido de carbono na atmosfera em tese oferece alimento extra para as florestas, a elevação das temperaturas globais causada pelo acúmulo do CO2 pode simplesmente matar as plantas por inanição. Parece um paradoxo, mas não é. Pesquisando o equilíbrio delicado da manutenção das matas, a uma certeza os cientistas já chegaram: um mundo mais quente pode até ter abundância de vegetação, mas ele certamente será bem mais pobre em diversidade. E o processo de empobrecimento já foi deflagrado.

Um estudo internacional feito com plantas da Floresta Amazônica revelou que quando as folhas atingem uma temperatura superior a 33 graus Celsius, a capacidade da planta de realizar fotossíntese (ou seja, de se alimentar) é prejudicada. No mínimo, o processo impede o crescimento do vegetal. Na pior das hipóteses, o mata.

- A planta, para se alimentar, precisa de água, carbono e luz - explica Edgard Tribuzy, da Universidade Federal do Amazonas, que coordenou o estudo. - Luz é um recurso ilimitado. A água, pelo menos na Amazônia, em geral também é. Um fator limitante seria o CO2. Mas se as concentrações estão aumentando na atmosfera, a capacidade de absorção da planta também aumenta porque isso funciona por osmose.

Ou seja, em princípio, o aumento de CO2 na atmosfera poderia ser benéfico para as florestas, como já sustentaram alguns estudos.

Ocorre que, como já foi excessivamente demonstrado, o acúmulo de CO2 está provocando uma elevação da temperatura global da Terra. E, de acordo com as projeções do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas, a tendência deve se manter por ainda muito tempo.

- Nosso grupo estudou o efeito da temperatura na fisiologia das plantas - contou Tribuzy, cujo estudo foi feito em conjunto com pesquisadores da Universidade da Califórnia, da Universidade de Tulane, da Universidade de São Paulo e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

Ao longo de um mês os cientistas mediram as temperaturas de cem plantas. As medições eram feitas em quatro pontos das folhas e em dois momentos do dia: quando a temperatura do ar é mais baixa, normalmente à noite, e no seu momento de pico, por volta do meio-dia.

- Encontramos coisas assustadoras, como folhas com temperaturas de 52 graus Celsius. E não apenas uma vez, mas diariamente disse o cientista. - Isso significa que já temos organismos vivendo em condições extremas.

Nesse horário de temperaturas mais elevadas, várias folhas registraram 40 graus Celsius. A mínima que os pesquisadores encontraram foi de 34 graus Celsius - o que já é considerado excessivo. Experiências em laboratório demonstraram que a partir dos 33 graus Celsius o mecanismo da fotossíntese começa a ser degradado.

- Quando a temperatura chega a esse ponto, os estômatos (os pequeninos orifícios das folhas que permitem a troca de gases, a fotossíntese) se fecham porque a planta entende que está sob estresse - explicou Tribuzy. - Outro problema é que a organela responsável pela fotossíntese passa a funcionar de forma irregular. Todos precisam se alimentar para ter energia. E a fotossíntese é a forma de alimentação das plantas. Quando a capacidade de fazer fotossíntese diminuiu, no mínimo a planta pára de crescer.
Algumas espécies podem se adaptar
Segundo o especialista brasileiro, fatores climáticos locais podem estar contribuindo para o registro de temperaturas tão altas nas folhas amazônicas. Mas ele acredita que parte do aumento poderia ser creditado já ao aquecimento do planeta.
Para Tribuzy, muitas espécies poderiam se adaptar às temperaturas mais altas, desenvolvendo novos mecanismos para lidar com elas, sobretudo se o aumento for gradual.

Mas muitas seriam prejudicadas.

- O aquecimento pode ser muito danoso para a floresta, principalmente no que se refere à diversidade - afirmou Tribuzy. - Só as plantas adaptáveis a altas temperaturas vão resistir. Então, com certeza, a diversidade será reduzida.

Esse seria também um limite para a capacidade das florestas como um todo de absorverem CO2 da atmosfera - o que poderia, em tese, equilibrar o excesso de dióxido de carbono lançado. As florestas seriam sorvedouros de CO2 até o ponto em que elas próprias começassem a morrer pelas altas temperaturas.

O Globo, 28/11/2007, Ciência, p. 36

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