GM, Industria e Serviços, p. A25
17 de Fev de 2004
A floresta quer conquistar os EUA
Criada no Brasil, empresa de produtos "ecologicamente corretos" visa mercado norte-americano. O crescimento cada vez mais acentuado do consumo de produtos "ecologicamente corretos" na Europa e, principalmente, nos Estados Unidos fez nascer no Brasil uma indústria de cosméticos e de produtos de higiene pessoal (xampus, condicionadores, sabonetes, óleos essenciais e cremes para o rosto, entre outros) voltada fundamentalmente para explorar esses mercados. Trata-se da Florestas, empresa sediada em Guarulhos, na Grande São Paulo, que recebeu investimentos de R$ 800 mil, aplicados na aquisição de equipamentos, desenvolvimento de cerca de 100 produtos, prospecção de mercado e pesquisa de fornecedores de insumos para entrar em funcionamento, disse Fernando Lima, sócio-fundador da companhia.
"O Brasil tem uma imagem forte no exterior vinculada à sua grande extensão de matas e florestas e a biodiversidade que elas contêm. Mas no setor de beleza e higiene não havia empresas locais para explorar esse mercado lá fora, com produtos completamente naturais", disse Lima. A Florestas irá concorrer no mercado internacional com gigantes, como a inglesa The Body Shop e com a norte-americana Aveda.
Do total de produtos formulados, 40 estão sendo vendidos no Brasil desde o final do ano passado e serão lançados no mercado norte-americano em março, durante a Ex-Tracts, feira do setor que acontece em Nova York. Nos Estados Unidos, a Florestas já tem sua filial, a importadora Florestas Organics Botanicals.
Somente no primeiro ano de atividade, Lima espera faturar US$ 700 mil no mercado norte-americano, para onde pretende exportar 70% da produção da Florestas. Para 2005, a previsão de receita é de US$ 3 milhões nos Estados Unidos. "Além do câmbio favorável, vamos trabalhar com preços bastante competitivos, entre US$ 9 e US$ 11 a unidade, em média." O foco maior nesse mercado deve-se ao seu potencial de crescimento, segundo Lima, que mora naquele país há três anos.
Economista, mas oriundo de família de farmacêuticos, o empresário disse que o faturamento do nicho de produtos para higiene pessoal fabricados com matérias-primas naturais e orgânicas aumenta entre 10% e 20% em média por ano nos Estados Unidos e movimentou cerca de US$ 4,1 bilhões em 2003. "Não há estatísticas sobre esse tipo de demanda no Brasil", afirmou.
Fornecedores selecionados
Contudo, esse montante é quase igual ao que movimenta todo o mercado brasileiro de cosméticos, perfumaria e higiene pessoal. Até outubro de 2003, o setor alcançou receita de R$ 8,8 bilhões, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos (Abihpec).
Para conquistar o mercado norte-americano, Lima vai trabalhar com a imagem da floresta amazônica, pois a linha da empresa é composta por matérias-primas, em sua maioria, extraídas dessa região. Os insumos são adquiridos de fornecedores como as empresas Chemyunion, Beraca e Croda. Segundo o empresário, eles tiveram de ser cuidadosamente selecionados por causa das exigências dos consumidores desse mercado. "Eles querem produtos que proporcionem bem estar e tratem o corpo e a mente, mas que sejam provenientes de programas de manejo sustentado das florestas", disse Lima.
As companhias fornecedoras da Florestas compram as matérias-primas, que transformam para uso cosmético, das populações ribeirinhas do Amazonas, que têm na colheita de sementes e outras espécies de plantas nativas, que se desprendem naturalmente, sua única fonte de renda. "Esse tipo de extrativismo visa a preservação da floresta, já que antes essas famílias sobreviviam do corte das árvores e da venda de madeira." Além de todos os produtos serem 100% vegetais - elaborados somente com extratos de plantas, flores e sementes -, a Florestas também só utiliza fragrâncias naturais e óleos minerais em suas composições.
Todo o processo de pesquisa, seleção de fornecedores, desenvolvimento e testes de fórmulas levou cerca de dois anos, conforme Lima. Muitos produtos são feitos a base de substâncias exóticas, como rosa mosqueta, andiroba, copaíba, cupuaçu, açaí e castanha do Pará. Mas a empresa também utiliza plantas mais conhecidas, como camomila, alecrim, sálvia, abacate, babosa, laranja doce e lavanda. Os xampus, condicionadores, sabonetes líquidos, cremes para o rosto e loções para o corpo, entretanto, não levam corantes e sal nas formulações. Os testes não podem ser feitos em animais. A linha "ecologicamente correta é testada em seres humanos".
Parte do lucro irá para ONGs
As fórmulas exclusivas foram desenvolvidas por químicos e farmacêuticos brasileiros - da Universidade de São Paulo (USP), em São Paulo, e da Universidade Estadual de Londrina, no Paraná -, especializados na área de produtos naturais. De acordo com Lima, para explorar o mercado norte-americano um dos requisitos é que a empresa tenha linha de produção própria. A Florestas tem capacidade atual para fabricar cerca de uma tonelada por dia de xampus e shower gel.
O empresário ainda não tem estimativa de faturamento no Brasil e na Europa. No País, ele pretende trabalhar com sistema de franquia, mas sua linha já está à venda em farmácias homeopáticas, spas e lojas de cosméticos e produtos naturais, ao preço médio de R$ 13 a unidade. Para completar a identidade "ecologicamente correta", a Florestas destinará 5% do lucro para organizações não governamentais que trabalham com a preservação das matas.
Iolanda Nascimento
GM, 17/02/2004, Industria e Serviços, p. A25
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