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Floresta plantada para salvar árvores

GM, Opinião, p. A3
Autor: TABACOF, Boris
20 de Ago de 2004

Floresta plantada para salvar árvores

Boris Tabacof

O uso de árvores plantadas para fins industriais não pode ser confundido com a derrubada de florestas nativas. A indústria de base florestal planta árvores, como o agricultor planta soja, milho ou feijão. Planta e colhe madeira, matéria-prima vital para a economia. Só corta árvores que planta, numa atividade sustentável que dará renda e emprego a gerações futuras dos brasileiros. É politicamente correto defender as árvores que são cortadas especialmente para a produção industrial. É muito nobre calcular quantas árvores são salvas quando se utilizam outras técnicas e materiais em substituição à madeira. O escritor Gabriel Zaid diz, de forma irônica, no seu livro intitulado "Livros demais!": "Talvez o maior tributo da moderna tecnologia às vantagens do antiquado livro seja a tentativa de desenvolver uma tela eletrônica tão fina e flexível quanto o papel, que teria a mesma aparência visual e tipográfica do livro e até mesmo uma sensação tátil idêntica. Leitores de livros eletrônicos disfarçados de livros impressos". A eletrônica poderá contribuir para tais evoluções, mas as impressoras e os equipamentos reprográficos têm aumentado o consumo do papel. Provavelmente, os vários meios de comunicação se desenvolverão como num leque, sempre se abrindo para diferentes formas de utilização. Mas a questão central na alegada salvação das árvores reside na falta de percepção clara de que o corte de árvores em vários países como Brasil, China, em parte dos Estados Unidos, e até no Japão, é feito em maciços florestais plantados. É obvio que se, por absurdo, tais árvores fossem "salvas" do corte e uso industrial, não seriam mais plantadas e não haveria mais o que salvar. Segundo a FAO, organização das Nações Unidas para alimentos e agricultura, e o seu Comitê Consultivo do Papel e Produtos de Madeira, existem no mundo 187 milhões de hectares de florestas plantadas, principalmente de eucaliptos, acácias, seringueiras, pinus e teca. Das plantações florestais, 50% são para uso industrial, 25% para uso não-industrial (lenha, conservação e outros) e 25% para usos não-especificados. O Brasil, pioneiro no uso do eucalipto para a fabricação de papel, detém apenas 3% das florestas plantadas no mundo. No cômputo da plantação de novas florestas, cerca de 3,3 milhões de hectares por ano, o nosso país deverá plantar 500 mil hectares, ou seja, 15% do total mundial. Isso significa que rapidamente aumentará a participação no âmbito global, com variedades altamente produtivas, sobretudo do eucalipto, cujo desenvolvimento tecnológico é trabalho de brasileiros. A exportação de celulose e papel já contribui com US$ 2,5 bilhões para o superávit da balança comercial brasileira. E vai crescer ainda mais, com os investimentos que já foram anunciados. Há várias questões mal entendidas a respeito da atividade florestal no Brasil. A indústria florestal já dá emprego direto a mais de 100 mil brasileiros, além de atuar como efeito multiplicador na criação de postos de trabalho, em regiões geralmente fora dos grandes centros urbanos. É o meio de vida de muita gente. Via de regra, os plantios ocorrem em terras marginais, já degradadas, havendo na verdade recuperação da cobertura florestal, inclusive de áreas de espécies nativas intercaladas nos maciços destinados ao uso industrial, o que significa que as plantações de árvores para fins industriais não substituem as culturas de alimentos. A crescente participação de pequenos proprietários no reflorestamento, induzida pelas empresas produtoras de celulose, representa um reforço para a agricultura familiar. O pequeno produtor rural, que geralmente se limita ao plantio de subsistência, passa a ter também uma produção que lhe gera dinheiro vivo quando vende as árvores, sem deixar de plantar alimentos na parte melhor da sua terra. Histórias de que o eucalipto seca a terra não têm fundamento científico. As plantações bem orientadas comprovadamente mantêm a umidade natural das áreas próprias e das circunvizinhas. A floresta plantada não reduz a biodiversidade. Animais, pássaros e insetos de variadas espécies, como pode ser verificado nos próprios locais, encontram alimento, abrigo e condições de reprodução no habitat das florestas de eucalipto e pinus. A plantação de árvores para vários usos pode diminuir a pressão sobre as florestas nativas, mesmo da região amazônica, ao oferecer alternativas sustentáveis para a crescente demanda de madeira. A implementação do Protocolo de Kyoto é outra oportunidade ambiental e econômica para a plantação de florestas. Estas seqüestram carbono no seu processo de crescimento, constituindo-se nos chamados carbon sinks, sumidouros do excesso de carbono na atmosfera, que podem ser transformados, nos termos de Kyoto, em créditos para compensar os excessos poluidores das economias ricas.

kicker: A plantação de árvores para vários usos pode diminuir a pressão sobre as florestas nativas

Boris Tabacof - Presidente do conselho deliberativo da Bracelpa, chairman do Advisory Committee on Paper and Wood Products da FAO/ONU e vice-presidente do conselho de administração da Suzano.)

GM, 20-22/08/2004, Opinião, p. A3

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