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A floresta é mais estacional no outono

Marcos Sá Corrêa - http://marcossacorrea.com.br
Autor: Marcos Sá Corrêa
25 de Jun de 2010

Os ambientalistas que me perdoem, mas a língua que eles usam achando ser a portuguesa tem uma certa dívida a saldar com a natureza brasileira. Atrancou-lhe o caminho com palavras difíceis de engolir, como bioma. Para os iniciados, ela pode ser indispensável para designar uma "grande comunidade estável e desenvolvida, adaptada às condições ecológicas de uma certa região, e geralmente caracterizada por um tipo principal de vegetação" etc.

Mas, para quem ainda está tateando o assunto ou, pior ainda, dando os primeiros passos em direção à natureza, a palavra soa como nome de uma vaga doença desconhecida, talvez um novo sintoma da hipocondria cósmica com que os anti-ecológicos instistem em diagnosticar nos ecologistas. E, vamos e venhamos: "bioma mata atlântica" é quase um convite a não se aproximar da floresta, um espantalho verbal afastando lhos intrusos.

Essa conversa fiada veio por conta do outono que, sem obediência cega ao calendário, vai acabando aos poucos no parque do Iguaçu, retardado pela temporada interminável de chuvas que, este ano, ainda não deu tempo sequer para o fundo das trilhas secar - quanto mais a floresta à sua volta. Talvez por isso mesmo, ele teve a chance de se revelar aos poucos. O que dá ao forasteiro a chance de perceber aquilo que, passando por sua frente em velocidade de cruzeiro, talvez continuasse desapercebido.

Por exemplo, que Iguaçu tem mesmo outono. Não é como aqueles que amarelam de um dia para o outro montanhas inteiras no hemisfério norte. Ou mesmo os que avermelham de repente os vales aos pés da Patagônia andina. No Iguaçu ele vem em manchas. Uma folhagem aqui, outra avermelha adiante. E, no fim, juntando as coisas, mais cedo ou mais tarde o mais distraído dos turistas aprender, na prática, o que quer mesmo dizer a tal da floresta estacional semidecídua.

Sim, ela muda com a estação. E também perde folhas. O chão da mata fica diferente. E as copas mais altas, quando se desfolham, abrem embaixo clareiras provisórias, que as flores e as lianas parecem estar esperando para pegar sol exatamente na parte do ano onde ele sobe mais tarde e cai mais cedo. Mas, entre o fim da manhã e o começo da noite, a floresta fica ensolarada. O bosque rasteiro que até outro dia passava meio desapercebido como uma massa mais ou menos informe de vegetação opaca ganha destaque e perspectiva.

No entardecer, o sol bate transversalmente num dossel que deixou de ser continuo, para se encher de falhas providenciais, que abrem alas para a luz chegar a troncos e galhos que passaram metade do ano na sombra impenetrável das árvores dominantes. Aí, o pássaro que outro dia mesmo não passava de só uma voz sem forma ou de uma silhueta escura se cobre de cores vivas que nunca se mostraram antes. Aparentemente, há mais bichos. Na realidasde, os bichos ficaram mais expostos na mata escancarada, além de estar cercados de tentações por todos os lados pela safra de frutas nativas.

O rio Iguaçu continua com água de sobra para contentar os turistas, para baixou o suficiente para expor os jacarés de papo amarelo nos barrancos de suas ilhas. E, sobretudo, para quem, por vício, assiste a tudo isso pelas lentes de uma câmera, a luz ficou mais fotogênica, sem os contrastes excessivos do verão e os filtros da névoa que o calor mantém dia e noite no ar. Em resumo, floresta estcional semidecídua, na prática, quer dizer que até uma fotografia panorâmica das cataratas do Iguaçu pode ter menos cataratas do que o espetáculo colorido da estação.

http://marcossacorrea.com.br/2010/06/25/a-floresta-estacional-se-revela…

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