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Flores em VIDA

O Globo, Segundo Caderno, p. 1
10 de Dez de 2012

Flores em VIDA
O artista plástico Frans Krajcberg recebeu a mais alta condecoração da cidade de Paris, onde lança, em janeiro, livro com 50 imagens da natureza brasileira

FERNANDO EICHENBERG
Correspondente em Paris
eichenberg@oglobo.com.br

PARIS - Antes de embarcar para a França, no último dia 19, o artista plástico Frans Krajcberg, 91 anos, passou no hospital Samaritano, no Rio, para receber um atendimento e encontrou o seu amigo Oscar Niemeyer, 104 anos, que viria a falecer quinze dias depois.
- Ele me disse: "Não pense na sua idade. Trabalhe. Trabalhe muito". Era um grande amigo - contou Krajcberg na sexta-feira passada, logo após receber das mãos do prefeito de Paris, Bertrand Delanoë, a Medalha de Vermeil e de manifestar sua tristeza pela morte do arquiteto.
A condecoração, a mais alta concedida pela municipalidade de Paris a personalidades com ações de destaque, contou com as presenças da ministra brasileira da Cultura, Marta Suplicy, e do embaixador José Maurício Bustani.
O nonagenário Krajcberg, polonês naturalizado brasileiro, tem revelado na prática seguir os conselhos do amigo Niemeyer, mantendo uma vida ativa e também de ativista . No dia 14 de janeiro, na Fundação Cartier, na capital francesa, lançará o livro "Novo manifesto do naturalismo integral", ilustrado com 50 fotografias de natureza feitas no Brasil, nos últimos dez anos, por ele e pelo francês Claude Mollard. A obra terá um edição brasileira com lançamento no Rio de Janeiro, no Jardim Botânico, em 12 de abril, data em que Krajcberg completará 92 anos. O texto surge 35 anos após o chamado "Manifesto do Rio Negro", co-assinado com o crítico de arte Pierre Restany e o pintor Sepp Baendereck - e fruto de uma expedição na Amazônia -, em que são delineados os princípios do naturalismo integral pela exaltação da natureza original como um poder purificador e catártico da imaginação a serviço da sensibilidade.
Krajcberg justifica o novo manifesto por seu nítido desencanto com a desatenção do homem ao ambiente nos dias de hoje.
- No Brasil, a maior ameaça é a destruição da Amazônia. No sul da Bahia e no Espírito Santo, havia a floresta mais linda e rica do planeta, e foi tudo completamente destruído. Só sobraram eucaliptos. Deputados e senadores votaram pela exploração da madeira. E ninguém pensa no povo que mora nessas matas. É muito grave tudo o que está acontecendo.
Numa volta no tempo, relembra umas de suas viagens pelo Rio Negro, em que, junto ao explorador francês Jacques Cousteau, avistou um enorme fogo. A dupla foi averiguar de perto o que estava acontecendo.
- Quando vi, Cousteau estava sentado no chão, chorando. Perguntei: "O que houve, por que você está chorando?". Ele respondeu: "Olhe lá", apontando para uma índia com a filha em carvão nos seus braços. Mostrei essa foto no Fórum Mundial de Davos, na Suíça, e a plateia se levantou aos gritos. Quando retornei ao Brasil, havia dois policiais federais me esperando: "O senhor nos entrega essa foto e nunca mais fale sobre isso". E eu tenho cara de entregar minhas fotos para alguém?
Krajcberg denuncia o menosprezo diante de crescentes perigos para o ambiente, mas também acusa um empobrecimento cultural.
- Ninguém quer enxergar a decadência no movimento cultural do planeta. Onde mais se sente isso é aqui em Paris. Não há mais o grande movimento artístico de outra época. A imigração de artistas não existe mais. Devemos ter a coragem de reconhecer que se está num vazio absoluto - diz.
"Mais radical"
Com o novo manifesto, sua ideia é a de arregimentar artistas para o seu combate naturalista. Objetivo partilhado por Mollard - que preside a Associação de Amigos Frans Krajcberg e também é autor de uma biografia sobre o artista brasileiro -, para quem o texto que será divulgado no mês que vem é "mais radical" do que aquele lançado em 1978:
- Dizem que a arte tem cada vez mais a ver com a natureza, mas a própria natureza está em perdição. É preciso achar meios de expressão artística que contribuam para a preservação da natureza como um reservatório das formas naturais, da imensidade da criação, que está desaparecendo. Insistimos ao mesmo tempo na dimensão artística e humana. Trata-se de um grito de alerta mais radical e protestatário, um chamado para as opiniões públicas. O sentido desse manifesto é o de dizer aos artistas: juntem-se a nós, engajem-se pela causa do naturalismo.
Mollard acusa os ecologistas de não possuírem nenhum "sentido da arte" e de se restringirem a uma "visão técnica" do mundo.
- Eles confundem os meios e os fins. O tema crucial é que sociedade queremos, que liberdade, que solidariedade entre os homens, que relação com a natureza. O naturalismo é trabalhar "com", "sobre" e "na" natureza, mas é, sobretudo, viver em harmonia. É um modo de vida. O objetivo desse manifesto é o de alertar que vamos rumo à catástrofe: estamos no Titanic, sabemos que ele vai naufragar, e tocamos música. Estamos nessa situação.
Na sua opinião, Krajcberg é o exemplo perfeito da encarnação desse embate. Pierre Restany, diz ele, era um homem do bairro parisiense de Saint-Germain-des-Près, do "asfalto", que "queimava os pés na areia", e Krajcberg é o "homem da natureza".
- Ele é o precursor absoluto. Selecionou nas formas da natureza sinais, cores e valores provando uma outra significação. Transformou a natureza em cultura pela arte. E colocou isso em prática: foi viver na floresta, numa casa em cima de uma árvore, em seu ninho em Nova Viçosa (BA). Há uma total coerência entre o indivíduo e seus propósitos.

O Globo, 10/12/2012, Segundo Caderno, p. 1

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