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Flagelados pelo clima

CB, Ciência, p. 34
17 de Dez de 2009

Flagelados pelo clima
Enquanto chefes de Estado debatem o texto final sobre as mudanças climáticas, os países atingidos por fenômenos naturais cobram uma solução concreta. Em nove anos, um terço da população mundial foi vítima do aquecimento do planeta
Cristiana Andrade
Enviada especial

Copenhague - As perdas econômicas decorrentes dos desastres naturais relacionados às mudanças climáticas somaram US$ 863 bilhões entre 2000 e este ano, segundo o Centro de Pesquisas Epidemiológicas de Desastres (Cred), organização ligada à Universidade Católica de Louvain, em Bruxelas.

De acordo com o Cred, no mesmo período, foram 3.770 ocorrências, que mataram 778,7 mil pessoas e afetaram 2,1 bilhões, um terço da população mundial.

Os números não apenas mostram a urgência de um acordo global até amanhã, em Copenhague, onde ocorre a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre as Mudanças Climáticas (COP-15), bem como a necessidade real de se falar em financiamento para adaptação e mitigação a longo prazo, um dos graves entraves do encontro. A única proposta aventada até agora partiu da União Europeia, que disse que poderia dispor de algo em torno de US$ 20 bilhões por ano para ajudar os países mais pobres.

O que, num prazo como o avaliado pelo Cred, significaria o retorno de 22% do que foi perdido com as catástrofes em nove anos.

Este ano, 58 milhões de pessoas foram prejudicadas, de alguma forma, por desastres ambientais. Foram 245 eventos, dos quais 224 relacionados à água. Onze milhões de pessoas foram atingidas por enchentes, houve 8.919 mortes, e os prejuízos chegaram a US$ 19 bilhões, segundo o Cred. Os dados foram compilados entre janeiro e novembro deste ano. No Quênia, 3,8 milhões de pessoas precisam de alimentos e assistência. A Ásia é outro continente especialmente vulnerável a tempestades e enchentes. Entre janeiro e novembro, 48 milhões de pessoas foram afetadas por eventos relacionados à água. No Brasil, as mudanças climáticas já são percebidas em várias regiões, como as últimas chuvas torrenciais no Sul, em Minas e no Rio da Janeiro. Por outro lado, a seca no Nordeste tende a se agravar nas próximas décadas.

Segundo a representante especial das Nações Unidas para Redução de Riscos em Desastres (UNISDR), Margareta Wahlström, as estatísticas de 2009 são um pouco melhores comparadas a anos anteriores - em 2007, 178 milhões de pessoas foram atingidas por enchentes, e, no ano passado, 45 milhões. Mas ela diz que os fenômenos climáticos extremos continuam ocupando o primeiro lugar da lista de preocupações da UNISDR.

"Além disso, eles vão continuar afetando metade da população mundial que está altamente exposta e vive nas regiões costeiras", disse.

Sofrimento Ulric Trotz, que mora na Guiana e pertence ao Centro de Mudança Climática da Comunidade Caribenha,
teme que a piora dos tufões, enchentes e outros eventos extremos dizimem comunidades inteiras. "Estamos muito preocupados, pois já temos perda e sofrimento. Não podemos deixar que a temperatura global aumente em 2oC. No ano passado, tivemos de importar 50% de óleo combustível.

Precisamos desenvolver tecnologias e nos adaptar." Para Raja Jarrah, assessor de Mudanças Climáticas da Care International, organização não governamental que atua em vários países do mundo, inclusive no Brasil, com ajuda humanitária, a questão dos refugiados ambientais tende a piorar se as medidas não forem tomadas em tempo. Ele diz que os projetos da Care tentam manter o homem no campo, fazendo com que se adapte localmente. Mas, quando o problema estoura, seja por um evento climático, seja por guerra pela água ou pela terra, são criados os campos de refugiados, onde a organização dá ajuda pontual.

"Temos priorizado as ações de maior magnitude, principalmente na zona semiárida da África (Sudão, Senegal, Mali, Burkina Fasso, Costa do Marfim, entre outras). Ali, ajudamos a comunidade a ter um elo melhor de venda com os compradores de carne ou de grãos; para que não passem fome, ensinamos como estocar a carne seca, orientamos a não deixar o gado solto, pastando sempre no mesmo lugar. Mas o grande desafio é que as consequências das mudanças climáticas também são de longo prazo, e nos próximos 20 e 30 anos tendem a piorar. Esse é o desafio: essas comunidades travam guerras diárias para comer, para sustentar sua família, para encontrar água. Então, tentamos conscientizar sobre essas alternativas para o dia-a-dia, com a questão ambiental, mas não é nada fácil", reconhece.

CB, 17/12/2009, Ciência, p. 34

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