VOLTAR

Filho e neto de indigenistas, Odenir Pinto contatou xavantes e 'índios gigantes'

Globo Amazônia - http://www.globoamazonia.com/
Autor: Lucas Frasão
21 de nov de 2010

Odenir Pinto fez o primeiro curso de indigenismo promovido pela Fundação Nacional do Índio (Funai), em 1970. Mas sua experiência em proteger povos indígenas no Brasil é uma herança de berço, uma vez que a história de sua família tem laços fortes com a própria formação do indigenismo no país.

Seu avô, Otaviano Calmon, deixou o Espírito Santo rumo a Minas para ingressar na profissão de indigenista, aos 15 anos. Mais tarde, em Mato Grosso, trabalhou com Marechal Rondon, criador do Serviço de Proteção do Índio e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPI), fundado em 1910. A criação do órgão simboliza o início do indigenismo no país, que celebra neste ano seu primeiro centenário.

Calmon passou o bastão de indigenista para seu filho, Pedro Vanni, que casou-se com Joana Pinto, enfermeira do SPI. O casal foi viver na aldeia Bakairi, na margem direita do Rio Paranatinga, em Mato Grosso. Lá nasceu Odenir Pinto, na época em que se faziam os primeiros contatos com um grupo de indígenas xavante, habitantes das redondezas.

Ainda sem contato pacífico com sociedades não indígenas, os xavante haviam sido expulsos de sua área original, segundo Odenir, por homens armados. Os funcionários da SPI prepararam outro local perto dali, batizado de Retiro do Azul, para alocar os indígenas retirados à força de suas terras. "Queríamos mostrar para esse grupo de xavantes que ali havia um pessoal em paz. O primeiro contato foi meio inesperado e eu tinha uns 5 anos de idade", diz Odenir.

Por toda sua infância e adolescência, Odenir conviveu muito próximo aos indígenas. Viveu com os xavante e os bakairi e fala com fluência a língua desses povos. Mas apesar da educação que o fazia praticamente um indigenista desde criança, ele tentou outra profissão antes de ingressar na Funai.

Odenir trabalhava na Souza Cruz, produtora de cigarros, quando morreu seu avô, em 1968. Seu pai morreu no ano seguinte, enterrado por xavantes em uma aldeia. A perda dos parentes despertou em Odenir a vontade de seguir oficialmente a profissão de indigenista e, em 1970, ele ingressou no primeiro curso para a formação de indigenistas promovido pela Funai no Brasil.

"Fui para Brasília fazer o curso. Eram 52 novos técnicos indigenistas em todo o país", lembra Odenir, que teve 6 meses de aulas teóricas antes de partir para uma vivência de mais 6 meses com índios em uma aldeia. No fim do curso, ainda houve um treinamento no Xingu para aprender a sobreviver na selva.

O primeiro emprego surgiu logo após a conclusão do curso, quando ele foi enviado ao Amazonas para trabalhar com os mura apirahã, um dos principais grupos a empreender, no século 19, um movimento conhecido historicamente como Cabanagem. "Aconteceu no Amazonas e no Pará e os mura eram um dos principais promotores. O movimento era uma resistência contra europeus que estavam chegando e tomando conta da Amazônia. Os mura sofreram tudo que vocês podem imaginar, foram perseguidos, caçados e se espalharam", diz.

Nenhuma das 28 aldeias dos mura estava demarcada quando Odenir chegou ali, no início dos anos de 1970. Segundo ele, a região era muito rica em castanha e atraía sobretudo nordestinos. "Eram levados pela Funai, que dava documento de índio para eles poderem plantar", diz Odenir. "A região era complicadíssima. O posto indígena funcionava como uma base policial para proteger as reservas. Mas todo mundo entrava e saía. Como a polícia militar mais próxima estava muito distante, você precisava administrar conflitos e fazia tudo. Virava policial, delegado, juiz e tinha até que fazer casamento", lembra o sertanista.

A experiência de Odenir no Amazonas dura 3 anos. Ele teve de deixar a área porque o governo precisava, em Mato Grosso, de alguém que falasse a língua dos xavante. "Esse povo havia rompido a relação pacífica com o governo porque eles resolveram demarcar suas terras", diz Odenir. "A medida que os xavantes começaram a reinvidicar suas terras, fazendeiros e proprietários na região também se organizaram para fazer uma represália contra os índios."

O clima entre as duas partes era conflituoso, segundo o sertanista. "Estavam chegando os primeiros colonos fazendeiros estimulados por um programa do governo no Sul do país para ocupar a região. Ali ao lado dos xavantes, ocorria a Guerrilha do Araguaia. A solução dos militares foi ocupar as terras com grandes fazendas. Os xavantes se viram em uma situação tão complicada que resolveram fazer novamente contatos pacíficos com os brancos", diz.

Segundo Odenir, a estrutura da Funai, criada em 1967, era pequena na área. O órgão era pressionado por militares, lembra ele. Mesmo com diversos conflitos, indígenas e indigenistas conseguem a demarcação da reserva Pimentel Barbosa. "Isso era muito significativo para os xavantes. Mas depois dessa demarcação a situação ficou muito complicada. Não havia possibiildade de viver lá dentro. Para eu conseguir sair, tiveram que vir 4 deputados, 2 estaduais e 2 federais. Eu estava absolutamente ilhado dentro da minha casa", diz Odenir.

Perseguido durante a ditadura, o sertanista foi anistiado em 1993. Na década de 1970, porém, seu ofício exigia proteger povos indígenas em uma área cercada por interesses comerciais e que atraía migrantes de todo o país. "Para se ter uma ideia, o Banco do Brasil de Barra do Garças (município no sudeste de Mato Grosso), em sucessivos anos bateu recorde de financiamento para agropecuária no Brasil. Alguns índios não conseguiam nem dormir com o barulho dos tratores, que trabalhavam 24 horas por dia".

Na opinião do indigenista, a demarcação das terras indígenas dos xavante era, na época, uma questão de sobrevivência da etnia. "Ou se fazia a demarcação do jeito que foi feito (sem a realização de estudos antropológicos, por exemplo) ou não se teria mais como fazer", diz ele, que depois, durante a carreira, voltou a trabalhar com os bakairi e na frente de atração de Peixoto de Azevedo, no norte de Mato Grosso, onde participou do contato com os krenacarore (panará), chamados pela imprensa de "índios gigantes".

http://www.globoamazonia.com/Amazonia/0,,MUL1631107-16052,00-FILHO+E+NE…

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.