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A Fiat leva a água de volta ao Vale do Jequitinhonha

GM, Nacional, p. A1; A5
29 de jul de 2004

A Fiat leva a água de volta ao Vale do Jequitinhonha

Minas Novas (MG) - Principal grupo empresarial instalado em Minas Gerais, com receita anual superior a US$ 11 bilhões, a Fiat do Brasil buscava, no ano passado, uma ação social que apresentasse resultados mais duradouros que a simples distribuição de cestas básicas para o Programa Fome Zero. Acabou encontrando uma solução que não só está resolvendo o problema de fome para muita gente como também sendo um valioso instrumento de propaganda, de vendas e de teste de resistência para os tratores da marca.
Trata-se do projeto denominado Barraginhas, que consiste na abertura de pequenos reservatórios de água, que estão sendo perfurados na zona rural do município de Minas Novas, um dos mais extensos, pobres e áridos do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais.
Em um ano e meio, foram abertas quase 1,2 mil "barraginhas" numa região pobre e árida. O trabalho não poderia ser mais simples: uma pá-carregadeira cava um buraco de cerca de dois metros de profundidade por 30 metros de diâmetro para segurar a água que, durante as chuvas de verão, desciam desgovernadas pelos boqueirões e rapidamente tomavam o caminho do mar. A água neles empoçada penetra no solo e irriga o lençol freático, que inunda os poços e mantém úmido o chão, onde brota a horta da família. Ainda não há números precisos para dimensionar o sucesso do empreendimento, iniciado há 18 meses e que já resultou na abertura de quase 1,2 mil barraginhas ao longo dos 1,8 mil quilômetros quadrados que constituem a área do município de Minas Novas (MG). No entanto, todas as partes envolvidas no projeto têm uma boa história para contar.
O engenheiro agrônomo da Embrapa, Luciano Cordoval, que é o coordenador técnico das construções dos pequenos açudes, lembra que voltaram a correr, durante alguns meses do ano, muitos dos 70 córregos que cortam o município e que pareciam definitivamente secos. A sua expectativa é de que com a construção de outras represas, todos os riachos se tornem perenes.
Os habitantes da zona urbana se deparam com mais verduras no mercado e, praticamente, não precisam aguardar, ansiosamente, os caminhões carregados de produtos agrícolas que chegam todas as semanas de Belo Horizonte, a mais de 500 quilômetros de distância, e que agora aparecem em menor quantidade. Os produtos são mais frescos, colhidos ali mesmo e, o que é igualmente importante, estão mais baratos. Uma dessas fornecedoras de hortaliças é Ivonete Cordeiro de Oliveira que mora diante de uma das barraginhas na comunidade do Bentinho, a poucos quilômetros de distância da sede do município. Seu problema agora é que, com a construção de muitos outros açudes, aumentou a oferta de produtos no mercado, os preços estão caindo, mas ela já pensa em cultivar legumes incomuns na região, como o quiabo.
Na zona rural, um grande número de moradores já dispõe de água na porta, em volume suficiente para regar suas hortas e para evitar o suplício diário das viagens de até quatro quilômetros - no percurso de ida e volta - para saciar, em alguma vereda, a sede de seus modestos rebanhos. Graças a essas pequenas arapucas para agarrar a água, mas até então inacessíveis àquela paupérrima população, camponeses como João Martins Soares, 51 anos, 11 filhos, não se obrigam mais a embarcar em ônibus com destino a São Paulo, em busca de serviço nas plantações de cana.
Essas migrações constituem um dos espetáculos mais dolorosos no Vale do Jequitinhonha e se repetem a cada ano, sendo encenados por mais de 40 mil humildes trabalhadores, que deixam sem nenhum amparo, até às vésperas do Natal, verdadeiras multidões de viúvas de maridos vivos e seus cardumes de filhos. Como ocorre no início de cada outono os ônibus de agenciadores de bóias frias continuaram recolhendo muita gente na região mas, em Minas Novas, muitas poltronas retornaram vazias, como a do lavrador João Soares.
Foi ampla a safra de benefícios que veio com a água das barraginhas. Até o ano passado, a prefeitura de Minas Novas era obrigada a despachar três caminhões-pipa todos os dias para a zona rural em socorro dos seus 23 mil moradores. Nos meses mais quentes era necessário até a ajuda do Exército. Hoje, praticamente desobrigada dessa desesperada demanda (ainda envia um caminhão por dia) a prefeita Telma Wenceslau, que é irmã de caridade, se animou a licenciar-se por mais quatro anos da Ordem das Salesianas para tentar a reeleição. Sua meta é construir outras nove mil barraginhas nos próximos quatros anos, consolidando este que é o seu maior programa de seu governo.
Quando começou a construção dos pequenos açudes, a prefeitura dispunha apenas de uma pá-carregadeira emprestada pela Fiat do Brasil por um período de três meses. Hoje, ela conta com três máquinas próprias - financiadas pelo governo federal - e o empréstimo feito pela Fiat não somente foi estendido por tempo indeterminado como acrescido de outros dois tratores. A frota cresceu muito, é verdade, mas a quantidade de tratores parece insuficiente, diante do enorme volume de pedidos que deságua diariamente em seu gabinete.
Num município com receita de R$ 600 mil reais, quase toda consumida com salários e transporte de água e sem recursos para investimentos, a barraginha - ou "o buraco da prefeita", como desdenha a oposição - tornou-se o símbolo da sua administração. "Antes, tudo era resolvido de forma emergencial, através de cestas básicas e caminhões-pipa. Nós preferimos encarar a questão com mais profundidade, oferecendo condições de sobrevivência e trabalho para a população" explica a prefeita.
Sua meta é a de construir outras nove mil barraginhas nos próximos quatro anos. Se a solução foi correta ou não, será julgada pelo povo nas eleições de três de outubro, finalizado uma campanha eleitoral acirrada que tem entre os candidatos até o ex-senador Murilo Badaró, que é filho da terra. De qualquer forma, ao contrário de quase todos os outros municípios da região, dois terços dos habitantes de Minas Novas vivem na zona rural e é ali que estão os eleitores da freira.
A Fiat tem, também, suas razões para estar satisfeitíssima com o projeto, sendo a mais visível a recompensa moral que decorre da contribuição pela melhoria de vida dos moradores de uma das regiões mais esquecidas do país. Mas aquelas máquinas cavando buracos dia-e-noite, incansavelmente, acabaram chamando a atenção de outros prefeitos e de empresas que plantam eucalipto na região. Essa admiração resultou na compra de três máquinas da marca pela prefeitura de Minas Novas, operação de R$ 500 mil patrocinada pelo governo federal.
Também um número um número não revelado de outros prefeitos da região compraram tratores Fiat, Case e New Holland (todas as marcas são do mesmo Grupo), com objetivo de espalhar a experiência em seus municípios. Cada pá-carregadeira custa em torno de R$ 200 mil, mas o trabalho necessita da complementação de motoniveladoras e de tratores de esteira.
Um dos idealizadores do projeto, o engenheiro Valentino Rizzioli, que é presidente da Case New Holand, empresa da Fiat, encara com naturalidade os eventuais negócios desenvolvidos pela empresa na região. A organização é a maior fabricante de máquinas agrícolas e de construção da América Latina e no caso, sua atenção está voltada para o desenvolvimento da região. "A obra foi escolhida porque, ao mesmo em que trabalha na redução da pobreza, possibilita o crescimento sustentável das comunidades, gerando o aumento da riqueza local", explicou.
No momento, a Fiat participa do projeto com as três máquinas emprestadas à prefeitura e com o pagamento dos seus operadores. Até o final do ano o projeto será ampliado com um programa que terá com o objetivo de tirar melhor proveito da situação. Até lá, em decorrência das águas retidas e infiltradas no solo, muitos córregos deverão estar correndo novamente e, então, a Fiat organizará cooperativas para desenvolver atividades agrícolas que poderão contar até com ajuda do governo italiano.

GM, 29/07/2004, Nacional, p. A1 e A5

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