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Festa na Floresta

Veja, Brasil, p. 76-77
18 de Set de 2013

Festa na Floresta

Kalleo Coura

O governador de Roraima é suspeito de distribuir centenas de títulos fraudulentos de terras. Entre os agraciados, políticos, juízes de tribunais e também sua mulher, em cujo nome está um terreno de 1 milhão de metros quadrados adquirido por 25.000 reais O governador de Roraima, José de Anchieta Júnior (PSDB), é um privilegiado. Costuma passar seus fins de semana cercado de verde, numa casa erguida em um terreno de 1,1 milhão de metros quadrados a apenas 30 quilômetros da capital do Estado, Boa Vista.
No jardim, ele tem à sua disposição uma enorme piscina que a mulher, Shéridan de Anchieta, mandou fazer na forma da letra J, uma homenagem singela ao marido. Mas, além de privilegiado, Anchieta Júnior é muito bom de negócios. Segundo o recibo de compra e venda da propriedade (em nome de Shéridan), o terrenão saiu pela bagatela de 25.000 reais. E foi comprado de um rapaz de 19 anos que, de acordo com a papelada, se tornou proprietário dele aos 12 anos.
Obviamente, o Ministério Público Federal não acredita em nada disso. E suspeita que o rapaz de 19 anos, filho de um funcionário do Iteraima, órgão fundiário do Estado, seja um "laranja" usado para despistar o fato de que alguém fraudou papéis para se tornar titular de uma terra pública - crime ao qual se dá o nome de grilagem e que nunca foi incomum no Estado, mas que, desde 2009, passou a grassar por lá como cipó na Floresta Amazônica.
Naquele ano, um decreto presidencial repassou ao Estado de Roraima 6 milhões de hectares de terras. O decreto cumpria dessa forma, e com um atraso de mais de vinte anos, o que estava previsto na Constituição de 1988, quando Roraima deixou de ser território federal para virar Estado. Ocorre que, no mesmo instante em que passaram oficialmente ao Estado, esses milhões de hectares viraram alvo de desenfreada grilagem. Acrescentados na conta alguns terrenos vizinhos, o Ministério Público suspeita que grupos de grileiros tenham se apossado de até 8 milhões de hectares de terras em Roraima, o que equivale a pouco menos que o território de Portugal. A se confirmarem esses números, esse será o maior escândalo de grilagem já registrado no Brasil.
O governador José de Anchieta Júnior assumiu o governo de Roraima em dezembro de 2007. Pouco mais de um ano depois, deu-se a transferência das terras da União para o Estado. Em vez de combater as fraudes que se disseminavam em ritmo industrial nos cartórios, a administração de Anchieta passou a fazer vista grossa a elas e a distribuir a alguns poucos agraciados títulos de posse das terras griladas. Segundo denúncias, muitos dos contemplados fazem pane do círculo íntimo, familiar ou estratégico do governador. Nessa última categoria estaria, por exemplo, a mulher de Henrique Machado, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Outra beneficiada foi a mulher do desembargador Gursen de Miranda, presidente do Tribunal Regional Eleitoral. Miranda é alvo de uma investigação no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) por suspeita de ter feito uma série de manobras para beneficiar o governador no julgamento de um processo eleitoral. Na lista de presenteados pela administração de Anchieta Júnior, constam ainda cônjuges de secretários de governo, primos do governador e promotores de Justiça.
Apesar da aparente desenvoltura, Anchieta Júnior é um político recente - está há menos de dez anos na profissão. Sua carreira começou em 2004, quando foi convidado para ser secretário estadual de Infraestrutura. Pequeno empreiteiro, foi casado com uma sobrinha da mulher do então governador do Estado, Ottomar Pinto. Em pouco tempo, mostrou-se um hábil negociador e ganhou a simpatia de prefeitos e outros políticos a ponto de, na convenção para as eleições de 2006, um grupo de 22 deputados estaduais e federais ter ameaçado deixar de apoiar Ottomar Pinto caso Anchieta não fosse o candidato a vice. Pinto, que já tinha definido outro companheiro de chapa, cedeu, mas declarou: "Vocês vão se arrepender". No ano seguinte. Pinto morreu, vítima de um infarto, e José de Anchieta assumiu o governo do Estado. Sem experiência, alinhou-se ao eterno líder do governo no Senado Romero Jucá (PMDB), a quem hoje considera um mentor.
O governador José de Anchieta Júnior nega que tenha cometido irregularidades na concessão de títulos e que tenha regularizado à força de uma canetada o terreno que hoje lhe pertence. A propriedade pela qual ele e sua mulher pagaram 25.000 reais está avaliada atualmente em 2 milhões de reais, casa incluída, e não consta da declaração de bens entregue à Justiça Eleitoral em 2010.

Veja, 18/09/2013, Brasil, p. 76-77

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