OESP, Vida, p. A20
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
31 de Out de 2007
Feiúra urbana é sintoma de corrupção
Marcos Sá Corrêa
Céu azul, mar verde e, na curva da Rio-Santos, aparece, sob o ar lavado pela chuva da semana passada, a cidade histórica de Angra dos Reis. Ela transborda as encostas do litoral recortado por oito baías, duas mil praias e 365 ilhas, "uma para cada dia do ano". A visão dura pouco, mesmo na viagem emperrada por buracos no asfalto, quebra-molas e lombadas eletrônicas. Mas o que se vê de relance dá de sobra para todos a bordo concluírem, numa só exclamação impublicável de espanto, que Angra cresceu muito.
Ela virou um favelão. Isso não impede que continue dizendo ao viajante: "Desacelere, você chegou ao paraíso." Angra não poupa elogios a si mesma e à sua "natureza soberana, num dos lugares mais bonitos do Brasil". Apresenta-se como uma "expressão de requinte" na costa brasileira.
Sabe tudo o que tem de bom. Mas se corrompeu da noite para o dia, numa década em que a população crescia em média 0,5%. Favelizou-se, inclusive, numa fase em que três prefeitos petistas fizeram um elogiado ensaio municipal do novo jeito de governar, com prioridades sociais, reuniões comunitárias e orçamentos participativos.
As favelas subiram
os morros e roeram pelas beiradas a Serra do Mar, sem dar a mínima para o plano diretor, onde o município faz de conta que todas as edificações estão proibidas acima dos 60 metros. O centro histórico desfigurou-se irremediavelmente. "Hoje está bastante modificado", pois "os casarões antigos e as ruas de paralelepípedo vão dando lugar a construções mais modernas e ruas asfaltadas", segundo o que a prefeitura publica na internet.
Angra ficou irreconhecível. Mas, nela se reconhece a cidade que anda nos jornais há uma semana por causa da Operação Carta Marcada. Há 29 mandados de prisão contra secretários municipais, empreiteiros, funcionários da Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente e políticos. Eles vendiam licenças ambientais no governo do PMDB há pelo menos dois anos - ou, segundo a polícia, pelo menos R$ 80 milhões.
Depois do flagrante, o prefeito Fernando Jordão alegou que não sabia de nada. Foi traído, aparentemente, pelas pessoas que nomeou para cargos de confiança na prefeitura. A corrupção era um segredo bem guardado atrás de lanchas, casas de praia e os carros alegóricos do enriquecimento ilícito, como picape Ranger importada. Para furar a barreira de discrição, a polícia mobilizou 13 delegacias e grampeou 60 telefones. Não precisaria de tanto esforço se os brasileiros tivessem aprendido a reconhecer, na feiúra de suas cidades, um sintoma da falência múltipla dos órgãos públicos, em que a propina não passa de infecção oportunista.
É jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)
OESP, 31/10/2007, Vida, p. A20
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