CB, Cidades, p. 30
Autor: FREITAS, Conceição
30 de Abr de 2005
Feitos um para o outro
Crônica da Cidade
Conceição Freitas
Oito e meia da noite de ontem, Esplanada dos Ministérios, canteiro central, a 200 metros do Congresso Nacional. Índios de mais de 80 etnias, de todos os quadrantes do território brasileiro, do Rio Grande do Sul a Rondônia, dançam forró sobre o gramado, sob a tenda de circo. Estão rodeados de malocas feitas de barracas de lona preta, cobertas com folhas de palmeiras. Há crianças, adolescentes e adultos vestidos à moda dos brancos, um ou outro paramentados à moda indígena.
Durante cinco dias, de segunda a sexta-feira desta semana, cerca de 700 índios representando 87 etnias acamparam no canteiro central da Esplanada, epicentro das decisões do poder federal e, ao mesmo tempo, do urbanismo de escala monumental. Os índios ocuparam um grande clarão no centro da cidade modernista de dois milhões de habitantes. Tinham 360 graus de céu ao alcance de suas crenças, suas divindades e suas mitologias.
Todo o povo indígena cabe na Esplanada, todas as manifestações sejam de índios, de sem-terra, de produtores, de improdutivos, contra a violência, a favor do aborto, pelo aumento do salário mínimo, pela diminuição de impostos, para depor um presidente, para festejar a eleição de outro presidente, tudo cabe na Esplanada. Cabe tanto que ela nunca se entope de gente. Por isso, é difícil se ter a sensação de coletividade, de pertencimento a uma multidão, como aquela que se viu, por exemplo, na Praça de São Pedro ou, para dar um bom exemplo brasileiro, no Círio de Nazaré em Belém do Pará. Milhares de pessoas grudadas umas nas outras, sentimento de humanidade que Brasília não pode nos dar, por conta de sua abundância de espaço.
Exceto para os povos indígenas, que precisam de léguas, hectares e alqueires para viver. Para eles, o canteiro da Esplanada é o lugar ideal para abrigá-los na cidade grande. Sentiram-se muito à vontade no mar de grama onde montaram sua aldeia multi-étnica. Os povos de Rondônia, os Puruborá, Cujubim, Wayuru, Jabuti, Miquelenos, Cassupá, Mucurá, Muqui, Karitano, Madeirinha, Gavião e Bom Futuro. Os povos do Rio Grande do Sul, de nomes mais abrasileirados: Morro do Osso, Ponte da Formiga, Velhaco, Lomba do Pinheiro, Estrela Velha.
Fogueiras enormes arderam durante as madrugadas, produzindo efeitos cinematográficos na solidão.;,, noturna da Esplanada.
O abril indígena terra livre acampou na Esplanada trazendo uma pauta de reivindicações para melhorar a vida de quem aqui estava antes da civilização branca chegar. Na tenda colorida sobre o gramado verde abril, eles discutiram seus maiores problemas: demarcação, saúde, educação, sustentabilidade das terras indígenas. Visitaram gabinetes e deixaram uma cruz de bambu com um penacho de folhas secas bem no meio da Esplanada, "um gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse".
CB, 30/04/2005, Cidades, p. 30
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