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Feira de trocas de sementes valoriza a produção tradicional quilombola

Jornal Regional, Cidades, p. A3
17 de Jul de 2009

Feira de trocas de sementes valoriza a produção tradicional quilombola

A chuva não deu trégua no sábado, 11 de julho, mas isso não desanimou a agricultora Nilce de Pontes Pereira que saiu do local onde mora - o quilombo Ribeirão Grande-Terra Seca em Barra do Turvo, para participar -junto com outros cerca de 70 agricultores representantes de 17 quilombos da região, da II Feira de Troca de Sementes e Mudas das Comunidades Quilombolas do Vale do Ribeira, realizada no salão paroquial em Eldorado. Nilce levou, com o seu grupo, cerca de 200 quilos de produtos para trocar na feira. Na volta, trouxe na bagagem mais ou menos a mesma quantidade de outras variedades, após a troca efetuada com as demais comunidades.
Diretora-secretária da Associação Remanescente de Quilombos Ribeirão Grande-Terra Seca, Nilce anotou em um caderno toda a lista de produtos trocados, para depois poder repassar as informações aos demais membros da sua comunidade. E haja variedade na lista: de feijão, o grupo de Barra do Turvo levou o preto, o pardinho, o roxinho, o de corda, o de porco, o guandu e a mucuna. De arroz tinha o "governinho", o "três meses" branco e o comum. No caderno também estavam relacionadas as sementes da palmeira juçara, de urucum, além de mudas de cana e de diversas espécies de plantas medicinais. Com a troca, o grupo levou para o bairro variedades como a mandioca "pão do céu", a mandioca de fritar, carámandioca, taiá roxa, arroz "talo roxo", graviola, acerola, canela e feijão canário.
Além de trocarem sementes e mudas, também comercializaram açúcar mascavo, rapadura, melado e mel produzidos pela comunidade. A representante das 77 famílias que vivem no Quilombo Ribeirão Grande/Terra Seca explicou a importância da feira para os quilombos. "A gente sempre se encontra para discutir sobre problemas fundiários, questões ligadas ao meio ambiente e a outros temas quilombolas. Mas a Feira facilitou a integração e o diálogo entre os agricultores sobre um assunto que é a raiz da comunidade quilombola: a forma de produzir, o modo que cada comunidade utiliza a terra, como cultiva cada alimento e como cada cultura se desenvolve", disse.
"Aqui tive oportunidade de conhecer várias espécies diferentes, saber como essas plantas crescem e como desenvolver melhor a nossa produção no quilombo", acrescentou Sandra Rosa de Oliveira, diretora da Associação da Comunidade Porto Velho, localizada no município de Iporanga, onde vivem 21 famílias. Na feira, trocaram produtos como a cana-caiana, a mandioca-manteiga, o milho palha roxa, o arroz "quatro meses", além de venderem farinha de mandioca, bolo e paçoca de amendoim, mel e própolis, produzidos pela comunidade

Produção diversificada e segurança alimentar

A II Feira de Troca de Sementes e Mudas das Comunidades Quilombolas contou com a presença de representantes dos municípios de Eldorado, Iporanga, Itaoca, Barra do Turvo, Iguape e Cananéia. Foi promovida pelas Associações Quilombolas da re-gião e o Instituto Socioambiental (ISA), em parceria com o ITESP, MAIS, Equipe de Articulação das Comunidades Negras do Vale do Ribeira (EACONE), Fundação Florestal, e com apoio do Ministério de Assuntos Exteriores da Itália, Organização de Ajuda da Igreja da Noruega, Ministério do Desenvolvimento Agrário e Prefeitura de Eldorado.
"A troca, o resgate e a valorização das sementes e mudas tradicionais das comunidades promovidas pela feira têm o objetivo de fortalecer a pequena produção e a sua diversificação", ressaltou Luca Fanelli, representante no Brasil da organização não-governamental italiana MAIS, que apoia projetos e intercâmbio de experiências em desenvolvimento sustentável com pequenos agricultores de vários países. Ele explicou que as mudas e sementes tradicionais têm procedência diferenciada e são adaptadas às características climáticas e do solo da região e às condições tecnológicas das comunidades. "O agricultor planta, colhe e planta novamente utilizando-se daquela muda ou semente da sua própria produção'. Luca Fanelli deu exemplos de variedade de arroz trocada na feira em Eldorado que, ao contrário do arroz normalmente comercializado, pode ser "pilado"; ou ainda, de variedade de milho que possui uma casca mais grossa e, por isso, apresenta maior durabilidade.
A coordenadora adjunta do "Programa Vale do Ribeira" do Instituto Socioambiental (ISA), Raquel Pasinato, destacou a pre-sença na feira de grande quantidade de variedades de mandioca, cará, de mudas de espécies nativas da Mata Atlântica cultivadas nos viveiros das comunidades, além da banana e mel orgânicos. "A troca destas variedades tem o objetivo de estimular a diversificação das roças de subsistência tradicionais, fazendo com que as comunidades que haviam perdido algumas espécies tenham a chance de recuperar esse plantio e melhorar a sua produção, facilitada também com a troca de experiências feita entre os agricultores". Segundo o ISA, a utilização das sementes tradicionais promove a independência e a segurança alimentar das comunidades, que podem produzir, usar, melhorar, trocar e comercializar sementes livremente

Almoço com receitas do "Slow Food"

O evento também valorizou a tradição das comunidades através das apresentações culturais realizadas - como o fandango e as cantigas - e ainda com o almoço oferecido aos participantes. No cardápio, alimentos produzidos pelos agricultores quilombolas. Na entrada quente foi servida uma canja com galinha caipira, o prato principal foi feito com frango caipira, banana cozida, inhame, abobora e chuchu refogados. Acompanhava arroz branco socado no pilão, feijão, mandioca cozida e frita, farinha de mandioca e farrofa de ostra, além de salada de rúcula e alface. Na sobremesa, torta de banana com trigo integral e açúcar mascavo.
O cardápio foi elaborado com receitas cedidas por chefes de cozinha de São Paulo que participam do "Slow Food", um movimento internacional que defende o direito fundamental ao prazer da boa alimentação, com a utilização de produtos artesanais de qualidade, produzidos de forma sustentável, respeitando tanto o meio ambiente e a saúde dos consumidores como os produtores, responsáveis pelo alimento produzido.

Jornal Regional, 17/07/2009, Cidades, p. A3

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