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Febre amarela provoca caça e morte de macacos

OESP, Metrópole, p. A11
03 de Mar de 2017

Febre amarela provoca caça e morte de macacos
Ao menos dez cidades relatam casos ou denúncias de execução, incluindo registros de traumas, tortura e até de animais carbonizados

José Maria Tomazela ,
O Estado de S. Paulo

Um macaco encontrado morto por traumatismo craniano há uma semana, em São José do Rio Preto, interior de São Paulo, reforçou a suspeita de que esses animais estão sendo caçados e abatidos por serem depositários do vírus da febre amarela. Com ele, já são 25 os primatas que morreram neste ano no município e a maioria pode ter sido executada - 15 a pedradas e pauladas, 4 atados com cordas e 1 carbonizado. Apenas um deles estava doente. Pelo menos outras nove cidades têm casos semelhantes ou denúncias.
O risco de matança de macacos por medo da febre amarela já mobiliza os órgãos públicos. O 4.o Batalhão da Polícia Militar Ambiental intensificou a vigilância em áreas de matas com a presença de macacos. Em Severínia, foram achados espécimes mortos com ferimentos suspeitos na Matinha do Rubião. De 22 primatas que habitavam a área, restam 8. Um macaco encontrado morto no bairro Santa Rita, em Franca, na terça, pode ter sido vítima da ação humana, segundo a prefeitura.
A Polícia Ambiental de Bauru, que atende 39 municípios, recebeu denúncias da presença de caçadores em matas. Um suspeito foi detido com armas e munição em Arealva. Depois que um jovem de 17 anos adoeceu em Santa Cruz do Rio Pardo, cinco macacos foram encontrados mortos no Bairro Cachoeira, onde o rapaz teria sido contaminado. Dois deles apresentavam ferimentos.
Em Américo Brasiliense, onde uma idosa morreu com febre amarela após contrair a doença em uma mata local, também houve denúncias, não confirmadas, de ataques a macacos. A diretora de Saúde, Eliana Marsili, fez um apelo para que a população não se voltasse contra os animais. "Os macacos são nossas sentinelas, nos avisam quando o vírus está circulando."
Segundo Danilo Teixeira, presidente da Sociedade Brasileira de Primatologia, todos os primatas são suscetíveis ao vírus da febre amarela, sendo os bugios (gênero Alouatta), alguns saguis (Callithrix) e micos (Cebus) os mais sensíveis, podendo morrer da doença. "Eles são tão vítimas da febre amarela quanto os seres humanos. São hospedeiros do vírus, como nós somos também. Mas quem transmite são os mosquitos", ressaltou."O ser humano só se contamina quando entra na mata. Ali está exposto a ser picado."
Investigação. Em Ribeirão Preto, dos 35 macacos achados mortos neste ano, entre eles uma família de bugios, 5 tinham a doença. Outros resultados são aguardados. De acordo com o secretário de Saúde, Eleuses Paiva, cada vez mais são registradas causas externas para as mortes. Um deles, por exemplo, foi carbonizado e outro sofreu traumatismo.
Fora da região onde se concentram os casos de febre amarela no Estado, também há indícios de caça aos macacos. Um espécime foi resgatado com ferimentos em Ferraz de Vasconcelos, região metropolitana de São Paulo, mas acabou morrendo. Os exames indicaram que a doença não foi a causa da morte. Em São Roque, dos três macacos achados mortos, um óbito foi consequência de ferimentos que podem terem sido causados pelo homem.
De acordo com a Secretaria da Saúde do Estado, de janeiro de 2016 a 14 de fevereiro de 2017 foram registradas 228 epizootias (situação de adoecimento ou óbito) para febre amarela entre macacos, sendo confirmados 32 casos da doença em primatas nas regiões de Ribeirão Preto, Barretos, Franca, São José do Rio Preto e Sorocaba.
Em Minas Gerais, a matança de macacos levou a Polícia Militar a divulgar um comunicado, alertando que matar animal silvestre é crime ambiental punido com prisão sem direito à fiança e multa. "Com a eliminação dos macacos, cada vez mais os mosquitos se aproximam do homem, espalhando ainda mais a doença", diz o texto do informe. Em Simonésia, houve denúncia de mortes de primatas por tiros e envenenamento.
Alerta. Até esta quinta-feira, 2, foram notificados 1.411 casos suspeitos da doença no País. Há 915 sob investigação e 352 (24,9%) confirmados. Das 224 mortes em análise, 113 foram confirmadas. Minas Gerais, foco do surto, tem 1.088 notificações em 87 cidades e 92 óbitos confirmados.

TRÊS PERGUNTAS PARA...
Danilo Teixeira, da Sociedade Brasileira de Primatologia
1. Qual é a relação dos macacos com a febre amarela?
Todos os primatas são suscetíveis ao vírus da febre amarela, sendo os bugios (gênero Alouatta), alguns saguis (Callithrix) e micos (Cebus) os mais sensíveis, podendo morrer da doença. Eles são tão vítimas da febre amarela quanto os seres humanos. São hospedeiros do vírus, como nós somos também. Mas quem transmite são os mosquitos.
2. Matá-los pode proteger as pessoas?
Pelo contrário. Os macacos funcionam como sentinelas, são nossos anjos da guarda. Quando eles ficam doentes e morrem, o Ministério da Saúde, que vigia esses animais, tem como saber para onde o vírus está se deslocando e intensificar a vacinação. Se tira o bicho, não tem como saber que o vírus está ali até as pessoas começarem a ficar doentes.
3. Os macacos, então, acabam nos protegendo?
Exatamente. O ser humano só se contamina quando entra na mata. Ali está exposto a ser picado pelos mosquitos./ COLABOROU GIOVANA GIRARDI

Cidade paulista com 1ª morte faz 'operação de guerra' contra febre amarela
Américo Brasiliense registrou óbito em janeiro

José Maria Tomazela ,
O Estado de S. Paulo

SOROCABA - Desde que a cidade registrou a primeira morte por febre amarela no Estado de São Paulo, em janeiro deste ano, os 38,2 mil habitantes de Américo Brasiliense, na região norte do Estado, estão em guerra contra o vírus. Dois meses após o óbito, o Departamento de Saúde contabiliza 3,5 mil domicílios visitados e 2,4 mil pessoas vacinadas apenas na área urbana. Na zona rural, onde aconteceu a contaminação, equipes foram de casa em casa e aplicaram 130 vacinas.
Desde janeiro, a prefeitura retirou 150 caminhões com possíveis criadouros de mosquitos transmissores da doença, entre eles o Aedes aegypti, que também transmite dengue, vírus da zika e chikungunya. Cartazes de alerta foram espalhados pelo município. Grande parte desse trabalho é feita por voluntários, segundo a diretora de Saúde do município, Eliana Marsili. "Mais de 150 pessoas se apresentaram para nos ajudar nos trabalhos de panfletagem e orientação da população."
No retorno das aulas, a campanha contra a doença entrou nas escolas. Os alunos foram desafiados a fazer trabalhos sobre a febre amarela e a levar o conteúdo para os pais. "Está sendo realmente uma operação de guerra. Tivemos até uma equipe da Força Nacional da cidade para nos ajudar. O resultado é que não tivemos nenhum outro caso", disse.
Cachoeira. A única vítima da febre amarela, Luíza Pires de Oliveira, de 68 anos, moradora do bairro urbano Santa Terezinha, morreu no dia 3 de janeiro, depois de apresentar os sintomas da doença. A filha Regina de Oliveira Garcia conta que, no dia de Natal, depois do almoço em família, a mãe quis ir à Cachoeira do Pirapora, que fica na zona rural de Santa Lúcia, cidade vizinha. "Ela estava muito bem de saúde e, naquele domingo almoçou com a gente, animada e bem disposta. Com fazia muito calor, foi dela a ideia de irmos na cachoeira. Já no dia seguinte começou a passar mal."
Regina conta que dona Luíza começou a reclamar de dores de cabeça, febre e que vomitava tudo o que comia. Regina levou a mãe ao pronto-socorro do Hospital Municipal, onde ela tomou soro e fez exames de sangue e urina. No dia seguinte, a mãe continuou com vômitos e na quarta-feira, 28, no retorno ao médico, ela foi informada sobre a suspeita de dengue.
Nos dias seguintes dona Luíza continuava mal e, segundo a filha, os médicos continuavam falando em dengue, até que decidiram transferir a paciente para a Santa Casa de Araraquara. "Lá, ela foi direto para a UTI (Unidade de Terapia Intensiva) e não saiu mais com vida. Só então houve diagnóstico da febre amarela." A doença foi confirmada por exames no Instituto Adolfo Lutz.
A morte, a primeira causada pela doença este ano no Estado, foi constatada no dia 3 de janeiro. O caso foi tratado como autóctone (contraído na própria cidade), pois a vítima não viajou para outras regiões. Ela não tinha recebido a vacina. Segundo Regina, sua mãe era uma mulher forte e, apesar de ter sofrido um enfarte, dois anos atrás, continuava muito ativa. Luíza tinha ficado viúva havia 20 anos, com 11 filhos. O mais novo, de 24 anos, morava com ela. Além dos filhos, dona Luíza deixou 12 netos e seis bisnetos. "Minha filha de três anos ainda pergunta por ela e digo que vovó está no céu", diz Regina.

OESP, 03/03/2017, Metrópole, p. A11

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