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Fazendeiros investem na recuperação de matas

OESP, Agrícola, p. G6
27 de out de 2004

Fazendeiros investem na recuperação de matas
Produtos de fazendas "ambientalmente corretas" têm melhor aceitação

Ibiapaba Netto
Especial para O Estado

O reflorestamento de áreas devastadas e a recomposição de matas ciliares são práticas que já representam mais um fator de agregação de renda para pequenos, médios e grandes produtores. As vantagens econômicas de reflorestar são várias, seja em benefícios diretos e indiretos à propriedade e até à produtividade das lavouras, ou na obtenção de selos certificadores que abrem portas para o mercado externo.
Segundo o professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) Ricardo Rodrigues, especialista em reflorestamento, "as exigências ambientais, principalmente para exportação, serão cada vez mais severas e quem quiser espaço no mercado mundial deverá se enquadrar".
Há seis anos investindo num amplo programa de reflorestamento, a Usina Vale do Rosário, com sede em Morro Agudo, região de Ribeirão Preto (SP), já reflorestou 258 hectares. Segundo a empresa, foram plantadas cerca de 405 mil mudas. Sua área total, entre própria, de fornecedores e parceiros, é de 93 mil hectares, dos quais 75 mil estão cobertos por cana. Suas terras pertencem a dez municípios e o programa prevê o reflorestamento de 2.380 hectares em Áreas de Preservação Permanente (APP). O objetivo, segundo o coordenador do projeto da Vale do Rosário, Milton Jarreta Júnior, é a obtenção do ISO 14.000, certificado ambiental internacional.
A Vale do Rosário faz parte de um grupo de usinas da região que exportam parte do açúcar que produzem. As exportações da empresa representam 40% do faturamento e a certificação ambiental, segundo Jarreta, é uma antecipação a futuras exigências do mercado internacional. "Quem não produzir com responsabilidade ambiental corre o risco de ficar de fora desse mercado."
Benefícios
Reflorestar, porém, não é vantajoso apenas para grandes produtores. Com 30 hectares de milho plantados e a retirada de 400 litros/dia de leite numa área total de 55 hectares, José Luís de Souza é um médio produtor em Socorro, região de Bragança Paulista (SP). Para promover melhorias em suas terras, ele entrou no Programa de Microbacias Hidrográficas do Estado de São Paulo, que destina recursos para a recuperação de áreas degradadas.
Durante a seca, parte do gado pastava próximo das APPs, o que impedia a regeneração da mata. Uma das encostas quase veio abaixo por causa da força da água de uma chuva. "Mudamos quase todo o sistema produtivo para restaurar a mata, cuidar das encostas e melhorar a alimentação do gado", explica.
Na área próxima à encosta problemática, foram plantadas árvores nativas, numa faixa de 20 metros de largura por 350 metros de comprimento, entre um rio e um remanescente de mata. Num dos pastos, cana-de-açúcar foi plantada para alimentar o gado durante a seca, que antes pastava nas áreas de preservação. "A cana plantada no alto também serve para diminuir a força d'água, quando as chuvas fortes chegam." Além disso, ele dividiu o pasto em piquetes e adotou o sistema de pastejo rotacionado, para o melhor aproveitamento do capim. Cercas de madeira também foram dadas pelo programa estadual. "É uma troca que se faz. Você refloresta e ganha uma assistência de primeira", diz.
Com a mata refeita, Souza conta que melhorou seu sistema produtivo e não gastará mais dinheiro consertando os danos da chuva. "Ainda vamos restaurar algumas áreas para chegar nos 20% de reserva legal", diz. "Além de fazer um bem para a região melhorei minha propriedade."
Menos Gastos
Pequeno produtor de hortaliças, com 2,8 hectares cultivados também em Socorro, o produtor Sidney Barrel recompôs uma faixa de 200 metros de mata ciliar, replantando espécies nativas 15 metros a partir da margem do Ribeirão do Meio, estreita faixa de água que corta sua região. Durante anos ele conta ter sofrido com erosão na época das chuvas, por causa das margens desprotegidas do Ribeirão. Segundo ele, o volume de água da propriedade melhorou e a área que antes era acometida por deslizamentos, hoje abriga nabos-forrageiros, para melhorar a terra para o próximo plantio. "Com pouca, temos de aproveitar todos os espaços."
Na faixa de mata reconstituída, espécies nativas, como pitangueiras e goiabeiras foram plantadas. "Logo que elas começarem a produzir ele fará geléias para comercializar, agregando mais renda à propriedade", diz a extensionista da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral Salete de Fátima, que coordenou o reflorestamento. Barrel diz estar estudando maneiras de melhorar a qualidade da água, para obter a certificação de produtor orgânico.

OESP, 27/10/2004, Agrícola, p. G6

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