O Globo, Economia, p. 31
29 de Nov de 2013
Faltou gás no leilão
Apenas 30% dos blocos licitados pela ANP foram arrematados, a maior parte pela Petrobras
RAMONA ORDOÑEZ, BRUNO ROSA E
MARCELLO CORRÊA
economia@oglobo.com.br
Apesar do resultado fraco, foi melhor do que se esperava. Essa foi a opinião de empresários e especialistas presentes na 12ª. Rodada de Licitações, realizada ontem pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). Com foco na exploração de gás natural em terra, dos 240 blocos ofertados em sete bacias, apenas 72 áreas ( 30%) em cinco bacias foram arrematadas por doze empresas.
A maior parte das áreas arrematadas está em regiões onde, segundo a ANT há potencial para a exploração de gás não convencional (shale gas). Mais uma vez, a Petrobras foi a protagonista, levando ao todo 49 blocos. Desse total, a estatal adquiriu sozinha 27 áreas e outras 22 em parceria com pequenas e médias empresas.
O leilão arrecadou bônus de R$ 165 milhões, dos quais mais de 70%, ou R$ 120 milhões, da Petrobras. Coube à estatal também o maior ágio - 6.718,39%, em um bloco na Bacia do Recôncavo na Bahia - e o maior valor pago - de R$ 15,147 milhões, também na Bahia. Gigantes petrolíferas, como a francesa Total e a anglo-holandesa Shell, apesar de habilitadas, não participaram do leilão.
Das 21 empresas habilitadas, 12 participaram, quatro estrangeiras: Alvopetro (Colômbia), GDF Suez (França), Trayectoria (Panamá) e Geopark (Bermudas).
PARANÁ, A ESTRELA DO LEILÃO
A diretora geral da ANP, Magda Chambriard, considerou natural a forte participação da Petrobras e disse que as grandes empresas não entraram no leilão pois têm interesse em explorar petróleo no mar: - A Petrobras tem sido a grande capitã desse time ao longo de todos esses anos. É a protagonista da indústria do petróleo no Brasil, e não esperaríamos que justamente agora ela desistisse desse protagonismo. Segundo fontes, o governo federal tinha ambições comedidas com a 12ª. Rodada.
As autoridades sabiam que boa parte dos blocos oferecidos ainda possui um nível restrito de informações quanto ao seu potencial, o que implica grande risco para investidores que assumam compromissos ' de investimentos milionários. A ideia era conceder o que fosse possível desta vez para que, nas próximas rodadas, seja possível receber bônus maiores por áreas nos arredores dos blocos onde for encontrado gás não-convencional.
A Bacia do Paraná, inexplorada até agora, foi considerada a estrela do leilão para a diretora geral da ANP. Isto porque, dos 19 blocos ofertados, 16 foram arrematados. Magda destacou a participação da Copel, empresa de energia do Paraná, que formou consórcio em quatro blocos. - Nesta rodada, pretendemos semear a cultura de gás em terra no Brasil. Blocos em bacias de novas fronteiras, como a do Paraná, estão sendo arrematados agora, com a maior compreensão dos dados geológicos pelas empresas. Em 2008, essa bacia não recebeu ofertas - disse Magda.
Agora, foi a vez de as bacias de São Francisco, na Bahia, e Parecis, em Mato Grosso, não receberem lances. Segundo Magda, isso demonstra a necessidade de serem feitos mais estudos no próximo ano. A Bacia do Acre, que recebeu apenas uma proposta da Petrobras, também foi lembrada pela diretora geral como alternativa: - o Acre é uma nova opção de exploração no Norte.
Nesta rodada, estamos reiterando a importância de bacias maduras, como Sergipe-Alagoas e Recôncavo. Essas duas bacias citadas por Magda receberam 54 propostas de empresas como Ouro Preto, GDF Suez, Nova Petróleo, Cowan, Alvopetro e Trayectoria, além da Petrobras. Ricardo Savini, diretor do Centro de Excelência de Petróleo e Gás da Deloitte, lembrou que as bacias maduras foram as mais disputadas, pois já contam com infraestrutura para transportar o gás:
- Nessas áreas, já há um conhecimento geológico, diferentemente de outras regiões. No geral, o resultado veio acima da expectativa, esperávamos arrecadação de R$ 120 milhões. Muitas bacias ofertadas não têm uma base de conhecimento. Segundo a ANP os 72 blocos terão investimento mínimo obrigatório de R$ 503,5 milhões.
As taxas de conteúdo local oscilaram de 72,61%, na fase de exploração, a 84,47%, no desenvolvimento. O ministro em exercício de Minas e Energia, Márcio Zimmermann, disse que a decisão de realizar o leilão este ano é reflexo da importância crescente do gás no mundo. - O Brasil vai se tornar um dos maiores produtores de petróleo e, por outro lado, precisa começar o desenvolvimento das bacias em.terra, com foco em gás. A ANP não deve fazer novos leilões ano que vem. (Colaborou Danilo Farielo).
DO PANAMÁ PARA O NORDESTE
Além da Petrobras, que levou 49 blocos de um total de 72 arrematados no leilão de ontem, outra empresa que chamou atenção dos participantes foi a panamenha Trayectoria, que levou dez blocos nas Bacias do Recôncavo e de Sergipe-Alagoas. Juntas, essas áreas vão consumir investimentos mínimos de cerca de R$ 4,8 milhões somente na fase exploratória.
A diretora da companhia, Dora Muñoz, disse que está disposta a explorar tanto o gás natural convencional quanto o não-convencional (como o shale gas ou gás de folhelho). - O grupo tem 25 anos. Hoje temos atividades em países como Colômbia, Peru, Equador e Guatemala. A nossa atuação é em exploração e produção em terra.
A concorrência com a Petrobras foi muito grande; por isso, fizemos mudanças (em nossas propostas) na última hora - disse Dora, lembrando que a. companhia tem uma produção atual de 1 .500 barris de petróleo por dia nos países onde atua. A empresa chegou ao Brasil na 10ª. Rodada, em 2008, quando levou um bloco no Recôncavo.
Além disso, diz um executivo do setor, a empresa está conversando com companhias no Brasil para adquirir novas áreas e, assim, ampliar sua presença no país. A retomada das rodadas da Agência Nacional do Petróleo (ANP) também está atraindo outros empresários ao setor, que estão criando novas companhias, de olho nos próximos leilões em terra. (R.Q. e B.R.)
O Globo, 29/11/2013, Economia, p. 31
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